Pensará Sócrates que é ministro das Finanças?

Opinião

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José Sócrates é o primeiro-ministro de Portugal, não é o ministro das Finanças. Existe uma grande diferença entre o que é exigido, permitido e tolerado a um e outro. A realidade é trivial mas a verdade é que nos últimos dias Sócrates parece não perceber que há comportamentos que não são para si.

Teixeira dos Santos pode bater com a porta se a Lei das Finanças Regionais for aprovada amanhã pela oposição e, mais tarde, promulgada pelo Presidente da República (improvável). Um ministro das Finanças a braços com um défice de 9,3% (2009) e um compromisso de redução para 3%, pelo menos, até 2013, pode alegar que não tem condições para continuar. Será legítimo que se indigne e se sinta incapaz de atingir os seus objectivos quando à sua volta tudo parece apostado em fazer passar mais uma lei, que além de despesista passa a mensagem de que as finanças públicas nacionais são geridas ao sabor dos interesses dos pequenos e médios caciques. Teixeira dos Santos pode espalhar cirurgicamente ou até à bruta a ideia de que se demitirá se os partidos da oposição se mantiverem intransigentes e aprovarem a lei tal qual como chegou da Assembleia Legislativa Regional madeirense. Fazer este Orçamento e os próximos, com a economia no estado em que está, assemelha–se à transcendência da quadratura do círculo.

A lei pode ser o sinal que nunca deve ser dado a um mundo que nem pestaneja à espera do tropeção da economia portuguesa, ou apenas a gota que faz transbordar o copo de água do ministro, mas a sua aprovação não deixa de ser um argumento plausível para tentar explicar uma desistência.

Mas daí até a Lei das Finanças Regionais ser usada, ainda que em privado e por interposta pessoa, para justificar uma eventual demissão do primeiro-ministro, já entramos no domínio do descaramento. Seria preciso muita lata para que José Sócrates viesse agora dizer, depois de tudo o que se passou e ainda se passa com ele e com este país, que agora, sim, está tudo acabado. A Lei das Finanças Regionais pode ser a gota de água de Teixeira dos Santos mas não é, não pode ser, a de José Sócrates. Se o primeiro-ministro quer entornar o copo, esteja à vontade. Ninguém o pode obrigar a ficar onde está, são cada vez menos os que têm paciência para pseudodramas e muitos não o quererão sequer num sítio onde ele porventura não quer estar. Mas não pretenda Sócrates criar a ideia de que nem ao de leve tocou no copo. Se está cansado, se tem uma estratégia política ou informação privilegiada de que lhe seria vantajoso provocar, neste momento, eleições antecipadas, esteja à vontade. Se pretende testar o Presidente da República, ver se Cavaco fará ou não parte da solução, está no seu direito. Mas basta de jogos infantis, tipo “eles é que fizeram” e “não foi de propósito” ou “não sei de nada”. Da responsabilidade pela crise política já não se livra e, infelizmente, com ela ou sem ela, com Sócrates ou sem ele, a economia é o que é. De pouco lhe serve um primeiro- -ministro cada vez mais frágil.

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