Não temos de que nos queixar

Opinião

“Não deixa de ser uma ironia que, depois de tudo o que se passou, seja eu o acusado de difamação”, diz Sócrates a propósito da possibilidade de ser constituído arguido num processo resultante de uma queixa apresentada por Manuela Moura Guedes. É verdade, o primeiro-ministro não podia ter mais razão. É lá possível Sócrates ser acusado do que quer que seja, se nunca esteve envolvido em nada de suspeito desde que foi eleito primeiro-ministro. É certo e sabido. Sócrates, justiça lhe seja feita, tem um percurso impoluto, nunca o seu nome apareceu associado a casos estranhos, quanto mais suspeitos. A sua governação foi marcada pela eficácia e uma concentração inédita nas exclusivas funções de um governante. Sócrates envolvido num processo de alegada difamação a uma jornalista? Improvável. Este primeiro-ministro terá sido, desde que há democracia em Portugal, o que menos importância deu ao que se escreveu e disse sobre si e aos jornalistas. Sócrates é conhecido, diga-se, pela relação cordial que mantém com esta classe profissional, à qual pertenço – importante declaração de interesses. E o respeito que mostra pelos jornalistas é enorme, nunca lhe passou pela cabeça viver rodeado de uma cambada de inúteis com pouco mais para fazer do que o atacar. É uma ironia, sem dúvida, até porque é absolutamente normal que um primeiro-ministro apelide, em directo no canal de televisão do Estado, o “Jornal de Sexta”, então apresentado pela jornalista da TVI Manuela Moura Guedes, de noticiário “travestido”, movido pelo “único objectivo do ataque pessoal, feito de ódio e perseguição pessoal”. Vivemos ou não num país onde o mesmo primeiro-ministro tanto fez pela liberdade de expressão? Tem razão José Sócrates, é, no mínimo uma ironia que coisas destas lhe possam acontecer.

Aliás, ontem o dia foi em grande para o governo. O ministro da Justiça esteve talvez no seu melhor quando disse que quem tem de decidir sobre o pedido de levantamento da imunidade ao primeiro ministro são “os órgãos com competência para tal”. Ou seja, acrescentou Alberto Martins, “quem tem de decidir sobre esta matéria são os órgãos com competência para tal, o Ministério Público, os tribunais, a Assembleia da República e o Conselho de Estado. Respeito esses órgãos”. Mais claro seria impossível. Pois, eles que se entendam e interpretem as leis, é para isso que existem e não há como escamotear a realidade: se há coisa que funciona bem em Portugal é a Justiça. E nem é preciso pensar muito.

A verdade, a mais pura, é que há muito tempo que este país não estava tão bem entregue, a um primeiro-ministro competente, consequente e tão determinado que até surpreende como é que ainda se mantém em funções depois de ter sido alvo de tanta injustiça. Terão os funcionários públicos ouvido bem quando Sócrates disse, há dias, que não haverá cortes de salários? Nunca houve porque duvidar. E, já agora, uma palavra igualmente importante para a oposição. Passos Coelho tem sido de uma responsabilidade incansável, é de reconhecer o seu sentido de Estado e um desapego ao poder sem precendentes. Para o líder do PSD, o que importa, registe-se, não é chegar ao poder, muito menos já. Um dia e só se for caso disso.

Sem ponta de ironia, não temos de que nos queixar, da Justiça, do governo ou dos partidos da oposição. E ainda bem, porque se assim não fosse, Portugal estaria mal, muito mal.

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