O último patrão do primeiro-ministro: “Se um dia quiser voltar, Passos tem as portas escancaradas”

Ilídio Pinho

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Fotografia de Diana Quintela

Começou com uma fábrica de latas, depois de uma viagem de carro que fez com a mulher pela Europa, fundou várias empresas, entre as quais a Colep, também passou pela banca e hoje é o presidente da Fomentinvest, a holding gerida por Ângelo Correia e que empregou Pedro Passos Coelho até à sua eleição para primeiro-ministro. Com 73 anos, Ilídio Pinho não desistiu do sonho de criar grupos económicos, mas a partir de fora, porque em Portugal, diz, “não é realizável”.

As férias são dadas a balanços. Qual a avaliação que faz do estado do país, o que o preocupa?
Não é o que me preocupa, mas o que me ocupa. O país foi conduzido para um estado de insolvência. Portugal é como uma empresa, que deve ser gerido economicamente e cujos resultados podem significar uma melhor qualidade de vida, ou então sacrifícios. Portugal está na fase de austeridade, há que fazer sacrifícios, mas também reformas que resultem na redução dos custos do Estado. Uma condição absolutamente necessária nos dias de hoje na economia global é ter capacidade de resposta imediata aos acontecimentos. Quem não tiver é melhor que não se meta nisso porque vai perder, é uma questão de tempo. Cada país é um empresa, vivemos numa concorrência interpaíses. O Estado, o sistema, é mau gestor, não tem tido capacidade de resposta em tempo real aos acontecimentos. A culpa não é do “A” ou do “B”, o aparelho do Estado, tal qual está, construído na sua confusão, impede a capacidade de gestão em tempo real. As decisões demoram a tomar ou nem se tomam. Isso é o que está na base das dificuldades que temos.

O país está melhor do que há um ano. Estamos no caminho certo?
Sinceramente, acho que sim. Se me pergunta se está bem, não está. Citando Salvador Dalí: “Não te preocupes com a perfeição porque não existe.” O Governo, não sendo perfeito, está a fazer um esforço absolutamente patriótico para criar condições para que Portugal seja um país com uma identidade estratégica intercontinental.

O Governo ainda pode pedir mais sacrifícios?
É uma questão que é chocante, essa coisa dos sacrifícios não deveria ser exposta assim. Trata-se antes de uma alteração de hábitos e os sacrifícios que se têm de fazer, nessa alteração de hábitos, infelizmente, ainda não acabaram.

Fará sentido cortar os subsídios às pessoas, se for necessário?
Os sacrifícios devem ser repartidos por todos, e mais por quem pode mais. O que custa é que esta situação se deve ao corporativismo criado pela falta de regionalização em Portugal. Esse corporativismo está centrado em Lisboa, em todos os sectores, nomeadamente, no sindical e na administração pública, no sistema financeiro, sobretudo, na economia de bens transacionáveis. Tudo isso, criou em Lisboa uma bolha que vai ter de se resolver. E é aí que se tem de fazer os grandes sacrifícios. Porque dizer ao povo do Norte que vá trabalhar mais, isso não se faz!

O desemprego no Algarve é mais elevado do que no Norte.
Estou a falar do Norte mas podia falar do Sul. O que estou a dizer é que o corporativismo que reside em Lisboa tem de mudar de hábitos, os interesses ocultos têm de desaparecer.

Mas refere-se a quem?
Por exemplo, à televisão. O Estado deve ser responsável por um canal pedagógico, que informe, que ofereça cultura aos portugueses, uma open university. Agora, um canal para oferecer pornografia ou jogos de futebol ou coisas dessas, porque é que havemos de pagar isso?!

Defende a privatização da RTP?
Em absoluto. Como é que podemos estar a pagar 375 milhões de euros para essa televisão, quando podemos fazer isso só com 125 milhões. São 250 milhões que se podem economizar. Isso, é a iniciativa privada que deve fazer. Ao Estado compete criar condições de pedagogia e conhecimento, à margem do interesse comercial.

O Tribunal Constitucional impede o Governo de cortar os subsídios apenas aos funcionários públicos. O Governo deve compensar a falta dessa receita com mais impostos?
É óbvio que esse caminho já deveria ter terminado, exceto com o aparelho do Estado. O Estado pesa 50% do PIB, isto inviabiliza o país.

