Sócrates não vive na Madeira

Opinião

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Um grupo alargado de entendidos quer à viva força convencer o país que no actual momento de crise não se pode mudar o líder… porque a crise, já de si grave, poderia degenerar numa catástrofe de insondáveis dimensões. Explicam assim os ditos especialistas, imbuídos de enorme convicção e responsabilidade, que dada a actual situação da economia portuguesa o pior que poderia acontecer, neste momento, a Portugal e aos portugueses era serem abandonados por José Sócrates.

Os especialistas não podiam deixar de estar mais certos e ao mesmo tempo completamente enganados. Não há a menor dúvida que uma crise política que resulte na saída de Sócrates é indesejável, mesmo muito indesejável. O governo acabou de ser eleito – só passaram cinco meses -, o Orçamento do Estado não foi aprovado pelo Parlamento e o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) ainda não foi entregue, não foi escrutinado por Bruxelas nem pelos investidores e agências de rating. Isto numa fase em que Grécia e Portugal parecem, para quem vê de fora, irmãos gémeos. Se José Sócrates saísse, a economia portuguesa sofreria, sem dúvida, danos imediatos. Nesse cenário, a desconfiança dos investidores em relação à capacidade de Portugal organizar as suas contas públicas aumentaria. Os custos estariam à vista de todos, com a subida do preço do dinheiro à cabeça. A saída de Sócrates – de Sócrates porque é ele o primeiro-ministro – é por isto e muito mais indesejável. Estão certos os tais especialistas. Os principais partidos e o Presidente da República não teriam, nesse caso, um minuto a perder, só teriam tempo para encontrar uma solução credível que garantisse que, mesmo sem Sócrates, Portugal não se desviaria da trajectória de redução do défice orçamental e da dívida pública, nem da estratégia de recuperação da economia. Difícil missão, sem qualquer espécie de dúvida.

O que o grupo de entendidos não explica é que Sócrates só é desejado, só é importante para o país e para os portugueses enquanto transmitir confiança e credibilidade. Se o filme das escutas e do “plano” do governo para controlar a TVI e outros órgãos de comunicação social continuar numa escalada de terror género gore, se o primeiro-ministro sair cada vez mais fragilizado e desacreditado, deixa de ser uma garantia do que quer que seja. Não se pense que por estarem longe e, por isso, não assistirem aos mais sórdidos pormenores de todas as cenas deste assustador argumento, os responsáveis da Comissão Europeia, das agências de rating e os investidores vão continuar a acreditar e investir num país com um líder quebrado. É aqui que os especialistas entendidos na governação se enganam. É do senso comum que a ausência temporária de um líder é menos nefasta que a persistência de um líder frágil por tempo indeterminado.

Nem a crise, por muito grave que seja, torna Portugal e os portugueses reféns de um qualquer primeiro-ministro. Ainda não chegámos à Madeira, onde Alberto João Jardim, imagine-se, impelido pela mãe natureza se sente na obrigação de (re)repensar se é desta que abandona a presidência do governo regional.

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