o que faz um bom aluno?

Opinião

 

 

 

Hoje, ao contrário do que acontecia há 100 anos, os pais já não escolhem apenas o mais dotado dos seus filhos para seguir o liceu. Hoje, os pais têm o dever de dar a todos os seus filhos condições para estudar, nem que para tal seja necessário pedir ajuda do Estado. Esta ajuda é, aliás, conforme sublinhou o Presidente da República, na sexta-feira, durante as comemorações do centenário do antigo Liceu Camões, uma condição indispensável para uma efectiva igualdade de oportunidades no acesso ao ensino. Não há, de facto, comparação, em 100 anos muita coisa mudou para melhor. O Liceu Camões deixou de ser uma escola selectiva à qual apenas tinham acesso os filhos de alguns. Mas o problema do Liceu Camões e da maioria as escolas de hoje já é outro. Não é novo, mas será, porventura, mais difícil de solucionar. As escolas têm um papel activo na reprodução das desigualdades sociais. Ao contrário do que se pensa, a escola não é aquela instituição imparcial que, simplesmente, selecciona os melhores alunos com base em critérios objectivos e na meritocracia. Afinal, o que as escolas fazem, já dizia Pierre Bourdieu, é espalhar os valores, as crenças, os gostos e os códigos da maioria, do grupo dominantes, isto sob a capa de um embrulho de material académico. Por mais inteligentes e endinheirados, só passam os que dispõem dos meios para decifrar estes códigos.

Na "Sociologia da Educação", Bourdieu notabilizou-se, precisamente, por questionar a neutralidade da escola e atribuir-lhe, inclusive, um papel legitimador das desiguldades sociais, quando converte as diferenças de raiz social em diferenças académicas ou de personalidade. O filósofo cortou, aliás, com uma falsa convicção: a de que é o factor económico a principal explicação para as desigualdades escolares. Para Bourdieu, o desempenho de um aluno está muito longe de depender apenas das suas qualidades pessoais, ou do dinheiro dos pais. O que distingue um bom aluno é, sobretudo, a sua "cultura geral", conceito vago onde se incluem as relações sociais e todo o capital cultural da família.

Por mais limitações que se atribuam à teoria de Bordieu, torna-se quase impossível ignorar certas evidências empíricas. De que forma, um aluno, por mais inteligente que seja, estará apto a concorrer numa escola onde se cobram, para além de conhecimentos técnicos, regras de boa-educação, de bem falar ou bem vestir com as quais nunca conviveu antes em casa? Seria possível imaginar relações tão íntimas entre os accionistas da Portugal Telecom e a própria operadora se Nuno Vasconcellos, Ricardo Salgado e Zeinal Bava não se regessem todos pelos mesmos códigos, se não partilhassem todos a mesma linguagem?

O que falta às escolas é serem, isso sim, genuinamente inclusivas. Não basta ao Liceu Camões, e a tantas outras escolas, ser menos selectivo. A liberdade de escolha e a igualdade de oportunidade estão longe de ser a solução para o problema das desigualdades entre alunos.

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