o riso dos gestores

Opinião

"Nada justifica que homens e mulheres ponham fim às suas vidas. Hoje, como ontem, não posso aceitar isso." Esta frase foi dita anteontem pelo número dois da France Telecom, Louis-Pierre Wenes, no dia em que foi afastado da direcção da empresa, na sequência da onda de suicídios que tem atingido a operadora francesa. À primeira vista e no meio de uma crise tão grave como esta, que atira para o desemprego milhões de pessoas, todos tenderão a concordar com este gestor da France Telecom. Além da mais profunda convicção de que é sempre preferível viver, não será o desemprego o fracasso absoluto? Não será preferível ter pessoas que não se sintam completamente felizes no trabalho, do que pessoas desempregadas? Mas se fosse assim tão simples, o que explicaria então que pessoas que têm trabalho se suicidem? Só nos últimos 19 meses, verificaram-se 24 suicídios na France Telecom e as tentativas falhadas foram, pelo menos, uma dúzia. É pouco provável que sofressem todos de problemas mentais, mas mesmo que assim fosse, seria perfeitamente plausível pensar que os problemas profissionais destas pessoas contribuíram ou precipitaram o final. Também é impossível garantir que a decisão de suicídio se ficou a dever apenas ao stresse e às pressões no trabalho – raramente a decisão pode ser atribuída a uma única causa -, mas o que é certo é que as cartas de despedida destas pessoas acusavam desespero, stresse e pressões no trabalho.

E a France Telecom está envolvida num duro programa de corte de custos. Nos últimos quatro anos, saíram da empresa 22 mil pessoas e muitas das que ficaram lutam no dia-a-dia por um agressivo esquema de bónus… mensais.

 

É injusto culpar Louis-Pierre Wenes ou qualquer outro gestor da France Telecom por esta onda de suicídios, é ainda mais absurdo censurar as empresas que se reestruturam, que despedem e não se entregam ao fatal destino, que pode passar até pela morte, com todas as consequências que tamanho final tem para milhares de pessoas, mas é perfeitamente legítimo acusar a empresa de péssima liderança. Deveriam ser todos despedidos, não apenas Louis-Pierre Wenes. Não há desculpa para quem avança com um profundo programa de corte de custos contra os trabalhadores. Por coisas muito simples, que nem precisam de ser ditas por consultores especializados. Regras de puro bom senso. É o que dizem os estudos mais antigos da psicologia: acima de um nível moderado, o aumento da ansiedade e das preocupações reduz a capacidade mental; as emoções espalham-se como um vírus; quando as pessoas se sentem bem, o trabalho corre melhor; a boa disposição lubrifica a eficiência mental; o grau de satisfação das pessoas por trabalharem numa empresa explica boa parte do seu desempenho; as acções do líder – de uma só pessoa – explicam muitos dos sentimentos dos empregados relativamente ao trabalho. E está provado que um bom ambiente de trabalho resulta num aumento do volume de negócios.

É o riso a distância mais curta entre duas pessoas. É difícil fingi-lo. O barulho dos risos é um bom indicador da temperatura emocional da empresa e deveria ser obrigatoriamente medido no momento de avaliar o trabalho de qualquer gestor.

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