Alguma coisa contra o povo irmão?

Opinião

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Poucas horas depois do ataque dos brasileiros da Companhia Siderúrgica Nacional à portuguesa Cimpor, já Fernando Faria de Oliveira inquinava o único e verdadeiro negócio da bolsa portuguesa nos últimos quatro anos. Desde as ofertas públicas de aquisição (OPA) lançadas em 2006 sobre a Portugal Telecom e sobre o BCP que não se via por este país um negócio de quase quatro mil milhões de euros. O presidente da CGD – o banco do Estado – disse ao “Negócios” que “a Caixa tem vindo a defender a manutenção dos centros de decisão nacional”. E já está, em meia dúzia de palavras o negócio entre dois grupos privados cotados em bolsa passou a adquirir uma dimensão política. Faria de Oliveira não fala, obviamente, em nome do Governo, mas aquilo que diz é relevante, porventura mais importante do que o que vier a dizer qualquer outro accionista da Cimpor.

Já está, a dúvida já vive connosco. Irá o Governo de José Sócrates interferir nesta operação? Argumentos não lhe faltam: a Cimpor, uma das maiores cimenteiras mundiais, é a única grande empresa industrial e internacionalizada de um país sem indústria. Armas, tem-nas de sobra: são vários os accionistas importantes da Cimpor capazes das mais diversas provas de lealdade. A CGD é controlada a 100% pelo Estado – o que dispensa explicações – e detém 10% do capital da Cimpor, depois de ter feito um negócio com Manuel Fino para minimizar os danos no seu balanço do dinheiro que este empresário lhe devia. Fino tem uma opção de compra sobre aqueles 10% e ainda detém outros 10% da Cimpor. Mas – há sempre um mas -, depende dos bancos, que financiaram os seus investimentos. A Teixeira Duarte, por sua vez, tem pouco mais de 22,9% da cimenteira e também está longe de nadar em dinheiro. Conta com um aliado financeiro de peso, o BCP. Aliás, as alianças entre estes dois grupos são uma tradição. A construtora de Pedro Maria Teixeira Duarte participou como accionista de referência na luta de poder no maior banco privado português, supõe-se que do lado Jardim Gonçalves. E o BCP, liderado por Santos Ferreira, imagine-se, detém uma posição de 10% da cimenteira, através dos seus fundos de pensões. E já lá vão, mais coisa menos coisa, porque nem tudo é claro neste momento, 40% de capital potencialmente alinhado. Está então claro que não será difícil repelir e anular a ofensiva brasileira sobre a Cimpor. Tudo em nome do desígnio nacional, dos centros de decisão nacional ou do que quer que se lhe queira chamar e que por várias vezes tem levado à mediocridade. No caso da Cimpor, dos males o menor. A cimenteira é um sucesso empresarial. Uma estrutura accionista dispersa não impediu a gestão de executar uma estratégia de crescimento e de internacionalização, e com bons resultados. Isto, até há dois anos atrás. A mistura de accionistas como a Teixeira Duarte, a francesa Lafarge ou Manuel Fino, tornou-se explosiva. Uma espécie de BCP, take II, onde curiosamente coincidem alguns guerrilheiros. Assim, é verdade, a Cimpor não poderia continuar. A ausência de liderança conduziu a empresa a uma perigosa instabilidade que poderia estragar o bom trabalho que foi feito. É nisso que devem pensar os defensores dos centros de decisão nacional. Antes de abaterem brasileiros, franceses ou quaisquer outros investidores estrangeiros, devem pensar no que lá estão a fazer os portugueses e se estes são merecedores do lugar de accionistas. Se a estratégia nacional para a Cimpor for tudo menos brasileira, que seja diferente da portuguesa que lá está. Ou o futuro de uma das melhores empresas do país estará em risco.

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