o desequilíbrio de balsemão

Opinião

A história parece estar naquela fase de uma narrativa convencional em que quem vê já consegue adivinhar que alguma coisa de errado vai acontecer. Se fosse um filme, o espectador já sentia o frio na barriga e, há mais de meia hora, que pressentia o desequilíbrio na vida do protagonista.

Neste filme, Francisco Pinto Balsemão seria a personagem principal, dotado de características que permitem desenvolver empatia com o público. Bem disposto, relativamente feliz e bem sucedido na família e nos negócios, surge agora, depois da recente investida da Ongoing no negócio dos media, frágil, em risco de perder o seu império, do qual faz parte a SIC, a primeira estação de televisão privada de Portugal.

Nuno Vasconcellos seria o vilão, aquele que é capaz de desafiar a fraqueza de Balsemão, que tenta, por sua vez, lutar contra tudo e mais a falta de dinheiro para evitar um ataque à sua SIC. Um detalhe: o dono da Ongoing é filho de Luís Vasconcellos, durante muitos anos braço direito de Balsemão.

A cada dia que passa, os adversários parecem sair de todos os cantos. José Eduardo Moniz é o mais recente aliado de Nuno Vasconcellos. Arguto e profundo conhecedor dos insondáveis segredos do mundo da televisão, prometeu dar tudo por tudo e ajudar a criar um novo gigante da comunicação social. É ainda o rosto do conflito, sem o qual não há uma boa história. Fez frente ao primeiro-ministro, ao manter no ar na TVI, onde trabalhava até há poucos dias, o polémico Jornal de Sexta apresentado pela sua mulher, Manuela Moura Guedes.

E depois, existem as personagens secundárias, como a Prisa, dona do outro canal de televisão privado português. Está por cá, como podia não estar, é dona da TVI hoje, mas amanhã já a pode ter vendido, por exemplo, à Ongoing de Nuno Vasconcellos.

Como tudo o que ainda vai a meio, a história ainda pode dar muitas voltas. As personagens principais, provavelmente, mudarão os seus traços característicos, podendo subverter as expectativas do espectador. Balsemão pode revelar-se uma personagem falha e Nuno Vasconcellos ser afinal um herói. O protagonista pode até mudar.

Neste momento, trabalha-se ainda em vários cenários. Nuno Vasconcellos pode, de facto, assumir o controlo da SIC e com José Eduardo Moniz roubar a liderança à TVI. Balsemão pode não desejar o canal, como tudo leva a crer. Ou a Ongoing pode antes chegar a acordo com os espanhóis da Prisa e deixar Balsemão em paz. Ou pode ainda não conseguir nenhuma das duas porque era maior a ambição do que a sua força.

A única certeza é, para já, a de que, como nos filmes, o ciclo vai fechar-se. Não se sabe quando, nem como, mas o equilíbrio final jamais será igual ao do início. Nuno Vasconcellos quer ganhar protagonismo no sector da comunicação social em Portugal e, para que ele ganhe, alguém vai perder. Balsemão sabe disso. Seguindo os cinco estádios da narrativa, segundo Todorov, o dono da SIC já passou a fase do reconhecimento do desequilíbrio e vive a quarta: a tentativa de resolver o problema. De olhos colados ao écran.

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