A despesa tem uma componente muito grande de salários dos funcionários públicos e o Constitucional impede o corte.
Altere-se a Constituição. O problema existe, ataca-se e resolve-se. Não devemos ter de respeitar uma coisa que está obsoleta. Se pudermos evitar mais sacrifícios através das reformas necessárias do Estado, pois que se altere a Constituição para que os governos resolvam os problemas, senão resulta daí que cada vez teremos de fazer mais sacrifícios, cada vez terá de haver mais sopa para os pobres.

O desemprego é o principal problema da economia portuguesa?
É óbvio que é um problema. Durante toda a nossa vida, o motor da economia foi o imobiliário, mas acontece que temos imobiliário sobrante para as nossas necessidades. Temos os empresários, as máquinas, as paredes das fábricas, os operários, mas não temos mercado. Acabou, tem de haver deslocalização empresarial do sector imobiliário, desse cluster, que são milhares e milhares de empresas. Se não o fizermos, o desemprego continuará a subir e não há governo que consiga resolver o problema. Têm de surgir novos paradigmas económicos, mas para isso são precisos muitos anos, temos de criar cultura da ciência e da tecnologia nas escolas, nas empresas, temos de ter uma open university na TV para se fazerem cursos empresariais, temos de abrir as universidades à sociedade civil e ao mundo empresarial. O país tem mesmo de mudar.

Vivemos com taxas de desemprego recorde. Nos jovens, ronda os 30%.
A situação tenderá a agravar-se se continuarmos a ter uma Assembleia da República muito mais interessada nos debates partidários do que na resolução construtiva dos problemas nacionais.

Sem dinheiro, os empresários não investem e não criam emprego.
Nós temos milhares e milhares, dezenas de milhares de pessoas que vivem dependuradas do Orçamento do Estado, sem acrescentarem nada de riqueza ao valor nacional. E isso resulta do sistema político, falo outra vez de corporativismo. Quando um governo é eleito, a oposição deveria respeitar essa decisão soberana, deixar governar e participar construtivamente na governação, daquilo que acha bem, denunciando o que está mal. Mas não obstaculizar a atividade parlamentar, que é o que está a acontecer. São uns a quererem construir e outros a impedir a construção, destruindo.

Qual a avaliação que faz deste primeiro ano de Passos Coelho?
É preciso ter muita coragem, nomeadamente para suportar os níveis de stress e para tomar as medidas que se tomaram. Poder-se-ia ter feito mais, sim, mas se tivéssemos tido a oposição a ajudar. Como é que se assiste aos debates parlamentares que vão acontecendo?! E quem paga isto tudo são os trabalhadores.

Passos Coelho tem sido um bom primeiro-ministro?
Sim. Ache-me melhor. Só lhe peço um nome, um!

Conhece-o bem, até porque Passos Coelho trabalhou no seu grupo (Fomentinvest).Tive imensa pena que tenha saído. Perdi um excelente colaborador
.
Já não tem nenhum vínculo com o seu grupo se quiser voltar?Já não tem, mas se um dia quiser voltar tem as portas escancaradas.

Porque é que Passos Coelho era um bom profissional?
Pelas suas competências, pelo que idealizava e pelo desenvolvimento da sua atividade. Foi um homem com objetivos e que os concretizou.

Envolveu-se na eleição de Passos Coelho para primeiro-ministro?
Votei nele, com muito prazer, mas não estive envolvido na sua eleição. Sobre política, enquanto ele era administrador da Fomentinvest, falámos alguns minutos, creio que somente uma vez. Não misturo atividade empresarial com política. E ser primeiro-ministro não é ser o presidente executivo deste país?! O chairman é o Presidente.

Não lhe aponta erros?
Uma vez perguntaram-me qual foi a decisão que tomei da qual me tinha arrependido. Respondi que já tomei milhares de decisões e que o que conta é o resultado. Ninguém é perfeito e é perfeitamente natural que alguma decisão não tenha sido a óptima. Todas as decisões são discutíveis. Sobre ele, sobre este Governo, a resultante da governação é altamente positiva e abre as portas para que Portugal seja, dentro de alguns anos, um país do qual nos possamos orgulhar.

O primeiro-ministro não errou na constituição da sua equipa ao escolher alguns ministros, nomeadamente Miguel
Relvas, que agora lhe causam problemas?

Mas o Miguel Relvas criou algum problema?!

A polémica à volta da licenciatura?
Mas quem criou essas polémicas não foi o Miguel Relvas, foram as pessoas que não têm nada que fazer senão criar problemas, pondo acima dos interesses do Estado os seus interesses pessoais, muitas vezes ocultos. Recomendaria a essas pessoas que, na atual situação, olhassem fundamentalmente pelos interesses do país, para se sentirem verdadeiramente portugueses e úteis à Nação.

