o meu problema 2

Opinião

 Tenho um problema. É crónico, mas não chega a ser grave. É uma sensação – não chega a ser estranha –, de que frequentemente os políticos me tratam como se fosse parva, praticamente acéfala. O que se intensifica sempre que se aproximam eleições, como é o caso.

 

Nos últimos dias, não faltou por aí quem me tenha querido fazer acreditar que é determinante, para eu decidir conscientemente em quem votar, que o PSD apresente já o seu programa eleitoral. Disseram-me de tudo: que se ele chegar apenas no final de Agosto, não terei tempo de o digerir durante o mês que então ainda faltará até às legislativas; que assim, os socialistas marcam desde já a agenda e o debate político; e que talvez Manuela Ferreira Leite não consiga, até lá, fazer muito mais do que imitar José Sócrates. Como se fossem só vantagens para o PS e só por causa disso, o meu rudimentar barómetro pessoal já estivesse em absoluta efervescência. Lembro-me, nem de propósito, que nas Europeias de Junho, o tempo também foi atirado contra o PSD porque este se atrasou na apresentação do cabeça de lista, mas que o tardio Paulo Rangel acabou por ganhar a Vital Moreira.

Depois, deram-me 120 páginas de programa PS – suspeito que, sem palavras repetidas, se poderia resumir em 20. Tentam convencer-me que grande parte não é mais do mesmo e que não me queimaram tempo e paciência quando dispensaram o eficaz asterisco. Poderia ter sido qualquer coisa do género: * leia mais no programa eleitoral de há quatro anos, ou lembre-se das políticas do Governo ao longo da última legislatura. E, como se já não fosse pouco, ainda pretendem seduzir-me com algumas medidas novas, como a da atribuição de 200 euros a cada bebé que nascer. Querem que acredite que se vai ter mais filhos só porque o Governo dará aos potenciais pais deste país aquele dinheiro para meter no banco, ainda que com o impedimento de lhe mexer antes dos desejados rebentos chegarem à universidade.

 

Mas há mais. Voltam com a conversa do costume, da redistribuição da riqueza, que deve ser mais equitativa, para me dizerem que a prioridade é a defesa da classe média e que, para que isso seja possível, há que tirar aos ricos. E mostram-me em euros o que são uns e outros. Não consigo evitar rir-me. Que parva!

Nem a Entidade Reguladora para a Comunicação Social me surpreende. Agora, a dinâmica ERC quer proibir os candidatos a qualquer cargo nas próximas eleições legislativas e autárquicas de emitirem opinião nos media. Imagino que temam que eu não saiba que a Manuela Ferreira Leite que escreve no Expresso é a mesma que se candidata ao cargo de primeiro-ministro.

 

Enfim, não chega a ser surpreendente, mas não deixa de ser preocupante a amostra de debate político que se fez até aqui, em plena fase de lançamento da campanha eleitoral, e quando Portugal tem pela frente a necessidade de matar duas crises, a mundial e, ainda mais difícil, a sua. Mas até pode ser insultuoso, num ano em que a Justiça, apenas um exemplo, se destaca pelas piores razões, com investigações criminais a ameaçar de morte os dois maiores partidos.

 

Tenho a sensação que a campanha não vai crescer, com programa do PSD e tudo, mas este deve apenas ser um problema só meu.

 

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