Pior é quem contrata godinhos lopes

Crónica publicada no Diário de Notícias e no Dinheiro Vivo

Opinião

O espectáculo dado por Godinho de Matos abre as portas às mais variadas reflexões, mas desta vez vou ficar-me pelo espelho que é da falta de cultura de mercado das empresas portuguesas [perdoem-me as exceções] e do persistente desrespeito pelos investidores, sobretudo os pequenos.

Atente-se ao que disse o ex-administrador independente do banco que foi de Ricardo Salgado e que lá estava sobretudo para zelar pelos interesses dos acionistas minoritários: “Em seis anos entrei mudo e saí calado, bem como todos os administradores.”

O caso do BES é, de facto, perigoso em muitos aspetos, também porque é propício a generalizações, mas neste caso justifica-se. Em Portugal, infelizmente, é assim, muitas empresas que decidiram expor-se em troca de financiamento direto, através da bolsa, só se lembram dos seus acionistas anónimos quando precisam deles, que é como quem diz quando querem mais dinheiro. A maioria encara as obrigações decorrentes do facto de estar cotada como um fardo. Por exemplo, perante um pedido de informação relevante, é frequente as empresas responderem que não facultam esses dados porque não têm de o fazer, não são cotadas. E no final da resposta, sente-se um suspiro de alívio. Há muitos segredos nas empresas portuguesas – o BES é exemplar – e não são industriais nem de Estado. Adia-se, até mais não poder a decisão de admissão à cotação num mercado regulamentado e prefere-se o financiamento junto da banca, suportando custos de intermediação. E depois é a pescadinha de rabo na boca. De que serve estar cotada numa bolsa sem liquidez e profundidade e onde a transparência é rara? Os investidores não fazem negócio nesses mercados, pelo contrário, preferem pagar mais em Londres porque têm a garantia de que aí dificilmente haverá surpresas.

Ainda sou do tempo do capitalismo popular, da dourada década de 90 do século passado, quando qualquer um tinha ações em carteira, quando tudo estava a nascer e se acreditava que Lisboa iria ser uma verdadeira praça financeira. Entretanto muita coisa aconteceu, vivemos uma crise sem precedentes e, claro, a bolsa, o reflexo da economia nacional e do estado das nossas empresas, foi definhando. O BES foi a estocada final.

Agora, que já se começa a falar na recuperação, seria bom que também se pensasse na bolsa, se aprendesse com os erros e se percebesse, finalmente, que a existência de um mercado de capitais tem um papel insubstituível no desenvolvimento económico e social. E que a redução dos custos de intermediação proporcionados pelo financiamento direto é um fator de competitividade e potenciador de crescimento. Comece-se pelo extermínio da categoria de gestores que contratam godinhos de matos para figuras de corpo presente.

Advertisements

Quando os media devem ser muito estúpidos

Opinião

Crónica publicada no Dinheiro Vivo e no Diário de Notícias

Quantas pessoas viram as fotografia íntimas de Jennifer Lawrence e de outras celebridades, colocadas online esta semana? Ninguém sabe ao certo, mas podemos estimar, sem grande margem de erro, que foram muitos, mesmo muitos, milhões de pessoas.

Pessoas comuns, como eu e você, que por terem coscuvilhado a privacidade da atriz não passaram, repentinamente, a ser criminosas, ou umas grandessíssimas perversas. Um simples olhar não é um ato de violação sexual, como quem viu as imagens não deve ser equiparado a um predador sexual. É, por isso, uma tolice defender a punição, não só para os hackers que expuseram a intimidade destas figuras públicas, mas também para quem, ainda que pelos motivos mais estúpidos, clicou nos links para aceder às ditas fotografias.

Agora, isto não é igual a dizer que está tudo bem, que a decisão de ver as fotografias foi correta e que daí não vem mal ao mundo. Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, também pelos conteúdos que consumimos.

