o dedo mindinho de Sócrates

Opinião

Sócrates não é só audaz, é atrevido. Ignorou olimpicamente o caminho que Vítor Constâncio apontou para reduzir o défice orçamental dos 8% para os 3% impostos por Bruxelas. O governador do Banco de Portugal admitiu anteontem que vai ser necessário "um aumento de impostos, não em 2010, mas até 2013", tendo em conta o deprimente estado das contas públicas. E que fez Sócrates? Desafiou um dos melhores economistas portugueses, que por sinal é só o que mais acerta sobre a economia nacional. E garantiu exactamente o contrário: que em Portugal não haverá subida de impostos, nem tão pouco da carga fiscal durante toda a legislatura, ou seja, até final de 2013. E que, mesmo assim, o seu governo vai conseguir organizar as contas do Estado, relançar a economia, criar emprego e, pelo caminho, investir em grandes obras e nas inspiradoras energias renováveis.

Sócrates não é só voluntarioso, é muito optimista. Ou então guardou muito bem guardadas outras soluções, brilhantes mas que mais ninguém está a ver, para resolver o problema da rigidissíma despesa do Estado. Só isto explica tamanha promessa. Sócrates não é ingénuo nem irresponsável e sabe melhor que ninguém que as ameaças do lado da despesa, no meio desta crise, são reais, e que as medidas do lado da receita – subida de impostos excluída -, por mais eficazes que sejam, serão insuficientes para baixar o défice cinco pontos percentuais.

Sócrates não gostou de ouvir Vítor Constâncio, só isso pode explicar que ontem o governador do Banco de Portugal tenha ensaiado uma tentativa falhada de explicações sobre o que disse na véspera. Mas nem essa espécie de não-foi-bem- -isso-que-eu-quis-dizer valeu ao primeiro-ministro. Ontem Silva Lopes, outro brilhante economista não distante do PS, também abriu as portas à subida de impostos, perante a quase impossibilidade de o governo conseguir reduzir o défice apenas através do corte da despesa do Estado.

É compreensível. Por agora, Sócrates prefere falar de outras coisas, já que tem pelo menos um ano de folga pela frente para tentar acalmar um país em brasa. Mas já custa entender que, perante o debate, opte por sacrificar a sua credibilidade, que até já faz impressão de tão débil que é. O que o primeiro-ministro fez ontem ao depreciar assim o diagnóstico de Vítor Constâncio e Silva Lopes faz lembrar um daqueles terríveis momentos de incapacidade para desviar o dedo mindinho da esquina da cama.

Uma dor que arrepia: em quem é que os portugueses acreditam? No primeiro- -ministro e no seu ministro das Finanças, que só agora ajustaram o défice à realidade, ou nos insuspeitos Vítor Constâncio e Silva Lopes? Sócrates ainda terá dúvidas? A resposta chegará em menos de quatro anos.

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