Oliveira Costa fala, o país ouve

Opinião

Preso preventivamente desde Novembro, José de Oliveira Costa sai hoje, pela segunda vez, do estabelecimento prisional da Gomes Freire para ir à Assembleia da República. Desta vez, espera-se que, ao contrário do que sucedeu em Janeiro, quando invocou o estatuto de arguido para se remeter ao silêncio, o ex-banqueiro fale.

Muitos serão os que hoje a partir das 16h00 ficarão suspensos das suas palavras. A começar por Manuel Dias Loureiro, que já foi apanhado em várias contradições durante os meses de comissão parlamentar de inquérito ao caso BPN. E se existe alguém capaz de fazer tremer o chão que pisa o conselheiro de Estado de Cavaco Silva é o fundador do grupo Banco Português de Negócios. Quem melhor do que Oliveira Costa sabe se Dias Loureiro esteve ou não metido nos ruinosos negócios de Porto Rico e qual foi a sua verdadeira responsabilidade?

Vítor Constâncio também não deverá querer perder pitada do que se vai passar hoje no Parlamento. Oliveira Costa poderá trazer para cima da mesa novos dados que podem levar a questionar mais uma vez o papel e a eficácia da supervisão neste caso do BPN.

E Luís Caprichoso e os restantes homens de confiança de Oliveira Costa poderão dar-se ao luxo de tapar os ouvidos e não querer saber o que o ex-banqueiro vai dizer? E se afinal o homem que assinou todos os documentos e que é acusado de ter gerido o grupo BPN sozinho não passar de um mito?

O ex-presidente do BPN foi detido em Novembro e depois de meio ano de investigações continua sozinho nos calabouços da PJ. E até agora assistiu a um passeio de depoimentos que o enterram como o único mentor e único responsável de alegados crimes. O homem que já foi secretário de Estado de Cavaco Silva poderá ter decidido, numa primeira fase, assumir toda a responsabilidade para se proteger a si e aos seus filhos, que ocupavam cargos de responsabilidade no Banco Português de Negócios e na participada Datacomp, e até para ajudar alguns dos seus colaboradores mais fiéis. Diz quem o conhece que sempre soube reconhecer e recompensar a lealdade. Mas, dizem as mesmas pessoas, perde a paciência sempre que não vê reciprocidade. Talvez seja por isso que agora Oliveira Costa quer falar. E é bom que tenha coisas importantes para contar. Para si, mas, sobretudo, para o andamento das investigações e para bem da justiça. Hoje, o país vai ouvir Oliveira Costa e, por isso, é bom que o ex-banqueiro seja consequente e não saia da Gomes Freire apenas para passear e apanhar ar fresco, por mais aliciante que esta ideia possa parecer a quem está privado de liberdade há seis meses.

Não se lhe pode pedir o impossível, ou seja, que diga o que não pode. Oliveira Costa está tão protegido quanto obrigado ao segredo de justiça. Pede-se-lhe tão simplesmente que conte a verdade e assuma e distribua responsabilidades, se assim tiver de ser. Hoje, no Parlamento e todos os dias que tiver que depor no Ministério Público. Pede-se-lhe que surpreenda, que faça o que ninguém espera.

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