Imagine que, num belo dia, chegava, como todas as manhãs, ao seu local de trabalho e que, minutos mais tarde, percebia que toda a gente, mesmo toda a gente, tinha acedido, contra a sua vontade, a informação pessoal, privada e constrangedora.

Bastaria um segundo para tentar colocar-se no lugar de Jennifer Lawrence para, provavelmente, perceber que o facto de as imagens estarem disponíveis não é argumento suficiente para justificar tamanha invasão de privacidade. Porque é que é condenável escutar atrás das portas, ou abrir correspondência alheia e já é aceitável ver fotografias íntimas de figuras públicas, publicadas sem a sua autorização, só porque estas estão à distância de um clique?

De moral e bons costumes, cada um toma a dose que lhe convier e o debate é infinito e pode ser pantanoso, mas estes casos são sempre mais uma oportunidade para pensarmos sobre o nosso papel enquanto consumidores de conteúdos. Ver – e partilhar -, ou não estas fotografias, como ver ou não o vídeo, posto a circular na internet, da decapitação do jornalista norte-americano James Foley, ainda que a situação seja infinitamente mais grave, devem ser decisões ponderadas, pelas consequências que têm.

Outra reflexão importante. Porque é que os conteúdos, informativos e não só, deixaram de satisfazer os consumidores? Porque é os consumidores ignoram as notícias, informação útil e relevante, e absorvem, numa compulsividade assustadora, tanto lixo, tanta inutilidade? Os media têm sido responsabilizados pelo estado das coisas, acusados de não saber chegar aos seus clientes, de não compreenderem o público. Pode ser, mas não é só isso, não pode ser só isso. De qualquer forma, falo por mim, nestes casos, será sempre preferível que os media se mantenham estúpidos.

Tiger. Design ao preço da loja dos trezentos

Paulo Borges

Fotografia de Jorge Amaral/Global Imagens
Texto publicado no Dinheiro Vivo

Atenção: se depois de ler esta notícia ficar entusiasmado e decidir entrar numa loja Tiger em Portugal, corre o sério risco de não conseguir sair de lá de mãos a abanar.

Feito o aviso, prepare-se porque irá sentir-se verdadeiramente rico – o ideal nos tempos que correm -, irá, provavelmente, pegar num dos cestos, estrategicamente colocados à entrada, e enchê-lo, ao longo de um labirinto que desemboca na caixa.

Um micado gigante, um estojo que é um frasco de ketchup, um caderno cuja capa é uma tabela periódica, chá branco com aroma de pêssego, bagas de goji, especiarias, aquele prato com pedestal para bolos, que sempre desejou, vasos de vidro para pendurar na parede, e mais um sem número de coisas. Muitas coisas, mais de 2000 artigos espalhados por cerca de 300 m2. Uma espécie de loja dos trezentos – 80% dos artigos da Tiger são vendidos a menos de cinco euros e não há nada que custe mais de 30 euros -, mas onde cada objeto foi cuidadosamente reinventado. O design é a essência da Tiger, a marca dinamarquesa fundada, em 1995, por Lennart Lajboschitz, e que está presente em 23 países (Europa e Japão) com mais de 300 lojas.

A Portugal, a marca chegou em novembro de 2012, mesmo a tempo do Natal. A primeira loja abriu na Rua da Prata, na Baixa de Lisboa, neste momento, já existem sete e os planos de Paulo Borges, o homem que fechou a parceria com os dinamarqueses para desenvolver a marca em Portugal, apontam para chegar à meia centena de lojas em todo o país. “Este ano ainda, prevemos abrir mais quatro ou cinco lojas. Nos anos seguintes, os nossos planos apontam para a abertura de oito a 10 lojas por ano, até perfazer 40 a 50 lojas”, explicou o gestor em entrevista ao Dinheiro Vivo. A ideia não é desatar a abrir em todo o lado, mas sim marcar presença em todo o país, com destaque para as capitais de distrito. Em Lisboa, as atenções estão viradas para encontrar um bom espaço na zona do Chiado e por abrir nos shoppings da Sonae – Colombo, Vasco da Gama e Cascais Shopping. “Não é fácil pedir 400m2 e obtê-los. Já estamos em negociações e há uma vontade enorme dos promotores para que a marca esteja presente nestes centros comerciais”, acrescentou. Além de Lisboa e Porto, também Aveiro, Leiria, Viseu e Braga estão”na agenda de lançamentos da Tiger em Portugal.

