criança russa

Opinião

 

De um dia para o outro, uma criança de seis anos, que não fala uma palavra de russo, foi obrigada a deixar a sua vida em Barcelos para ir viver com estranhos – um dos quais calha ser a mãe biológica que a abandonou há quatro anos -, numa cidade a 350 quilómetros de Moscovo. E agora, quando tanta coisa já foi dita sobre a brutalidade desta decisão, surge o habitual desfile de condolências. Hoje, de uma assentada, o juiz relator do acórdão que decidiu a entrega da menina russa à mãe biológica, disse que se sentiu "incomodado, como qualquer ser humano” com as imagens das palmadas e do empurrão à criança. E o ministro português da Justiça afirmou que “enquanto cidadão” ficou “incomodado com as imagens da menina”. Pois é, mas agora já é tarde, de nada servem os incómodos. E não vale encolher os ombros e dizer “agora já, está, já não há nada que a Justiça portuguesa possa fazer”.

Nisto da vida das pessoas, os afectos e as emoções também devem pesar nas decisões judiciais. A mãe biológica tem direito a querer mudar de vida, a esquecer os tempos difíceis que viveu em Portugal, tem o direito a voltar a tentar ser mãe. A Justiça portuguesa tem a obrigação de dar segundas hipóteses e de reabrir portas. Mas tudo perde sentido quando se coloca em risco a vida de uma criança. Quem é que vai fazer alguma coisa?

O Estado português, seja a que nível for, tem o dever de tentar acompanhar a vida desta criança, depois de ter decidido trocar-lhe as voltas e mudar-lhe o destino. E só descansar quando conseguir garantir que a criança está bem, que o que vimos nas imagens veiculadas pelo canal da televisão russa faz parte num período de adaptação entre pessoas que não se conhecem. Que a mãe biológica tem, de facto, condições para criar e dar amor à sua filha. O que o Estado português não pode esquecer é que só poderá arquivar este assunto depois de conseguir garantir que a decisão que tomou foi justa. Não é, afinal, isso mesmo que é a Justiça?
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foi tarde…

Opinião

Manuel Dias Loureiro pediu a sua demissão do cargo de conselheiro de Estado. Já foi tarde e da pior maneira. Foi preciso José de Oliveira Costa, o ex-presidente do Banco Português de Negócios (BPN) que se encontra em prisão preventiva há seis meses, ter ido à Assembleia da República acusá-lo de tudo e mais alguma coisa. Foi preciso João Lobo Antunes, seu colega no Conselho de Estado, manifestar o seu incómodo pelo facto de Dias Loureiro nada fazer, deixando o Presidente da República numa posição insustentável.

 

Dias Loureiro sai empurrado. Mesmo não sendo verdade, o antigo ministro de Cavaco Silva, dá razão a José de Oliveira Costa quando o ex-banqueiro o acusa de ter problemas de ego. Deixar o conselho de Estado não é o fim do mundo, a não ser para alguém que não se veja ao espelho logo pela manhã e seja absolutamente auto-centrado. Tudo teria sido mais fácil, mais dignificante, se Dias Loureiro tivesse decidido sair por sua livre e espontânea vontade. A sua demissão do Conselho de Estado não é, de todo, uma assunção de culpa, mas antes uma demonstração de sensatez e de respeito para com Estado português e para com quem o representa. As suspeitas que recaem sobre si são graves e não deve, por isso mesmo, ser qualquer estatuto de imunidade política a impedir o decorrer das investigações.

O homem que sempre viveu de braço dado com o poder deve parar, pensar sobre a realidade à sua volta, perceber que não pode continuar a olhar para o céu e concluir que o melhor é ir bater à porta de Pinto Monteiro e oferecer-se para depor. Voltar, só depois, logo se vê.

Será um vírus o que infecta tantos poderosos, que só saem de cena quando lhes gritam? Os últimos tempos têm sido fartos em casos de banqueiros, empresários e políticos que parecem viver dependentes de um palco qualquer, por vezes inexistente. Será que acreditam que a culpa é da plateia que não têm?

 

Oliveira Costa fala, o país ouve

Opinião

Preso preventivamente desde Novembro, José de Oliveira Costa sai hoje, pela segunda vez, do estabelecimento prisional da Gomes Freire para ir à Assembleia da República. Desta vez, espera-se que, ao contrário do que sucedeu em Janeiro, quando invocou o estatuto de arguido para se remeter ao silêncio, o ex-banqueiro fale.

