Desculpe sempre os seus inimigos, até os imaginários

Opinião

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Alberto Martins saiu ontem do seu gabinete para tentar defender o estado catatónico da justiça, que é como quem diz resguardar José Sócrates. A reter do seu discurso isto: a opinião pública está “surpreendida e chocada”. E saberá o ministro da Justiça a razão deste estado geral? Desde sexta, dia da publicação pelo “Sol” de algumas das escutas do processo Face Oculta, a confiança no primeiro-ministro é menor. A pergunta que todos fazem é esta: “Será verdade, será possível que o primeiro-ministro esteja envolvido num “plano” para controlar a TVI e outros órgãos de comunicação social?” Mas enquanto a dúvida alastra e mina um governo fragilizado, eis que os especialistas deste país se dedicam, à força de mais um escândalo que envolve o nome de José Sócrates, ao intenso debate sobre a forma. Neste país, discute-se mais uma vez, porque em causa está o nome do primeiro-ministro, aquilo que não interessa nem um bocadinho à maioria dos portugueses. Sobre os factos, a substância, aquilo que verdadeiramente inquieta, nada, nem uma palavra. Pelos vistos, ninguém parece estar interessado em limpar a imagem de José Sócrates. Não há memória de um primeiro-ministro que tenha sido tão atacado pelos media, escreveu-se algures por estes dias. É verdade – exceptuando Santana Lopes que caiu por ser Santana Lopes -, Sócrates é o campeão de escândalos. Injustamente, não se sabe. A maldita dúvida. Que fique claro que qualquer pessoa tem direito ao bom nome, à sua reputação e à presunção de inocência. Está consagrado na Constituição. E que não reste sombra de dúvida: qualquer democracia só é verdadeiramente uma democracia quando existe liberdade de expressão e uma comunicação social livre e independente. Também está na Constituição. E inevitável, estes dois direitos fundamentais entram muitas vezes em conflito. A pergunta é a de sempre: até quando é legítimo quebrar o segredo de justiça? O problema é que para esta discussão já todos demos sem que, infelizmente, para a justiça e para todos nós – não só para o primeiro-ministro – se tenha chegado a uma conclusão. Não é por isso que se deve abandonar o assunto e admitir uma situação do “vale tudo”. Mas não será igualmente importante garantir às pessoas as respostas que elas mais precisam: que Sócrates é humano, não é Deus, erra, mas nunca seria capaz de participar num esquema sórdido, de reunir os “seus” para “limpar gajos” que o incomodam e criticam. A sua palavra, infelizmente para todos, já não basta. Depois de tantos casos infelizes, é assim… Será que não vão fazer nada, que vão depositar a pasta no chamado arquivo morto e deixar-nos à mercê da medonha dúvida. E num repente, um pouco da loucura genial de Oscar Wilde: “Um homem nunca deve ser demasiado cuidadoso na escolha dos seus inimigos.” Nada a propósito, nada fácil.

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