Há ajudas e ajudas

Opinião

Portugal vai endividar-se mais ainda, não para pagar parte do muito que deve, mas sim para ajudar a Grécia a sair da situação de iminente falência das suas contas públicas. Neste domingo à tarde, com as bolsas encerradas e antes de uma nova ida da Grécia ao mercado para se financiar, os países da zona euro apressaram-se a fechar um plano de ajuda. Uma derradeira tentativa para sossegar os investidores, depois de uma das semanas mais negras para o governo grego. Empréstimos bilaterais de até 30 mil milhões de euros a uma taxa de juro de cerca de 5%, abaixo dos spreads de mercado. A este montante, juntar-se-á ainda o Fundo Monetário Internacional com mais 15 mil milhões de euros.

E à altamente endividada economia portuguesa caberá uma quota de 774 milhões de euros, ou seja, 73 euros por cada contribuinte, conforme as contas feitas ontem pelo i. É dinheiro. E o esforço é ainda maior porque Portugal e os portugueses estão metidos numa crise grave e nem sequer sabem como vão sair dela. Simples como a verdade, aquela que Teixeira dos Santos disse sem hesitações, logo em Março, assim que se levantou a hipótese de a zona euro avançar com um plano de ajuda à Grécia. “Portugal está numa posição muito delicada e dificilmente poderia suportar aumentos da sua dívida para acudir à Grécia”, avisou o ministro das Finanças. Sem florear porque, melhor que ninguém, Teixeira dos Santos conhece o verdadeiro estado das contas públicas nacionais.

Mas, mais uma vez, foi ultrapassado, primeiro por Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros, e depois pelo próprio primeiro-ministro, que garantiram aos gregos, mas sobretudo aos alemães e aos franceses, a solidariedade portuguesa. Talvez não tenha sido bem uma ultrapassagem. Talvez Teixeira dos Santos tenha apenas tentado fazer de Angela Merkel, que até ao fim – até ao acordo fechado no domingo – foi dura e deixou bem claro que o “sim” da Alemanha não foi mais do que um grande favor aos gregos. A Grécia até pode não precisar de todo o dinheiro disponível, a Grécia vai pagar juros, mas as prioridades de qualquer economia europeia, mesmo a alemã, neste momento de crise, são tudo menos gastar recursos para pagar os erros gregos.

Já com Portugal, a situação é completamente diferente. A solidariedade do governo de Sócrates é, obviamente, interesseira. Empresta 774 milhões de euros, que não tem, e mais emprestaria se a participação de Portugal no capital do Banco Central Europeu (BCE) fosse maior.

Ninguém sabe o dia de amanhã, nem Sócrates nem Teixeira dos Santos, e o entusiasmo manifestado por algumas instituições internacionais em relação ao Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) português não foi secundado pelas agências de rating. A verdade é que a Fitch e a Standard & Poor’s baixaram o rating da República e mantêm o outlook negativo. E não é menos verdade que, ontem, depois do alívio dos mercados face à Grécia, a dúvida de muitos analistas era a de saber se Portugal seria a próxima vítima da solidariedade europeia. Nestas coisas, como em tantas outras, nem sempre ajuda mais quem pode, mas sim quem precisa.

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