Um conselho a Passos Coelho.
Que continue a ser o primeiro-ministro com coragem que tem sido até agora, sem que isso lhe custe privações de muita ordem. Imagino o que ele passa para servir Portugal. Mas ele tem essa missão, e o homem que conheço é um lutador de causas. Estou convencido de que um dia, quando se despedir desta vida, há de ir orgulhoso por ter procurado servir o país.

O que acha quando lhe dizem que já foi o patrão de Passos Coelho?
Sinto-me muito orgulhoso porque Portugal ganhou um bom primeiro–ministro, determinado e disposto a todos os sacrifícios para oferecer um melhor nível de vida aos portugueses e dar a Portugal o lugar que o país merece no mundo.

Também fez muitos elogios a José Sócrates quando este era primeiro-ministro.
São dois bons primeiros-ministros?

Tive uma excelente opinião sobre José Sócrates durante os primeiros anos da sua governação porque ele tinha uma visão correta para Portugal. Contudo, o evoluir dos acontecimentos mostrou que ele deixou de atuar de acordo com a sua visão. E acabou por se transformar num mau primeiro-ministro.

Teme que isso possa acontecer a Passos Coelho?
Bem, eu não sou o Zandinga, mas é minha convicção que Portugal tem um excelente primeiro-ministro, com visão empresarial para levar Portugal ao caminho que precisa para ser uma base de sustentação económica e cultural de relações intercontinentais. Estamos a ser conduzidos no bom sentido. Não podemos é dizer já que está tudo bem porque há reformas que têm de ser feitas.

Mas se diz que não está tudo bem, o que é que está mal?
Está mal a confusão do sistema em que vivemos. A fiscalidade, por exemplo, deveria estar concentrada na manifestação de riqueza, avaliando-se pessoa a pessoa e tratar isso de forma direta e frontal e não derivar isso, por exemplo, para a Saúde. O Estado deveria oferecer os serviços de saúde a todos e por igual. Quem quiser mais, paga. No ensino, a mesma coisa. O relacionamento do Estado com as universidades públicas e com as privadas coloca os jovens em desigualdade, e os prejudicados são os filhos dos pobres. O Estado deveria oferecer as mesmas condições a todos os jovens.

Isso custa dinheiro, o país não tem.
Não, custa muito menos. A Fundação Ilídio Pinho mandou fazer um estudo sobre o que acontece nos outros países. O Estado paga um terço, a Universidade o outro terço, na sua relação com a sociedade civil, e o aluno paga o último terço da sua formação, através de bolsas de empréstimo. Quando estiver a trabalhar, o aluno repõe ao Estado a sua parte para que outros possam estudar. Isso coloca todos os jovens em igualdade de circunstâncias. Se há pais ricos que não querem que os filhos tenham bolsas, pagam. O atual sistema faz que os jovens estejam dependentes dos pais até aos 23 anos, ou seja, a viver, numa fase de afirmação da sua personalidade, submetidos a uma atitude de pedinte, de mão estendida para com os pais, e isso destrói a personalidade deles, cria uma cultura pedinte. Quando acabam os seus cursos não sabem decidir.

Os jovens licenciados também não têm emprego.
Quando estes jovens são colocados perante esta situação, está a ser criado o caminho para a subserviência permanente. Se passarem a gerir a sua vida a partir dos 17 anos, assumindo a responsabilidade da sua formação, têm afirmação suficiente para serem empreendedores, ou seja, para criarem empregos. É preciso criar condições para os jovens criarem emprego, não é as pessoas formarem-se e ficarem à espera de um emprego fácil. Temos de mudar a cultura instalada e criar uma cultura de formação empresarial, de jovens capazes de assumir o futuro com responsabilidade.

A crise levou muita gente a reavaliar prioridades, a pensar mais na família, a mudar hábitos. Também sentiu isso na sua vida pessoal e empresarial?
Com certeza. Temos de fazer mais com menos. A prazo, iremos ver que aprendemos a encontrar soluções para os problemas e isso é uma escola de vida extraordinária.

Por exemplo?
A decisão mais difícil que tive de tomar, em termos empresariais, foi na Colep, há cerca de 20 anos: parar os investimentos durante um ano. Tínhamos de otimizar tudo dentro de portas. Tivemos de aprender a fazer mais com menos.

E mais recentemente?
Tivemos de ser muito mais estudiosos sobre os investimentos a fazer. Antes era mais fácil, qualquer pedra dava um calhau.

