Se pudesse escolher com quem gostaria de beber uma cerveja?

Opinião

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Cavaco Silva desvalorizou ontem a candidatura de Manuel Alegre às eleições presidenciais de 2011, disse que é um assunto que não faz parte das suas preocupações e que toda a sua atenção “está concentrada nos graves problemas do país e na mobilização dos portugueses para enfrentarem os desafios que têm pela frente”. Uma esperada declaração de interesses que só fica bem a quem ainda será “o presidente de todos os portugueses” durante pelo menos mais um ano, mas que não será, não pode ser, absolutamente sentida. Alegre será provavelmente o pior rival que Cavaco poderia ter: Alegre é tudo o que Cavaco não é, para o bem e para o mal. Pegando nas próprias palavras do actual Presidente e na sua prioridade – a “mobilização dos portugueses para enfrentarem os desafios que têm pela frente” -, pode bem ser aqui que está uma das maiores dificuldades de Cavaco. Cavaco já não inspira, não apaixona, não emociona, Cavaco não é, definitivamente, um Obama. Cavaco está então longe de ser um mobilizador de vontades, sobretudo num momento em que estas estão mais adormecidas que nunca.

Cavaco pode até ser tecnicamente perfeito, ser dotado de um imaculado sentido de Estado, ter uma seriedade e independência à prova de bala e uma inabalável estabilidade de carácter e ideológica, mas será isso que os portugueses irão valorizar quando tiverem de escolher o Presidente da República para os próximos cinco anos?

Desiludidos com a inexistência de líderes – qual é o último de que se lembra? – e com uma longa lista de políticos medíocres, não poderão ser outras as características a pesar no momento voto? Não se pede sequer uma subida vertiginosa às nuvens, tão simplesmente algo que entusiasme, que ajude a recuperar a capacidade de acreditar. Afinal, algo que mobilize. Poderá ser aqui que está o maior trunfo de Manuel Alegre. O novo candidato a Belém pode não ter ainda mostrado capacidade executiva e experiência governativa, mas distingue-se, combateu em Angola, foi preso pela PIDE, esteve dez anos exilado na Argélia, é poeta, gosta de caçar e de touradas, é polémico e inconveniente, é arrogante mas é intelectual, tem mundo.

Se pudesse escolher, com quem gostaria de ir beber uma cerveja, com Cavaco ou com Alegre? A resposta, qualquer que seja, não tem, obviamente nada a ver com a sua preferência para o Presidente da República. A pergunta serve apenas para mostrar que as variáveis são muitas e que se vivem tempos de fenómenos. Num ambiente social e económico deprimido e num confronto entre pessoas como Cavaco e Alegre, a personalidade dos candidatos pode assumir uma importância invulgar, pelo menos entre algumas franjas, junto de algumas elites, do eleitorado cosmopolita e jovem. Subiu o pano.

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