aos belenenses sensíveis deste país

Opinião

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Nem Deus sabe a camada de nervos que apanhei à conta das críticas que João Bonifácio fez, no ano passado, aos concertos de Tom Waits e Leonard Cohen (que horas felizes vivi em Dublin e em Manchester!), nem tão pouco o quanto me senti vingada quando me contaram a história da gaffe do "ombro do teu cão", mas já não há paciência para a hiper-sensibilidade que parece afectar cada vez mais gente. Não terão os belenenses, com quem tanto simpatizo, nada de mais importante para fazer do que sentirem-se ofendidos pelo crítico do "Público".

O que Bonifácio escreveu, na crítica que fez ao concerto dos The Killers, foi: "O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. (…) O povo esteve manso. (…) Foi a festa possível e foi escassa como os fins de tarde futebolísticos no Restelo costumam ser". E então, algum problema? Trata-se, como é óbvio, de uma metáfora, um estilo permitido na crítica, e ainda por cima bem conseguida. Que o digam os caríssimos belenenses. Num par de frases, ficamos a saber o que o crítico de música quis dizer sobre o concerto daquela banda. E então? Qual é a gravidade, por acaso é mentira?

Já a propósito de Cohen, Bonifácio escreveu isto no "Público" de 27 de Julho de 2008: "Conta a lenda que há mais de 30 anos Leonard Cohen, supremo esteta da filha-putice arrependida, entrou no palco para um concerto empinado num cavalo branco. Ontem, sacana maior de entre os sacanas que restam (Dylan, Waits, mais ninguém), entrou – sem cavalo – a passo de trote no palco montado no Passeio Marítimo de Algés." E não resisto a mais um excerto: "É outro Cohen: foi-se o ópio, a cocaína que usava para combater a depressão (e que odeia), as relações turbulentas com as mulheres, as quedas. Vestido de fato e chapéu pretos e camisa branca, Cohen fingiu, durante três horas, ser um cavalheiro sem dores de alma, mas é óbvio que ele é apenas o cavalheiro que a sua solidão o obriga a ser. E como se isso fosse pouco, ainda cantou."

E que acham, caríssimos belenenses? Acham que os fãns de Cohen, eu incluída, entupiram o e-mail do provedor do leitor? Claro que não (confesso apenas um telefonema de desabafo a um amigo…)! E sabem porquê? Imagino que terá sido por muitas razões, entre as quais a falta de tempo para tanto que fazer e ainda a profunda convicção de que, por este país, a opinião só deixa de ser livre quando se atenta contra o bom-nome e a honra de terceiros. A propósito, que diria Cohen, se tivesse lido o João Bonifácio? Eu imagino…

E o que terá a dizer Azeredo Lopes? Terá o presidente da ERC consciência que a igualdade de oportunidade no acesso aos meios de comunicação social das diferentes candidaturas não é o único e muito menos o mais importante princípio consagrado na Constituição?

Como diz António Barreto, importante é a liberdade de criticar, ainda que correndo o risco de ser injusto, de não dar importância ao que corre bem. É verdade, no estádio do Belenenses, a casa também já esteve cheia.

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