Ontem o país estava feliz!

Opinião

Ontem o país estava feliz! De Norte a Sul, da esquerda à direita, ninguém ficou indiferente. Vítor Constâncio, o ainda governador do Banco de Portugal, sim, aquele que foi criticado até à medula – algumas vezes merecidamente -, que foi arrasado sem piedade – algumas vezes com razão -, o mesmo que foi acusado de ter sido brando com a banca e um dos responsáveis pelos casos BPN ou BPP, sim, ele, é ele o motivo da alegria nacional. Constâncio foi eleito vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) e foi uma “honra para Portugal”, segundo Durão Barroso, um contributo para “a melhoria do bem-estar e da prosperidade de todos os europeus”, diz Cavaco Silva, e “um êxito da diplomacia nacional”, conclui José Sócrates. Nem o próprio, cujo telemóvel deve ter entupido com a chuva de felicitações, conseguiu sentir tamanho êxtase. Por razões que deixou nas entrelinhas da confissão que fez ao i, logo após a sua nomeação – “Sinto também alguma amargura por ter sido motivado a deixar o país.” -, mas também porque tem a noção da verdadeira importância desta sua vitória para o país, quanto mais para a Europa e para o mundo, bem como da sinceridade demonstrada a propósito da sua airosa mudança de vida. A ida de Constâncio para a vice-presidência do BCE, com o importante pelouro da supervisão do sistema financeiro, é obviamente relevante para Portugal, é sempre positivo quando um português é reconhecido pela sua competência e é escolhido para ocupar cargos em instituições internacionais, mas isso não é motivo para tanta festa. Hoje Portugal já não está feliz! E não é preciso muito. Hoje o INE divulgará os dados do desemprego relativos ao último trimestre de 2009, hoje tem início a segunda ronda das negociações salariais entre governo e sindicatos da função pública, com promessas de greve em cima da mesa, hoje a comissão de Ética inicia as audições sobre o “plano” do governo de José Sócrates para controlar a TVI e outros órgãos de comunicação social, hoje José Sócrates promete, na primeira etapa do seu tour pelas bases socialistas, resistir e espantar a crise política que está longe do fim (faça Zoom nas páginas 12 a 17). O PSD já avisou que prepara uma proposta de alteração ao Orçamento do Estado para 2010 com o objectivo de aumentar os valores das transferências para as regiões autónomas de acordo com a nova Lei das Finanças Regionais. Isso mesmo, o PSD prepara-se para enfiar o dedo na ferida que, segundo governo, é motivo suficiente para demissões de ministros. E além da aprovação do Orçamento na especialidade, faltará ainda o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) português – Teixeira dos Santos conseguiu acalmar as agências de rating e os mercados, mas ainda não apresentou factos. Só os factos afastarão qualquer sombra sobre a credibilidade financeira do país. E há mais, muito mais. Até Maio, por exemplo, o governo será testado na escolha do sucessor de Vítor Constâncio. Não basta um nome com técnica e credibilidade, é preciso mais: independência, coragem e autonomia para ser mais intrusivo na supervisão. Teixeira dos Santos pode voltar a fazer o país feliz!

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