O problema não é o mar

Opinião

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Há leituras para todos os gostos, a mais à frente é aquela que interpreta o discurso do 25 de Abril de Cavaco Silva como o lançamento da campanha à sua recandidatura nas eleições presidenciais de 2011. Pois, que seja. De facto, Cavaco não voltará a ter, neste mandato, muitas oportunidades de falar com tanta pompa e circunstância a tantos portugueses. Sim, qualquer analista político conseguirá justificar, uma a uma, as ideias e as palavras de Cavaco e analisar a sua intencionalidade e eficácia no campo da táctica eleitoralista.
Mas não é isso que interessa agora às pessoas, que ainda atribuem, sobretudo com o país neste estado, uma atenção especial ao que diz o Presidente num momento tão solene. Mesmo num dia em que só se pensa no Benfica. De pré-campanhas, campanhas e eleições estão todos fartos. Como disse Cavaco, e bem, “os portugueses perguntam-se todos os dias: para onde estão a conduzir o país? Em nome de quê se fazem todos estes sacrifícios?”. São as respostas a estas questões que podem tranquilizar e transmitir a tão desejada confiança às famílias e às empresas.
Ninguém estava à espera que as soluções surgissem embrulhadas no meio dos discursos do Dia da Liberdade, nem que fosse Cavaco a responder àquilo a que o governo de Sócrates ainda não conseguiu dar resposta credível e definitiva. Mas esperava-se, isso sim, que o Presidente aproveitasse a ocasião para dizer coisas importantes.

Ainda que no cavaquês do costume, Cavaco falou e não foi para o ar. Falou a todos os portugueses quando os criticou por pouco ou nada fazerem pelo país quando ele mais precisa. Nem todos podem ser Salgueiros Maias – “aquele que deu tudo e não pediu a paga”, lembrou, citando Sophia de Mello Breyner -, mas não é possível que a maioria não perceba que há vida para além do plasma que dá brilho aos jogos de futebol. Falou aos que, ao contrário do que fez o capitão de Abril, “caminham para Lisboa em busca de cargos e lugares”, mais conhecidos por boys.

Falou directamente a António Mexia quando voltou a interrogar-se sobre se os rendimentos dos gestores das grandes empresas não serão muitas vezes injustificados e desproporcionados face aos salários médios dos seus trabalhadores. Falou ao governo quando defendeu que a periferia – que já não se mede em quilómetros – “está onde mora a ineficiência do Estado, a falta de excelência no ensino, a ausência de conhecimento, de inovação e de criatividade […], o atraso competitivo.” E claro, falou ao primeiro-ministro, quando atirou sem clemência: “A injustiça social cria sentimentos de revolta, sobretudo quando lhe está associada a ideia de que não há justiça igual para todos.”
Cavaco falou a muita gente, disse coisas acertadas, que existe vida para além de Lisboa, mas esqueceu-se do essencial, do que o país mais precisa – uma estratégia de médio e longo prazo e de governos que a executem até ao fim, sem mandar abaixo o pouco que vai sendo feito. Cavaco falou, encantado, sobre o mar, a necessidade de Portugal repensar a sua relação com “um activo económico maior do nosso futuro”, mas esqueceu que essa conversa, como tantas outras, já é velha. Os nossos problemas, infelizmente, são e continuam a ser os do costume. No final da década de 70, antes de Portugal entrar na então Comunidade Económica Europeia (CEE), a falta de competitividade já era apontada como uma das principais falhas da economia nacional. Cavaco falou, falou, mas esqueceu-se de dizer o mais simples, que em Portugal os governos, incluindo os que ele próprio liderou, pouco governam.

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  1. Pingback: Caramba, muito | A nova lição de Cavaco: é errado DIZER que “pode ter custos para os contribuintes”

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