O investimento na abertura de uma loja varia entre os 200 e os 300 mil euros: “Em 2015, serão abertas mais 10 lojas, pelo que estamos a falar de um investimento de dois a três milhões de euros”, precisou Paulo Borges. Mas o negócio está a correr bem porque, conforme diz o gestor, que antes de lançar a Tiger em Portugal, era o responsável pela marca Pepe Jeans, a nível mundial, a recetividade das pessoas “tem sido tremenda”. O target principal são as mulheres entre os 25 e os 40 anos, mas existem muitos casos de miúdos que arrastam os país para as lojas, ou de avós que chegam para comprar presentes para os netos.

Paulo Borges tem recebido vários pedidos para ceder o franchising da marca, mas o negócio não funciona assim. O modelo para cada país assenta numa parceria entre o grupo dinamarquês (controlado por uma sociedade de capital de risco), que fica com 50% do capital, e o sócio local, responsável pela outra metade. “Até ao momento, já investimos aproximadamente dois milhões de euros. Já recuperámos o investimento na primeira loja, mas estamos sempre a reinvestir o capital na expansão da marca em Portugal”, explica o responsável da Tiger em Portugal. O investimento corrente é suportado, em parte, com a faturação das lojas, sendo que cerca de 20% são financiados pela banca. “No início, em plena crise, tivemos algumas dificuldades de financiamento, porque os bancos desconheciam o projeto, o que implicou muitas garantias pessoais, mas a situação foi ultrapassada”, adianta o gestor. Em 2013, com apenas três lojas, o volume de negócios, em Portugal, foi de dois milhões de euros, sendo que as previsões para o final deste ano, com mas lojas, apontam para uma faturação entre sete e oito milhões de euros. Os resultados começaram logo no primeiro ano de atividade, “andam à volta dos 20%, em termos brutos, e fazem com que tenhamos fôlego para a expansão da Tiger em Portugal”.

A Tiger emprega, neste momento, 90 pessoas em Portugal, mas considerando a abertura de mais lojas, ainda este ano, a ideia e fechar 2014 com cerca de 130 trabalhadores. “Cada loja necessita de 10 a 15 pessoas”, afirma ao Dinheiro Vivo Paulo Borges.

O design, aliado a preços competitivos – o fundador já garantiu que a produção é feita em todo o mundo, da Dinamarca à China, e que são respeitadas as boas práticas -, é o ponto forte da Tiger em todo o mundo, mas a experiência do cliente, quando entra numa loja, é muito importante, explica Paulo Borges, o que justifica o facto de ainda não existir venda online. “Tudo nesta loja está estudado e é imposto pela casa-mãe. Até a playlist é comum a todas as lojas e é escolhida pelo fundador e ainda sócio do grupo, Lennart Lajboschitz.

E só mais um aviso: se passar pela Tiger e vir alguma coisa que gostava mesmo muito de ter, compre, porque se não pode ser tarde de mais. O lema é: “gostou, comprou, se não acabou”. De 15 em 15 dias, chegam às lojas de todo o mundo cerca de 400 artigos novos.

Cheiro a férias

E agora vou ali num instante de férias. Isto tem sido como quando estamos cheios de vontadinha para fazer xixi e os últimos metros até à casa de banho são um suplício. Tenho (temos!) andado num estado de enorme sofrimento, desejosos das próximas duas semanas. Contando com dias inúteis são 17 dias inteirinhos de sol, piscina, de família, de tempo para tudo o que nos apetecer.

