A liberdade de Medina Carreira

Opinião

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Medina Carreira arrasou Portugal. Em entrevista ao Mário Crespo, transmitida há minutos, o fiscalista disse que o país não existe, que o voto não serve para nada, que a economia está ao mesmo nível, em termos de crescimento, do início do século passado, que não há gente, que não há partidos – na sua opinião, casas de gente de má vida já há que baste -, que o Parlamento é uma vergonha e que pouco já há para fazer. Disse muito mais, disse pior. Medina Carreira não surpreendeu, apenas mostrou o seu habitual pessimismo no seu melhor. No final da entrevista, a única solução parecia ser a de fechar o país e dá-lo, se alguém ainda o quisesse.

 

Medina Carreira terá, seguramente, razão em algumas coisas que disse. Infelizmente, terá razão em mais do que qualquer um de nós gostaria. Mas, Medina Carreira fez o mais fácil, o que qualquer um de nós pode fazer, sentado à mesa de um café. 

 

Não defendo os optimistas profissionais, recuso veementemente a tese que para aí circula entre os tontos do costume, que acham que é a cultura do pessimismo a principal causa da miséria que vivemos. Mas assim, também eu. Destruo e a seguir vou para casa dormir tranquilamente porque não há nada que eu possa fazer.

 

Defendo os críticos, os que usam e abusam da palavra para nos chamar a atenção para o que está mal e para as armadilhas dos inúmeros vendedores de elogios que para aí existem. Lembro-me, a propósito, de um brilhante artigo que António Barreto escreveu no Público há cerca de dois anos.

 

Recortei e guardei para reler e confesso que, em tão pouco tempo, já o fiz várias vezes. Passo a transcrever alguns excertos:

"O optimismo dos dirigentes é uma profissão de fé. Se estão em posição de poder, se mandam em alguma coisa ou alguém, se sentem segurança na sua posição social, declaram-se previsivelmente optimistas. O problema é que também entendem que os outros devem ser optimistas. E fazem o que podem para concretizar tal desejo".

(…)

"Os que tudo têm são assim: querem que os outros se sintam felizes, aconselham esperança e vendem optimismo, pois, assim, vivem em paz, sem culpa nem remorsos.

O combate pelo optimismo é uma das mais maçadoras pragas da vida pública. Se alguém escreve nos jornais ou aparece na televisão a mostrar algo errado, a criticar as filas de espera em qualquer instituição, a descrer da justiça que temos ou a mostrar repugnância pelo sistema educativo, logo é acusado de pessimista, descrente e céptico. Daí a serem denunciados como intelectuais bem pensantes e profetas da desgraça não é preciso esperar. ‘Só sabem dizer mal’, é a frase mais ouvida aos poderosos quando se referem a quem se exprime no espaço público".

(…)

"É verdade que a qualidade da imprensa deixa muito a desejar. (…) Mas nada disso justifica que se julgue que a imprensa poderia ser sobretudo uma folha congratulatória.

Pior ainda do que essa atitude é o esforço colossal que os governos, as instituições, as empresas e as instituições da Administração Pública fazem para dourar a pílula e cuidar da sua propaganda. Se fosse possível contá-las, são milhares as pessoas envolvidas nas ‘agências de informação’, nas empresas de ‘relações públicas’, nas assessorias de ‘imprensa’ ou no aconselhamento de ‘imagem’. Sem contar os jornalistas reciclados em consultores e os que aceitam recados.

Eis porque vale a pena que alguns, poucos que sejam, se especializem na crítica e na explicação, quite a serem injustos, isto é, a não se preocuparem com as coisas que correm bem. Para estas últimas e para apresentar bem o que corre mal, ou para simplesmente esconder o que não corre, andam por aí milhares de profissionais, consomem-se milhões de horas de trabalho e gastam-se dezenas de milhões de euros.

É por isso que a liberdade é sobretudo a de criticar, não a de elogiar".

Melhor seria difícil. É isto. Nesta entrevista, Medina Carreira não mereceu a liberdade de criticar.

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