Sócrates não cai já

Opinião

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José Sócrates terá muitos defeitos, somos até tentados a oferecer-lhe mais, mas, como qualquer pessoa, também tem as suas qualidades. É, por exemplo, muito perspicaz. Por isso já percebeu que o Governo que lidera vai acabar por cair, mais cedo ou mais tarde. Por várias razões, mas sobretudo porque o povo não o deseja, tolera-o. Será então apenas uma questão de tempo, mas nunca de dias ou meses. Não é para já. É por isso que é absolutamente incompreensível a actual estratégia da vitimização e de dramatização. Não faz sentido forçar uma moção de confiança e muito menos provocar já eleições antecipadas.

Alguém no seu perfeito juízo acredita que se o país voltasse às urnas dentro de meses alguma coisa de verdadeiramente importante mudaria na governação? Façamos um pequeno exercício de imaginação: a discussão do Orçamento do Estado para 2010 corre mal, não há acordo com os partidos da Oposição para viabilizar o documento; o PS provoca uma moção de confiança, que não passa; e o país cai em eleições antecipadas, isto lá para Maio ou Junho. Qual seria o resultado dessas eleições? O mesmo de Setembro passado. O PS voltaria a ganhar porque (ainda) não existe alternativa, mas manteria a maioria relativa.

O PSD continuaria como líder da Oposição, podendo apenas verificar-se pequenas alterações na relação de forças entre os outros três partidos com assento parlamentar. Ou seja,

o PS não ganharia nada, não conseguiria a saudosa maioria absoluta, nem tão-pouco veria reforçada a sua legitimidade governativa. Pior, conseguiria irritar ainda mais as pessoas, fartas de eleições e de política merecedora de escárnio.

De que mente brilhante terá então brotado esta ideia de que as eleições antecipadas resolveriam todos os males da governabilidade em Portugal?

Do PS, parece impossível. Do PSD, que assim tentaria conquistar o poder? Inverosímil. O PSD não tem liderança e não se prevê que a chegada de um novo líder se resolva

a tempo de um confronto eleitoral na Primavera do próximo ano. Mas, ainda que a necessidade aguçasse o engenho entre os sociais-democratas, é relevante perguntar qual seria o líder. Uns não são simplesmente capazes de derrotar Sócrates, outros não estão dispostos a enfrentar agora o primeiro-ministro e arriscar ficar-lhe com o lugar num momento em que vai ser necessário sujar as mãos co- mo há muito não era preciso.

Não, não é agora que Sócrates cai. O Governo e a Oposição estão condenados a entender–se e a negociar, o Orçamento do Estado vai acabar por ser aprovado, com uns jeitinhos à direita e à esquerda. Digamos que este capítulo faz parte da história, é importante, mas não será uma daquelas partes inesquecíveis. Se era só para isto tanta dramatização, foi um completo desperdício de esforço.

Sócrates não cai já, a não ser que, ao contrário do que diz, não tenha assim tanta vontade de governar Portugal. Mas é uma questão de tempo e de outros orçamentos.

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