E como em tudo o que cheira a festa, o prazer começa logo com os preparativos, com o antecipar de sensações. Não faço malas, enfio meia dúzia de tshirts, biquínis, calções de ganga e havaianas (uns jeans para alguma eventualidade), mas tenho imenso cuidado na escolha do gel de banho, do creme para o corpo, do óleo para o cabelo… As minhas férias já cheiram. ❤

fiji2

Equilíbrio

Bike

Não sou boa no equilíbrio. Há 8 meses espalhei-me com umas botas sem uma ponta de salto e parti um pulso [consigo reviver a queda de um segundo, em câmara lenta; e escusam de continuar, não estava com um grão na asa :P]. Em miúda, nunca soube andar de patins, nem agarrada às paredes. De bike, nunca fui uma ninja, custam-me as curvas e preciso de estradas de dois metros de largura para que as guinadas não tenham consequências graves. Sei de cor o momento em que cheguei a casa com o joelho em sangue e foi o vizinho Sr. Vasco que me desinfectou a ferida, com éter, o que havia ali à mão. Ele é que ia desmaiando… No fundo, sei bem qual é o meu problema com o equilíbrio, é que eu caio. E hoje, nove anos depois voltei a pegar na bicicleta. Foram 8,5km. Os pulsos esmagavam o guiador, tal era a força para me agarrar, mas afinal foi muito bem. Tungas! ❤

O lado bom de encolher a vida

Crónica publicada no Dinheiro Vivo

credit Lori Parr (2)

Porque será que alguém decide viver em 13 metros quadrados, onde uma casa inteira encaixa na área de um quarto? Ou é um freak, que ainda vive o sonho de ser como o Huckleberry Finn, ou então, é um falido, a quem a crise não deu alternativa.

É inconcebível para a maioria trocar, de livre vontade, o conforto de uma casa grande por um espaço exíguo onde, à noite, a cozinha se transforma em quarto. Não sabemos viver assim, fomos criados para ter uma casa, de preferência, própria e grande. E assim se dá início à mais longa relação das nossas vidas, com o banco. Grande parte do salário é, aliás, usada para sustentar a casa e o único custo está longe de ser o da mensalidade do crédito.

A verdade é que a nossa incredulidade perante tamanha revolução no estilo de vida de alguém tem a sua razão de ser. O movimento das tiny houses não nasceu com o subprime, mas cresceu muito com a crise financeira. As motivações não são exclusivamente financeiras, mas sim, os seus adeptos foram, quase todos, confrontados com a impossibilidade de continuar a pagar a hipoteca ao banco.

Ou seja, a maior parte das pessoas não passou a viver numa mini casa porque quis. Mas o mais interessante é que, apesar disso, estão longe de ser uns desgraçados, o que pode ser comprovado pela reportagem da Mariana Pinheiro.

Muitos passaram a viver em casas feitas pelas suas próprias mãos, o que confere aquele extra de história ao espaço, gastam dinheiro noutras coisas que lhes dão mais prazer, como viagens, conseguem poupar, o que antes era uma miragem, vivem sem acumular, sem desperdiçar, e todo o pedaço de casa faz sentido, tudo o que têm tem uma razão de ser.

Há uma frase que explica quase tudo : “A maior alegria de viver numa mini casa é a sensação de liberdade que advém de viver com pouco”. Pois é, a vida é cada vez mais complexa, que a ideia de que a nossa vida inteira cabe toda numa assoalhada e é facilmente gerível é mesmo muito atrativa.

A vida social de Vítor Bento

Crónica publicada no Diário de Notícias

Opinião

Anteontem ao almoço, falava-se sobre a crise no grupo Espírito Santo, mais concretamente sobre Vítor Bento, o novo presidente executivo do BES. Entre deliciosos pedaços de sashimi, num japonês paredes meias com o escritório do mais recente banqueiro português, considerou-se, às tantas, que Vítor Bento dificilmente será uma solução de longo prazo para o banco. Uma das razões apontadas foi o facto de, supostamente, Vítor Bento não ter uma vida social intensa e de, alegadamente, “viver muito só ele e a mulher”.