Muitos serão os que hoje a partir das 16h00 ficarão suspensos das suas palavras. A começar por Manuel Dias Loureiro, que já foi apanhado em várias contradições durante os meses de comissão parlamentar de inquérito ao caso BPN. E se existe alguém capaz de fazer tremer o chão que pisa o conselheiro de Estado de Cavaco Silva é o fundador do grupo Banco Português de Negócios. Quem melhor do que Oliveira Costa sabe se Dias Loureiro esteve ou não metido nos ruinosos negócios de Porto Rico e qual foi a sua verdadeira responsabilidade?

Vítor Constâncio também não deverá querer perder pitada do que se vai passar hoje no Parlamento. Oliveira Costa poderá trazer para cima da mesa novos dados que podem levar a questionar mais uma vez o papel e a eficácia da supervisão neste caso do BPN.

E Luís Caprichoso e os restantes homens de confiança de Oliveira Costa poderão dar-se ao luxo de tapar os ouvidos e não querer saber o que o ex-banqueiro vai dizer? E se afinal o homem que assinou todos os documentos e que é acusado de ter gerido o grupo BPN sozinho não passar de um mito?

O ex-presidente do BPN foi detido em Novembro e depois de meio ano de investigações continua sozinho nos calabouços da PJ. E até agora assistiu a um passeio de depoimentos que o enterram como o único mentor e único responsável de alegados crimes. O homem que já foi secretário de Estado de Cavaco Silva poderá ter decidido, numa primeira fase, assumir toda a responsabilidade para se proteger a si e aos seus filhos, que ocupavam cargos de responsabilidade no Banco Português de Negócios e na participada Datacomp, e até para ajudar alguns dos seus colaboradores mais fiéis. Diz quem o conhece que sempre soube reconhecer e recompensar a lealdade. Mas, dizem as mesmas pessoas, perde a paciência sempre que não vê reciprocidade. Talvez seja por isso que agora Oliveira Costa quer falar. E é bom que tenha coisas importantes para contar. Para si, mas, sobretudo, para o andamento das investigações e para bem da justiça. Hoje, o país vai ouvir Oliveira Costa e, por isso, é bom que o ex-banqueiro seja consequente e não saia da Gomes Freire apenas para passear e apanhar ar fresco, por mais aliciante que esta ideia possa parecer a quem está privado de liberdade há seis meses.

Não se lhe pode pedir o impossível, ou seja, que diga o que não pode. Oliveira Costa está tão protegido quanto obrigado ao segredo de justiça. Pede-se-lhe tão simplesmente que conte a verdade e assuma e distribua responsabilidades, se assim tiver de ser. Hoje, no Parlamento e todos os dias que tiver que depor no Ministério Público. Pede-se-lhe que surpreenda, que faça o que ninguém espera.

professor-criança

Opinião

Num mundo perfeito, só seria professor quem quisesse e sentisse uma enorme vocação. Num mundo mesmo perfeito, nenhum professor teria dúvidas no momento de escolher a sua profissão. Seria uma coisa espontânea, como dizem que é o chamamento divino. E num mundo ideal, ninguém teria que ser professor para escapar à crise e ao desemprego. Mas como o mundo não é nada disto, somos confrontados com episódios como o da professora de história da Escola Básica 2,3 Sá Couto em Espinho. Andou 12 anos na escola, mais quatro na faculdade, fez dois anos de estágios, dois anos de pós-graduação e mais um de especialização para nada.
A gravação áudio de uma aula desta professora é só mais um motivo de inquietação. E as dúvidas voltam: como são hoje feitos os nossos professores? Fazem uma licenciatura e depois especializam-se. Aprendem a manusear a estrutura de um programa curricular, as teorias educacionais para tentar transmitir aos alunos da melhor forma possível o conhecimento, e estudam sociologia e psicologia da educação para se perceberem a si próprios e aos outros. E a seguir ainda fazem um estágio pelo qual são avaliados. Não parece ser fácil. Então porque é a professora da escola de Espinho entrou na sala de aulas e acabou por se revelar uma péssima professora? As razões podem ser muitas e vão desde a mais pura inaptidão até uma situação de absoluta perturbação psicológica.
É verdade, estas coisas acontecem. Indesejavelmente e infelizmente porque os professores têm um papel importante na vida das crianças. É por isso que a formação, o controlo, a denúncia e a punição devem ser exemplares, neste e noutros casos. A sala de aulas é um espaço público mas fechado e as crianças, por mais insuportáveis e violentas que sejam, não são adultos. É também para isto que deve servir o processo de avaliação dos professores: para garantir que um professor nunca se transforma numa criança.

ainda chove…

Opinião

 

O mundo anseia tanto pelo fim da crise que até os mais pessimistas começam a ceder perante alguns sinais animadores. A estabilização de alguns indicadores, as menores perdas registadas pelos bancos no primeiro trimestre do ano, ou a subida acumulada pelas bolsas, que costumam antecipar o que de bom e de mau se passa na economia, abriram caminho para o discurso dos sinais, do “já batemos no fundo” e do “ponto de inflexão”.

