e se os accionistas do BCP fossem os do BPI?

Opinião

Há pouco tempo um banqueiro garantia-me que o único banco português que compraria de olhos fechados – sem antes ter de fazer uma auditoria – seria o BPI. E porquê? "Porque é bem gerido." O momento não foi propício a grandes explicações e a resposta ficou no ar. Mas a confiança no BPI de alguém que conhece a vida dos bancos como ninguém está, obviamente, longe de depender apenas de uma equipa de gestores tecnicamente irrepreensíveis.

Fernando Ulrich até poderia ser o guru da gestão bancária mas nunca seria apenas isso que justificaria a credibilidade do banco, nem é só isso que tem mantido a instituição afastada das operações furacão e faces ocultas.

O que distingue o BPI é a sua liberdade. Não será total – impossível num país onde comem todos da mesma gamela -, mas será maior que noutras instituições financeiras. Essa liberdade sente-se no discurso desabrido de Ulrich e na sua predisposição para a denúncia, mas está longe de nascer da irreverência do presidente executivo do BPI. Não se pode ser livre porque se quer na banca em Portugal, onde a perda de um negócio com uma grande empresa faz muita diferença.

 

Então o que faz do BPI um banco mais independente e seguro para um banqueiro, que o compraria sem querer olhar ao recheio?

São, sobretudo, os seus accionistas. Estrangeiros, imagine-se. A maioria do capital social do BPI – 67,5% – é detida por espanhóis, brasileiros, angolanos e alemães. Podem ter muitos interesses e servir-se do banco para os satisfazer, como qualquer accionista, mas há uma questão fundamental – a sua sobrevivência não depende do BPI. A vida do La Caixa, do Itaú e da Allianz existe para além do BPI. Mais ainda, a da Santoro, holding de Isabel dos Santos, a filha do presidente angolano, José Eduardo dos Santos. Os interesses, empresariais e políticos destes grupos não se sobrepuseram, pelo menos até agora, aos do banco. A independência dos accionistas do BPI tem sido assim a chave da independência da liderança de Fernando Ulrich e, claro, do próprio BPI.

 

Como na família, nem sempre se podem escolher os accionistas, mas a verdade é que na banca portuguesa há estruturas accionistas que foram montadas à pressão, à medida dos interesses de uma pessoa ou de um grupo. O BPN é o melhor exemplo de um banco que existiu sobretudo para servir um grupo de accionistas. Os outros clientes da instituição eram paisagem. O resultado está à vista: o seu fundador, Oliveira Costa, está detido, o banco foi nacionalizado e a factura vai ser paga por todos os contribuintes.

Mas também o BCP não tem propriamente motivos de orgulho. Com uma estrutura accionista reconstruída em plena guerra de poder pela liderança do banco, o que sobressai é o peso da dependência de accionistas e de outros grupos empresariais. E o mesmo se pode dizer do BES e da CGD, onde o controlo do Estado facilita ainda mais relações convenientes. Nada mais, afinal, do que a tal dependência da economia portuguesa em relação à banca. O país não seria igual se os accionistas do BCP fossem os mesmos do BPI, mas seria pior?

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