Que medo!

Opinião

Verdadeiramente assustadoras, as palavras de Ricardo Reis, publicadas sábado no seu habitual espaço de opinião no i: “Os especuladores já começaram a atacar a dívida grega e fala-se do risco iminente de bancarrota do país. Se a Grécia cair, Portugal não dura mais que umas semanas.” Não se trata de uma sentença de morte da economia portuguesa. O que o professor de Economia da Universidade de Columbia faz, com a coragem que faltou a muitos especialistas, é avisar para o risco – real – que impende sobre Portugal.

A verdade é essa, aquela que ironicamente nos tem sido anunciada pelas agências de rating, que há dois anos foram justamente fustigadas pela responsabilidade que tiveram na crise do subprime. As economias com défices orçamentais elevados e níveis de endividamento descontrolados estão sob uma pressão que pode ser fatal. Na lista aparecem, à cabeça, a Grécia, a Irlanda, a Itália, mas também Portugal, e até o Reino Unido, já que nem Brown com o seu pre-budget conseguiu tranquilizar o mercado. E se, num pesadelo mais mórbido, a Grécia colapsar, cair, sair do euro, o pânico atingirá rapidamente outras economias. Por isso mesmo, julga- -se que Bruxelas tudo fará para evitar essa situação. O mal não seria só grego…

Contudo, mesmo apertando os olhos para tentar evitar os sonhos maus, o susto não se esquece. Os alertas já se fizeram sentir de forma implacável. Sem mais acção e determinação dos governos destes países, as suas notações de rating continuarão sob forte ameaça. O mercado de dívida soberana já acusa alguma saturação, logo alguma fragilidade. Até quando estarão os investidores dispostos a investir em títulos de dívida emitida por Estados soberanos incapazes de transmitir confiança e de convencer o mercado de que os seus planos de combate serão suficientes para inverter a deterioração continuada das finanças públicas e a elevada vulnerabilidade das suas economias?

Portugal, tal como outros países da União Europeia, não estará numa situação tão agreste quanto a da Grécia. O seu principal trunfo ainda será, apesar de tudo, uma maior credibilidade das políticas orçamental e económica. A economia portuguesa também não acumula um passado tão trágico de erros como o grego e, apesar de crítico, o estado das contas públicas em Portugal não é tão devastador quanto o da Grécia. O défice orçamental nacional é de 8%, em contraste com os 12,2% gregos, enquanto a dívida pública é de 84,6%, contra 124,9%.

Mas nem a convicção de que dificilmente a Grécia cairá, nem as vantagens portuguesas facilitarão a vida a José Sócrates e a Teixeira dos Santos. A Irlanda avançou com medidas tão duras como o corte nos salários dos funcionários públicos e nem assim conseguiu aquietar os mercados. O primeiro teste à credibilidade do governo português tardará menos de um mês e será já no Orçamento do Estado para 2010. Pouco tempo depois, seguir-se-á o Programa de Estabilidade e Crescimento, que explicará a Bruxelas como se pretende reduzir o défice para os 3% até 2013. O desafio será convencer o mercado e as agências de rating antes de o veredicto ser anunciado. E neste campeonato, está visto, não há crédulos.

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