Não, não ensandeceram

Opinião

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Afinal há uma réstia de juízo entre os accionistas e o conselho de administração do maior banco privado português – o BCP. Alguém percebeu, espera-se que a tempo, que manter Armando Vara em funções era um risco impossível de correr. Oex-ministro de Guterres não foi condenado a nada mas é suspeito de participação numa rede de corrupção e tráfico de influências, é arguido no processo Face Oculta. Esta é a dura realidade e a leitura das conclusões do Ministério Público basta para arrepiar qualquer um. E num negócio como o da actividade bancária, que vive e respira confiança, o perigo era demasiado evidente, sobretudo para um banco a braços com a justiça. Ainda hoje não se sabe quais foram os verdadeiros custos para o BCP das guerras intestinas e pouco edificantes pelo poder que atingiram a instituição há alguns anos. E ainda pendem no Ministério Público as investigações sobre alegados crimes praticados nos tempos da presidência de Jardim Gonçalves.

 

Como admitia ontem Santos Ferreira, presidente do BCP, "as notícias que tem havido sobre esta matéria [processo Face Oculta] não são boas para a imagem do banco". Foi, desta forma, que Santos Ferreira abriu as portas à saída do homem que foi seu braço-direiro, primeiro na Caixa Geral de Depósitos e mais tarde no BCP.

Mas ainda foram precisos alguns dias para que os principais donos do banco e o seu presidente chegassem à conclusão de que a saída de Vara da vice-presidência do banco era uma inevitabilidade, mesmo sem acusações e sem julgamentos. E assim, foi perante a estupefacção de todos que se apressaram as demonstrações de solidariedade com Vara, esquecendo-se, pelo caminho, investidores, clientes e trabalhadores, ignorando, pelo caminho, o risco que imprimiam no futuro do banco. Sobre o alegado envolvimento de Vara na Face Oculta, Joe Berardo, com 6,22% do capital do maior banco privado português, disse que é "invulgar", que "não dá para acreditar" e que "parece um caso de ficção". A construtora Teixeira Duarte, um dos accionistas históricos do BCP com cerca de 7%, disse que "confia nas estruturas do banco e no seu funcionamento em quaisquer circunstâncias, incluindo esta". A Caixa Geral de Depósitos também não desarmou: "Neste momento, há apenas indícios, nada está provado, tenho muita consideração por Armando Vara", disse ao "Expresso" deste sábado Faria de Oliveira, o presidente do banco do Estado, que detém 2,5% do BCP. E, quanto aos outros donos do banco presidido por Santos Ferreira – EDP, Sabadell, Eureko, entre outros –, nem uma palavra. O que movia afinal estes accionistas? Uma confiança genuína em Vara ou antes uma dependência financeira e política asfixiante? Vítor Constâncio, o governador do Banco de Portugal, disse ontem que aquilo que o sector precisa é de bons exemplos. Palavras que não se dirigem apenas a Armando Vara.

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