Pior é a desilusão de um quase

Opinião

Hoje, apenas três dias depois de ter conquistado a liderança do PSD, Pedro Passos Coelho tem uma enorme vantagem em relação a José Sócrates. Ainda não desiludiu. Ninguém se ilude com quem não conhece, apenas com aqueles que pensa conhecer. E a verdade é que, apesar de Passos Coelho estar longe de ser um desconhecido na política, a maior parte das pessoas ainda o olha com curiosidade e expectativa. Mais não seja porque nos últimos dois anos não esteve em palco.

Com Passos Coelho ainda se está naquela fase em que se procuram tiques, apreciam-se as cores das gravatas, ainda se pensa “não sei se hei-de gostar ou não”, a sua voz ainda não se tornou tão familiar ao ponto de irritar, é quase como se se tratasse de uma pessoa que acaba de chegar para passar a fazer parte da nossa vida. Pode parecer que não, mas tudo isto importa: a desilusão é dos sentimentos mais corrosivos, capaz de despertar coisas impensáveis.

Mas a partir de agora, Passos Coelho sentou-se numa cadeira – só agora todos o ouvirão – e todos os erros e falhas são a pagar, sem excepção. Há erros e erros. Há uns que nem uma vida chega para pagar.

Logo para começar, se se quiser assumir como uma alternativa de poder, o novo presidente do PSD jamais poderá mentir, enganar, prometer o que não poderá garantir ou esconder um passado duvidoso. Uma vez passa, duas ainda vai, mas à terceira já se sente e à quarta pode ser tarde de mais. É assim que costuma funcionar com a desilusão. Vistas bem as coisas, quase nunca é fulminante.

E é assim, tão simples. Passos Coelho não pode deixar tentar-se e tornar-se num ilusionista. Deve fazer aquilo que o governo ainda não foi capaz e explicar tintim por tintim a situação desastrosa em que o país se encontra. Com todo o tempo e detalhe do mundo. Mostrar o quadro inteiro, por muito agreste que seja, e depois concluir dizendo que, por nós, pelos nossos filhos e netos, não nos resta outra saída senão arregaçar mangas, fazer sacrifícios, no limite, sofrer. A todos, mas mais a uns que outros porque como sabemos – Passos Coelho sabe que sabemos – a austeridade toca mais a alguns. Nesta fase já não há expectativas para gerir.

Depois, o novo líder do PSD deve perceber que a oposição não se faz apenas de críticas, que quando se atira a uma medida do governo deve apresentar uma alternativa. Se não quer este Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) deve mostrar o seu, como pretende chegar a 2013 com um défice inferior a 3%. É fácil dizer-se que está ao lado da classe média, ameaçar com o chumbo de todas as medidas do PEC que a afectem, mas não apresentar fonte de receita ou corte de despesa substitutos é puro ilusionismo.

E mais: Passos Coelho deve conseguir resistir à sofreguidão de tantos que o ajudaram na vitória. É difícil ser ingrato, paga-se, mas todos sabemos – Passos Coelho sabe que sabemos – que há recompensas inaceitáveis.

E não acaba aqui. Se não quiser mais um, a vida de Passos Coelho pode ter recomeçado na sexta-feira e até se poderá guardar no fundo da memória tudo o que correu mal antes-das-directas-no-PSD.

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