E a nível pessoal?
Compro menos, não me sinto bem, num clima de austeridade, em apresentar manifestações de riqueza que podem ser chocantes para quem tem dificuldades. Por exemplo, vou almoçar todos os dias a um restaurante onde pago cinco euros. Faça o favor de me dizer se isso em Lisboa se faz.

Também há.
Ainda bem. Aqui, é assim que faço e quando digo a algumas pessoas, ficam chocadas. Sinto-me bem partilhando a forma de estar com todos. E dou esmola, mas sou contra. Quando dou uma esmola não faz ideia o sofrimento que tenho.

Porquê?
Estou a subalternizar quem recebe.

Mas está a ajudar.
Mas é uma ajuda negativa. Preferia dar-lhe emprego, mas não posso. Não posso dar emprego e a pessoa não ter o que fazer. Mas acredito em Portugal, acredito que dentro de cinco ou seis anos, Portugal será um país com uma identidade no mundo bem diferente da que tem agora.

Diferente como?
Portugal ainda é um país periférico na forma como se relaciona com o mundo. Entendo que Portugal, pela relação histórica que tem com as Américas, África, Europa e Ásia, pode vir a ser um centro de sustentação de relação intercontinental. Portugal vai ter condições para captar investimento estrangeiro como nunca. Temos é de ter um aeroporto como deve ser, portos de águas profundas, nomeadamente em Sines, um porto em Aveiro para contentores, e temos, de facto, de ter linhas ferroviárias de alta velocidade. Sem isso, não chegaremos lá. Há um momento próprio para isso, mas tem de ser feito.

Disse que acabou o tempo dos grupos com sede em Portugal.
Sempre foi o meu sonho, a criação de grupos económicos. Não posso levantar uma mesa sozinho, mas se formos cinco ou seis conseguimos. Infelizmente, não é realizável, porque os portugueses têm uma forma de estar muito individualista. Depois do 25 de Abril, o próprio Estado não tinha interesse na criação de grupos económicos para não perder o controlo do processo e onde colocar os seus protegidos. A criação de grupos económicos nunca foi bem recebida pelos governos e pelos partidos. E com a interferência do Estado, começaram a aparecer empresários muito mais interessados nesta relação pessoal com o Estado do que com os seus colegas empresários.

Ultimamente, temos assistido à venda de empresas a estrangeiros, como a Cimpor e a EDP.
É o resultado disso. Mas não me faz nenhuma impressão que haja investimento estrangeiro em Portugal, aliás, pugno por isso para ajudar a resolver os problemas. Na situação atual, só com empresários portugueses, é muito difícil resolver o problema do emprego, porque a maioria está descapitalizada. Mas isto é o resultado da interferência do Estado e é também este problema que está na base da corrupção, culpa do aparelho do Estado. A afirmação de certos grupos portugueses podia ser mais desenvolvida, mas há falta de condições e o investimento estrangeiro é sempre bem-vindo.

Mesmo que seja para assumir o controlo das empresas?
E qual é o problema?! Vivemos num mundo aberto. Lá dar pena, dá. Obviamente que temos a nossa autoestima, mas o “é nosso” sem estar aberto ao mundo nos dias de hoje já não é possível. E sem uma mentalidade aberta ao investimento estrangeiro, como é que depois nós havemos de ter vontade de investir no estrangeiro. A relação é a mesma. Mais, é fundamental aprender a ter relações sinergéticas com o mundo. Se estivermos sozinhos, temos de nos despedir do futuro.

É acionista da EDP. Qual a sua participação?
É inferior a 1%.

Faz parte do conselho geral e de supervisão da empresa. O que é que a China Three Gorges poderá trazer à EDP, além de dinheiro?
Eles pagaram para serem acionistas.

Compraram barato?
Na conjuntura atual, pagaram bem, mas a prazo compraram barato por causa da mais-valia que eles trazem à EDP no desenvolvimento internacional, que pode tornar a EDP numa das maiores empresas de eletricidade do mundo. E mais ainda na sua especialidade das energias renováveis, porque as centrais nucleares terão de ser desmanteladas. Portugal vai ter o privilégio de ter em sede própria uma das maiores companhias de eletricidade do mundo. Mas é preciso que Portugal não trate mal a EDP.

O que é que isso quer dizer?
Quer dizer que se o rating de Portugal baixar para lixo…

Isso já é.
Mais lixo ainda. Se Portugal não recuperar o seu rating pode obrigar a EDP a mudar a sede para o estrangeiro, porque assim a EDP está a pagar muito mais caro para se financiar do que se tivesse a sede, por exemplo, em Londres. O facto de a EDP poder ter de mudar a sua sede para outro país será para reduzir os custos de financiamento.