Nestas décadas de Ricardo Salgado e Jardim Gonçalves, habituámo-nos à ideia de que administrar um banco é, principalmente, gerir e manter uma intrincada rede de interesses financeiros, empresariais, sociais e políticos, que é, sobretudo, almoços e jantares, cocktails e vernissages, ver e ser visto, enfim, um infatigável networking.

Como se fosse inconcebível um banco grande e lucrativo ser liderado por alguém que prefere limitar, ao mínimo, a parte forçada e interesseira da sua vida social.

É verdade que ser banqueiro é muito mais do que acautelar depósitos, avaliar risco e emprestar dinheiro, mas sabendo como se teceram e tecem as teias no mundo dos negócios – e da política -, esta característica de personalidade poderá ser, a confirmar-se, uma grande vantagem de Vítor Bento.

Os amiguismos, os excessos de confiança, que depois resultam em inexplicáveis presentes de milhões de euros, os abusos de confiança, os favores e a filosofia do uma mão lava a outra não só representam o que de mais desesperante existe no homem, como se pode traduzir, em termos muito práticos, em negócios terríveis.

Por exemplo, a excessiva exposição de alguns bancos a acionistas e amigos – a entidades relacionadas – é, em tempos de crise, a face mais visível de graves erros de gestão. Muitas vezes, até, as competências sociais servem apenas para tentar disfarçar a fatal incompetência.

O caderno de encargos de Vítor Bento passa, acima de tudo, por restaurar a credibilidade do BES, a confiança dos seus clientes, passa por reafirmar o banco enquanto um dos principais players do sector, por pô-lo a competir, passa por fazê-lo crescer e voltar aos lucros, nem que para isso tenha que deixar muitos telefonemas por atender, muita gente pendurada para almoço, muitos lugares vazios à sua espera.

Vítor Bento não sobreviverá sozinho, mas pode bem dispensar os amigos do costume. O não, não o automático das crianças, é a resposta mais difícil, e, em muitos casos, a única possível. No início, estranha-se, mas acredito que funciona. Da minha parte, quanto menos amigos conhecer a Vítor Bento tanto melhor.

“O objetivo do nosso consórcio não é vender a TAP daqui a três anos”

Miguel Pais do Amaral

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

Miguel Pais do Amaral, conde de Anadia, chairman da Prisa – o grupo espanhol que controla a TVI -, dono da Leya e acionista de tantos outras empresas, como a Reditus, a Companhia das Quintas ou os ginásios Fitness Hut, aliou-se ao antigo dono da Continental Airlines, o norte-americano Frank Lorenzo, e prevê apresentar brevemente uma proposta para a compra de 100% da TAP. A entrevista sobre a privatização da companhia aérea portuguesa e a crise no grupo Espírito Santo.

É conhecido por comprar barato, reestruturar e depois vender caro, sem olhar para trás. É um preconceito ou funciona mesmo assim? Continue reading ““O objetivo do nosso consórcio não é vender a TAP daqui a três anos””

O risco da improbabilidade

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Opinião

As náuseas são iguais quando assisto aos que pontapeiam quem já está caído no chão, ou quando vejo filas de babados ajoelhados para um beija-mão. E é, sobretudo, isto que me resta dizer sobre o espectáculo à volta da crise no Grupo Espírito Santo (GES), que esta semana acumulou mais uma improbabilidade – Ricardo Salgado foi detido, na qualidade de arguido, para interrogatório, no âmbito do caso Monte Branco.

Os sinais de que a supervisão e a justiça estão a funcionar existem e, se assim for, isso basta-me. Os crimes sob suspeita são graves e aquilo que se exige é, como sempre, um julgamento justo e um tribunal independente. E rápido, muito rápido. Sob pena de ser tarde de mais e as repercussões no próprio BES e na economia se tornarem insustentáveis.

