O Presidente não tem espírito

Opinião

José Saramago será sempre recordado pela sua obra, a melhor homenagem que se pode prestar ao Nobel português é ler os seus livros. Mas que enorme lugar-comum disseram os que ontem quiseram escapar ao incómodo da pergunta sobre a ausência do Presidente da República ou fingir que o assunto era pequeno, irritante e irrelevante no meio da enorme tristeza causada pela morte do Nobel português.

É verdade, provavelmente a decisão de Cavaco não incomodou os amigos do escritor, provavelmente a família de Saramago até agradeceu não ter de, numa hora difícil, cumprimentar o chefe de Estado, aquele que em 1991 vetou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ao Prémio Literário Europeu. E também não deixa de ser verdade que ler e compreender os livros de Saramago, as suas histórias e personagens é, para os que acreditam na superioridade da literatura como instrumento da memória perdurável, o melhor tributo que se pode prestar a um grande escritor.

Tudo isto até pode ser verdade, mas não é caso único. José Saramago não continuará entre nós apenas pelo que escreveu. Quer se goste quer não, a sua vida mistura-se com a dos que se emocionaram e cresceram a lê-lo, ajuda, inclusive, a contar parte da história do país, a sua vida importa pelo que disse e fez, bem e mal, não se resume, por muito incómodo que cause a alguns e ao Presidente, à sua obra. Se Javier Marías fizesse um segundo “Vidas Escritas” e escolhesse mais 20 escritores, Saramago seria um deles. Porque é um nome grande da literatura mundial, mas também porque a sua vida dá um excelente personagem de ficção. Não é para qualquer um. Foi disso que Cavaco Silva não se deu conta. A emissão de uma nota escrita e formal de condolências e o envio do seu chefe da Casa Civil às cerimónias fúnebres pode não ofender os amigos e conhecidos do escritor, mas desconsidera muitos portugueses, de direita e de esquerda, católicos ou não, os que controlaram os juízos de valor para pensar com Saramago e desfrutar do que ele fez. Ao escolher não interromper as suas curtas férias e ficar nos Açores com mulher, filhos e netos, o Presidente da República esqueceu-se de que representa todos os portugueses, os que não gostam e os que gostam de Saramago, os que são a favor do casamento entre homossexuais e os que se ofenderam com a promulgação da lei. Que passou pela cabeça do Presidente da República para faltar à última homenagem nos Paços do Concelho e não representar convenientemente Portugal na despedida ao escritor português? Como é que Cavaco Silva tem o desplante de dizer que “o que um chefe de Estado deve fazer é diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou deve ser feito pelos conhecidos”? Pois, o que deve fazer até pode ser diferente, mas está longe de ser fazer-se representar pelo chefe da Casa Civil. Nunca teve o privilégio na sua vida de alguma vez conhecer ou encontrar José Saramago, diz o Presidente. Que não se justifique, só piora as coisas, a única desculpa admissível era se com a sua ausência estivesse a corresponder ao desejo manifestado pela família do escritor. Se assim não foi, Cavaco não cumpriu o seu dever de chefe de Estado, de Presidente de todos os portugueses. Por muito que lhe custasse, há situações que não se compadecem com presenças em espírito.

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