O cenário foi discutido pelo conselho geral e de supervisão da EDP?
Que tenha estado presente, não. Sou eu que estou a levantar a hipótese.

Vai aumentar a posição na EDP? Disse que gostaria de ter 5%.
Tenho, juntamente com a EDP, a China Power e o Johnny Or, 48% da Companhia de Eletricidade de Macau. O nosso objetivo é reforçar e o meu futuro como acionista da EDP pode ter que ver com tudo isto. Poderá ter de haver uma nova arrumação de capitais envolvidos. Porque é que digo que já não tenho mais tempo para perder em Portugal com a criação de grupos? Porque concluí que é uma luta sem concretização possível. Não estou na disposição de viver mais esse sonho porque o tempo passa e nada se faz. Cada dia que passa é menos um dia de vida. Depois de perdido, não há mais nada que compre o tempo, não tenho dias de vida para perder. Quero viver intensamente até ao meu último dia e quero ir feliz por ter vivido a minha vida exaustivamente em todos os aspetos. Pode ser que os grupos económicos comecem a aparecer a partir de fora, por exemplo, de Macau, e eu possa vir a participar. Não perdi o meu sonho, a sede é que está em causa. Acredito na união de esforços para ganhar.

O que é que Portugal ganha com o seu investimento na Companhia de Eletricidade de Macau?

Pode ganhar muito, mais do que com o meu investimento na EDP, onde sou apenas mais um investidor. Se estiver com a EDP e com os parceiros chineses em Macau, podemos levar os interesses da EDP para a China e para o Sudoeste Asiático. Estamos a falar da criação de condições para Portugal no mundo.

Se esse seu investimento em Macau se concretizar, vende a sua participação na EDP em vez de a aumentar?
Vamos ver.

Como é que um empresário que fundou tantas empresas vive sem produzir?
Mas quem disse que não estou a produzir?! Estou a produzir e muito. Um empresário é um criador, não é um industrial que faz a sua fábrica e fica lá a vida toda. O empresário tem de conhecer o mundo e criar novas condições. Eu, passo a imodéstia, considero-me um empresário, um criador, criei ene empresas, mas fiz isso com a ideia básica de continuidade familiar. Eu tinha um filho, que em 1990 faleceu num acidente na Suíça, estava a acabar o seu curso numa universidade casestudy, ele era o meu continuador e eu tive de fazer uma forte reflexão.

Era o seu único filho.
Tenho uma filha, mas ele é que foi preparado para ser o meu continuador. Tinha duas soluções: Ou me divorciava e arranjava um filho de outra mulher e tinha de esperar 30 anos e tinha condições ou não – fui incapaz de dar este desgosto à minha mulher, que tinha sofrido o mesmo desgosto que eu, que é perder um filho, a pior coisa que pode acontecer a alguém.

Como é que se sobrevive à morte de um filho?
Sobrevive-se com horrores. Mas é obrigação do empresário criar as condições para que o que criou não morra com ele. Gradual e progressivamente fui entregando as empresas a outros e não estou arrependido, porque continuaram a desenvolver-se e a ter sucesso e eu fui fazer outras coisas, criei a Fomentinvest, a Ciencinvest, criei uma fundação da qual me posso orgulhar, e que tem feito coisas extremamente úteis para o país. Deixei de viver só para o meu umbigo para ser útil a Portugal. Amo Portugal, gosto de participar na criação de melhores condições para quem vem a seguir. Gosto de ser português e de ser vale-cambrense, amo a minha terra, onde está o meu filho à minha espera.

O facto de Passos Coelho ter sido seu trabalhador beneficiou-o ou prejudicou-o?
Nunca na minha vida recebi um favor económico do Estado. E quando digo nunca é porque também não recebi este ano. Não sei se sou o único português nessa situação. Mais, estou em condições de lhe dizer que me senti prejudicado várias vezes pela interferência do Estado.

Neste último ano também?
Não. Nem fui beneficiado nem prejudicado. Mas o Estado está a beneficiar da minha Fundação – homenagem à memória do meu filho. Se a Fundação Ilídio Pinho não existisse haveria coisas extremamente importantes que não tinham acontecido em Portugal, nomeadamente o Ciência na Escola, que está a dar origem a uma nova cultura de ciência na escola, a criar novas expectativas aos jovens e de empreendedorismo, de que o país tanto precisa.

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