A todos um Bom Natal

Opinião

Mário Soares apela aos partidos da oposição e ao governo para que se deixem possuir pelo espírito natalício e façam tudo para evitar uma crise de governabilidade. António Vitorino critica a inacção de Cavaco Silva e diz que o Presidente não pode ficar eternamente fechado numa torre de marfim, devendo explicar quanto antes como é que avalia a estabilidade governativa. Certo e sabido. Mal se fizessem ouvir na Assembleia da República os primeiros estalos na cara do governo, regressariam os sensatos com os seus apelos à prudência e responsabilidade da oposição. E, claro está, ao papel mediador de Cavaco Silva. Faz sentido, é essa a função dos sensatos. Porque, como alertou ontem Soares, no seu habitual espaço de opinião no “Diário Notícias”, “se o país caísse numa crise de governabilidade, que viria em acréscimo da crise global aguda em que vivemos, seria um desastre para todos os portugueses”.

O que os sensatos se esquecem de dizer é que do desastre já ninguém nos livra. Haverá maior infortúnio para um país do que a sensação (?) de não ser governado?

A crise de governabilidade que tanto se quer evitar já começou e não foi no Parlamento. Faz-se anunciar num país esmagado pelo presente e, como se já não bastasse, também pelo futuro mais próximo. Sócrates só é primeiro-ministro de Portugal porque não havia e, pior, continua a não haver, mais ninguém para o lugar. Sócrates é um primeiro-ministro abominado por pessoas conformadas com a inexistência de alternativa e que também por isso lhe vão reconhecendo cada vez menos capacidade para fazer o que quer que seja, como por exemplo sair à rua ou governar. Quem quer saber de quem é a culpa, se é de José Sócrates, que fez tudo o que dizem que fez, ou se de carrascos que montaram os esquemas perfeitos para o tentar derrubar. Não interessa.

Nem coberto de chocolate, Sócrates conseguiria despertar o vício.

Já é por tudo e por nada. Até o titubeante Passos Coelho, que ora quer TGV, ora não quer, ora defende a privatização da CGD, ora não defende, pesa nas costas de Sócrates. A inexistência de uma alternativa a Sócrates passou a ser também um problema de Sócrates. É também o resultado da falta de confiança no governo e no primeiro- -ministro, do cansaço e desalento de pessoas desejosas de ser governadas. Não, não é só de irritação que se trata, como sugere Mário Soares.
A este país, nem os melhores especialistas da auto-ajuda podem valer. Diz a teoria que não devemos viver agarrados ao passado e muito menos obcecados com o futuro, que devemos concentrar-nos no momento, no agora. Ora, tentemos, nem que seja por um bocadinho. Agora, em Portugal, accionistas do BCP admitem que Vara regresse ao banco como assessor directo de Santos Ferreira, em vez de voltar à administração para não incomodar o Banco de Portugal. Não é possível, tentemos o passado: o governo ocultou um défice superior a 8%. Bem, e quanto ao futuro… O melhor talvez seja seguir o conselho de Mário Soares e desfrutar a quadra do Natal. Até lá, sempre podemos contar com o star quality dos “Ídolos”.

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