Sente a falta do seu helicóptero?

Opinião

“Sente a falta do helicóptero para ir trabalhar?” A resposta à pergunta do economista João Duque foi um pronto e óbvio “Não!”. Mas talvez a resposta de Jardim Gonçalves não tivesse sido esta. O fundador do BCP dispunha de um e até há bem pouco tempo, mesmo depois de ter deixado a liderança do banco, podia usá-lo nas suas deslocações. Ou seja, só sente a falta quem já teve, no limite, só sofre quem se habitou a ter. Helicópteros, carros topo de gama, viagens para as Caraíbas e plasmas, mas não só. Esta crise internacional e a nossa crise – já a tínhamos, não vale dizer que foi inventada – já roubou e vai continuar a roubar coisas bem mais triviais e importantes, como a possibilidade de comprar ou continuar a pagar a prestação da casa, e até o direito a um emprego. Ainda ontem a OCDE, ao mesmo tempo que elogiava o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) português, avisava que a recessão limitou o potencial de crescimento da economia nacional no longo prazo e encolheu o mercado de trabalho.

Será a partir de agora – ironias da vida -, quando o governo recebe elogios pelo seu PEC, que a crise vai doer a valer a cada vez mais pessoas. Salários congelados, mais impostos, cortes nas prestações sociais, juros mais altos, crédito mais difícil e mais caro. É o que está para vir. Se ainda não está convencido que terá de apelar ao espírito de sacrifício, lembre-se do que disse anteontem Vítor Constâncio. O governador do Banco de Portugal e futuro vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) afirmou sem rodeios que todos terão de estar preparados para aceitar mais medidas de austeridade. Mais ainda. E Constâncio é conhecido por preparar terreno. Se ninguém o avisou, nem mesmo o primeiro-ministro, fique a saber que o nível de vida de muitos portugueses vai piorar. Logo agora que alguns nos querem convencer, há já alguns meses, que a recuperação económica já começou.

É verdade que se viveu numa riqueza artificial e que a alienação tem sempre um custo, mais que não seja o confronto com a realidade. Mas não é por ter sido assim que passa a ser justo dizer a alguém que afinal não podia ter assinado o contrato promessa de compra e venda da sua casa porque, já devia saber, não vai conseguir continuar a pagá-la… E muito mais difícil será um putativo proprietário viver com a ferida das dívidas.

O PEC pode ser aprovado, abençoado por Bruxelas, sossegar as agências de rating e afastar o fantasma grego; Portugal pode não ter de ouvir o desplante de Angela Merkel sugerir que venda algumas ilhas; Sócrates até pode pendurar a medalha quando em 2013 mostrar ao mundo um défice de 2,8% e gritar de vaidade que o seu governo conseguiu fazer o que devia para bem do país e de todos os portugueses. Mas e até lá? Bem, até lá, há que aguentar, dirá, o país não pode continuar a viver acima das suas possibilidades. Mas e depois? Bem, depois, dirá, logo se vê, nem sei se ainda cá estarei.

Governar não é isto. Portugal não se tornou ingovernável assim a partir do nada, os governos é que não souberam governá-lo.

Mas como são os governados que elegem os governantes – era muito bom que assim continuasse -, o melhor mesmo é abrir os olhos – a televisão e os jornais não mostram nem metade -, observá-los em pleno acto. Ser governado dá trabalho mas talvez valha a pena e possa evitar surpresas destas, senão aos nossos filhos, pelo menos aos nossos netos. Por eles, vale a pena.

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