a obra de Isaltino não é arte

Opinião

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Voltas e mais voltas à cabeça, algum esforço de projecção, mas é difícil, praticamente impossível, entender quem mantém o voto em Isaltino Morais, depois de conhecida a pesada sentença do Tribunal de Sintra. O presidente da Câmara Municipal de Oeiras e candidato a um novo mandato, nas eleições de 11 de Outubro, foi condenado, na primeira instância, a uma pena de prisão efectiva de sete anos e à suspensão de mandato. Mas mesmo assim, a actriz Eunice Muñoz vai voltar a apoiar a sua reeleição. Ficaram provados, também na primeira instância, os crimes de fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva e branqueamento de capitais, mas tamanho veredicto também parece não importar ao capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho. E, como estes, estão mais oeirenses.

Ora, é no mínimo estranho, que quem tanto se queixa do funcionamento da justiça e dos políticos, em muitos casos com razão, tenha um repente e fique cego, logo agora que a justiça está a funcionar.

Isaltino Morais vai recorrer para o Tribunal da Relação e a decisão deste colectivo de juízes até pode vir a ser contrariada. É importante repetir que ninguém é culpado até trânsito em julgado, mas também é bom sublinhar que, neste momento, o que existe é um duro acórdão. O recurso de Isaltino não rasga este documento. E o que está lá escrito, palavra por palavra, é que Isaltino Morais cometeu, não um, mas quatro crimes.

Mas, mesmo assim, uma parte dos que votam em Oeiras, ao que parece significativa, está empenhada em depositar outra vez a sua confiança em Isaltino Morais, patrocinando, através do voto, a sua gestão camarária. Como se a familiaridade e os jardins, as boas estradas e todas as coisas bem feitas em Oeiras pela equipa de Isaltino valessem mais que uma decisão de um tribunal. Como se a obra fosse o que mais importasse, independentemente do seu criador.

Mas no final de tudo, o que aqui está em causa é grave e revela, sobretudo, duas coisas: mais um voto de desconfiança na justiça e uma tolerância indevida para com alguns políticos. Os que parecem ignorar a sentença, desejam que o tribunal tenha falhado, porque talvez pensem que, no meio da mediocridade que aparenta reinar pelo reino do poder local, pelo menos Isaltino tem obra feita. Imagino que pensem qualquer coisa como abusos há por todo o lado, este já sabemos quem é, o que faz e bem. Que confortável. Pouco interessa de que forma a obra aparece feita e se existiram ou não envelopes de dinheiro pelo meio. Que estranhos são os que, neste momento, parecem não duvidar de mais nada, a não ser da justiça. Estão no seu direito, apoiar a reeleição, arriscar uma conivência com práticas criminosas, como ficou, para já, provado em tribunal. Felizmente, nada nem ninguém proíbe, a não ser a consciência de cada um. Mas depois não se queixem da justiça e dos políticos, não se sentem nos bancos dos jardins de Oeiras a falar da aparente impunidade de alguns. A obra de Isaltino não é arte, não é de artistas que falamos. Votar não é o mesmo que desfrutar de uma bela sinfonia ou de um grande filme.

 

 

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