O pior que pode acontecer a um político, segundo Sócrates

Opinião

Cavaco Silva garante que sabe muito bem aquilo que está a fazer e, por isso, apela a um voto de confiança no nosso – seu – ministro das Finanças, a propósito das novas metas do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) e da capacidade do governo para as executar. O Presidente não pediu que o país confie no governo porque simplesmente não pode apelar à confiança em algo que está partido (faça zoom nas páginas 14 a 17). Se o tivesse feito, os portugueses seriam chamados a confiar em quem? Nos que estão contra a suspensão, o adiamento, a reavaliação – o que se lhe quiser chamar – das grandes obras? No primeiro- -ministro, que no final de Abril – há menos de duas semanas -, em pleno debate quinzenal, enchia o peito para dizer que rever o plano de investimentos públicos era “uma fantasia que não tem a menor correspondência com a realidade”? Disse mais: “Eu sigo o meu plano e não me impressiono. O pior que pode acontecer a um político é quando tem um plano pensar mudá-lo quando encontra uma dificuldade”. Que risco pedir aos portugueses que confiem neste primeiro-ministro, o mesmo que agora – não passaram sequer duas semanas – reviu de alto a baixo o seu plano de investimentos públicos. Está tudo dito, é desnecessário relembrar outras contradições de José Sócrates sobre as grandes obras. Muitas e num curto espaço de tempo.

Cavaco confia em Teixeira dos Santos, já deu disso provas várias vezes, fez até questão de ouvir o ministro em Belém e, só por isso, pode pedir o mesmo aos outros.

Fernando Teixeira dos Santos conseguiu dizer o que pensa sobre o tema dos grandes investimentos sem embaraçar o primeiro-ministro, ainda que a sua contenção lhe tenha custado o incómodo rótulo de desautorizado. Conseguiu aguentar as vacilações de Sócrates, numa habilidade de palavras, colocando à vista de todos as divergências no seio do governo sem, no entanto, escancarar as portas. E, pelos vistos, com resultados. O novo aeroporto de Lisboa foi adiado, a terceira travessia sobre o Tejo também, do TGV manteve-se o troço Poceirão- -Caia e estão sob análise eventuais cortes noutros projectos. Teixeira dos Santos desejaria tanto o investimento público quanto o PCP, cuja reacção ao cancelamento das obras foi no mínimo hilariante. Não há governo que dispense esta forma de estimular uma economia estagnada, a não ser quando os perigos são demasiado evidentes. Mas nem todos perceberam que o país tem de mudar de vida. Portugal está demasiado endividado – o Estado e, sobretudo, as famílias e as empresas – e depois desta convulsão nos mercados o custo da dívida disparou. Não é de hoje que se sabe que já não vivemos no tempo do crédito fácil e barato. Ouça-se Cavaco Silva, três frases: 1. “Faz sentido, neste tempo, reexaminar os investimentos públicos e privados na área dos bens não transaccionáveis que sejam capital-intensivo tenham uma grande componente importada”; 2. “A nossa recuperação económica só será duradoura se se reduzir as necessidades de financiamento externo”; 3. “É nas comunidades locais e nas PME que pode estar a fonte duradoura da nossa recuperação económica.” Chega? É que, neste caso, o Presidente da República sabe o que está a dizer. Seria bom que José Sócrates ouvisse, mostrasse convicção nas decisões e que confiasse sem hesitações no seu ministro das Finanças. Não nos podemos dar ao luxo de ter um primeiro-ministro que governa ao sabor das pressões dos mercados e das opiniões que muitos decidiram tornar públicas, como Vítor Constâncio ou Jean-Claude Trichet.

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