A queda de Ricardo Salgado – outra improbabilidade – é, afinal, muito mais do que a ruína de um rico todo poderoso: é a falência de um nome, é a descredibilização de uma marca. Neste momento, alguém sabe o que se passa na cabeça de um cliente do BES?!

A lei protege a maioria dos depositantes, o Banco de Portugal garante, a toda a hora, que o banco está sólido e que uma coisa é o GES, outra coisa é o BES, mas só Vítor Bento e a sua equipa saberão, na verdadeira medida, qual o real impacto desta crise no negócio do banco. Imagino até que, se pudesse, o novo presidente executivo do banco – e o próprio Banco de Portugal – já teria refundado o BES, a começar por uma mudança de nome. Espírito Santo é, neste momento, tudo menos um nome recomendável.

E há mais. A falência de Ricardo Salgado e da família Espírito Santo é, também, mais um sintoma da fragilidade do país, de um país sem capacidade de investimento, onde não há dinheiro, onde os empresários vivem com a corda do endividamento ao pescoço e onde as empresas passam, uma atrás da outra, para as mãos de quem pode. Se não estava bem, ainda pode ficar pior, o país.

Esqueçam os ridículos descontos no IRS

Crónica publicada no Diário de Notícias

Opinião

Por mais anos que viva jamais me esquecerei de um ano especialmente trabalhoso – a crise no BCP impunha muitas páginas de jornal, logo um horário exagerado. Mas guardo esta fase da minha vida no capítulo das boas memórias.

Confrontado com as dificuldades que tinha em conciliar os meus prazos de fecho com a minha vida pessoal, mais concretamente com os horários da minha filha, então com cinco anos, o então diretor do jornal tocou-me no coração. Uma certa manhã, depois de um fecho mais complicado, tinha um ramo de rosas, cor champagne, em cima da minha secretária, mas não foi isso que me fez voltar, nesse mesmo dia, a trabalhar mais horas ainda. A minha filha tinha sido recebida, ao final da tarde, no jornal, com direito a lanche, caderno e lápis de cor e os mimos da secretária de redação. Isto aconteceu mais do que uma vez. E lembro-me, como se fosse hoje, de ter espreitado pelo canto do olho, de a ter visto entretida, e de ter conseguido sossegar-me.

Aquele jornal era, sobretudo por causa daquele diretor, aquilo que este país não é: family friend. Conto esta história agora, quando tanto se fala de promover a natalidade – um problema sério em toda a Europa, sobretudo nos países mais desenvolvidos – porque gostava que os decisores políticos, os empresários e os gestores percebessem que os portugueses não vão passar a ter mais filhos por causa de um desconto de 50 euros no IRS, ou de um aumento de 20 euros no abono de família.

Nos dias de hoje – o mundo mudou também na forma como somos pais -, só nascerão mais crianças se as pessoas conseguirem ter mais tempo sem perda de rendimento, se as empresas facilitarem a redução ou suspensão da atividade, mas também promoverem o regresso ao mundo do trabalho, se os chefes entenderem que os seus trabalhadores só serão bons profissionais se puderem ser bons pais. Parece óbvio, não é?! Mas a realidade está bem longe. No dia-a-dia prevalece, ainda, a incompreensão, a exigência, a pressão e tudo o que adia a decisão de termos filhos.

Por isso, mais do que estudar mais apoios financeiros, mudem-se as mentalidades, resolva-se o problema da falta de equipamentos sociais de qualidade, cuide-se do Serviço Nacional de Saúde, aposte-se na educação e na igualdade de géneros, reveja-se as políticas de habitação e transportes, enfim, cuide-se das famílias.

Custa dinheiro, sem dúvida, que o país não tem, é verdade. Lá voltamos sempre ao mesmo, ao irrevogável défice. Mas para evitar que Portugal se torne num país ainda mais envelhecido, com todas as consequências que isso também terá para as contas do Estado, será necessário, primeiro, acabar com as vistas curtas deste mundo. Assim, talvez daqui a 10 anos o país seja menos triste.