Nos últimos dias, a OCDE admitiu uma pausa na desaceleração em algumas das principais economias do mundo, como França, Itália, Reino Unido ou China. E na segunda-feira o presidente do Banco Central Europeu (BCE) disse que a economia mundial poderia estar prestes a despedir-se da odiosa recessão. Jean-Claude Trichet mudou de discurso na Suíça durante um encontro de presidentes dos bancos centrais das maiores economias mundiais. Podia ter falado só para a zona euro, mas não, gritou ao mundo que podemos estar num momento de viragem.

O pessimismo também cansa e parece agora dar lugar a uma atitude voluntarista. Como se depois de uma insistente mnemónica sobre a dureza da realidade, se tentasse devolver algum ânimo. “Pronto…, vai passar…”.

Mas é bom olhar para as coisas com frieza. A situação ainda é o que é. Só ontem, ficámos a saber que as vendas a retalho nos Estados Unidos voltaram a cair, que o crédito mal parado continua a aumentar em todo o lado e que, à custa disso, só os bancos espanhóis acumulam mais de 15 mil casas para vender, que os preços continuam a descer por todo o lado e que a produção industrial na União Europeia caiu 2% em Março face a Fevereiro.

A economia mundial pode estar a abrandar mais lentamente, mas a recuperação ainda nem sequer começou. E quando começar, vamos demorar a senti-la, sobretudo em Portugal. Amanhã, o INE divulga os números do desemprego referentes ao primeiro trimestre. Ainda estamos em recessão. Ainda chove.

o i está certo!

Opinião

E não é que hoje assistimos a mais um episódio da tragicomédia daquilo que é a vida dos jornalistas, dos bons jornalistas. O noticiou em manchete que o Governo deu ordens à Caixa para salvar outro banco, o Finantia.

Numa notícia irrepreensível, rigorosa e sustentada num documento oficial, mais concretamente no relatório do presidente do conselho fiscal da Caixa Geral de Depósitos – disponível para quem o quiser consultar no site do banco ou no da CMVM – ficamos a saber que, em Dezembro do ano passado, o banco do Estado (todos nós!) financiou o Finantia, mediante instruções do Banco de Portugal e um despacho do secretário de Estado do Tesouro e Finanças.

Está lá escrito para quem se desse ao trabalho de ler centenas de páginas. O documento refere que os financiamentos foram «objecto de recomendação de execução pelo Banco de Portugal e despacho do secretário de Estado do Tesouro e Finanças«. Mais. Ainda de acordo com o órgão presidido por Eduardo Paz Ferreira, estas operações «são de curto prazo e decorrem de um processo de reestruturação das fontes de financiamento do banco». Como?!

Pois, de manhã, foram os desmentidos, a meio da manhã já foi o reconhecimento do ministro das Finanças e à tarde, os comunicados e direitos de resposta bacocos e apostados em discutir semântica. Não, não foi salvar, foi ajudar. Não, não foi agora, foi há cinco meses. Não, não foi uma instrução do Banco de Portugal, foi uma recomendação do supervisor. Não, não foi o Governo a dar ordens, foi só um despacho de não oposição do Ministério das Finanças. A paciência é uma virtude, mesmo quando querem brincar ao jogo dos sinónimos e deixar para trás a substância.

A paciência é uma virtude. A paciência de quem, antes de fazer manchete com a história, tentou à exaustão obter explicações de todas as partes envolvidas. A paciência de quem se prepara para voltar a explicar a realidade. A paciência de quem compreende o incómodo, mas não entende os que encontram nos jornalistas a melhor desculpa para não assumirem erros. Em Portugal, ainda não se entendeu que o trabalho de atender o jornalista pode evitar chatices maiores.

Este é só o desabafo de uma jornalista, que faz parte da direcção do i, e que pode ter muitos defeitos, mas não padece do da falsa modéstia.