Ângelo Correia: “Não somos um país de brandos costumes”

Entrevista feita com Hugo Neutel, jornalista da TSF.
Fotografia de Diana Quintela.
Publicada em Dinheiro Vivo

Veja aqui o vídeo da entrevista

Amigo de Francisco Sá Caneiro, envolve-se diretamente na fundação do Partido Popular Democrático (PPD), em 1974. Logo na Assembleia Constituinte chega a deputado, cargo que ocupa ao longo de vários anos, e depois, em 1981, a ministro da Administração Interna do Governo de Francisco Pinto Balsemão, numa época de forte contestação social que antecede a chegada ao país do Fundo Monetário Nacional (FMI).

Este engenheiro químico, que passou por Timor-Leste no serviço militar, acaba por deixar a política para se dedicar à gestão, mas mesmo nas empresas sempre manteve e auréola de poder. Amigo de Pedro Passos Coelho, contrata-o em 2004 para o grupo que lidera, a Fomentinvest. O último patrão do primeiro-ministro nasceu em Almada há 67 anos, é casado, tem 2 filhos e 4 netos.

Tem feito duras críticas ao Governo mas depois aparece sempre a defender o primeiro-ministro e a dizer que não há alternativa melhor. Estamos condenados a ser governados por Pedro Passos Coelho? Pedro passos Coelho só deve manter-se como primeiro-ministro porque não há alternativa melhor?
A questão é que quem governa não é Passos Coelho, é Passos Coelho em nome de um poder exterior que nos tutela – a troika. Portugal é, na expressão muito feliz do professor Adriano Moreira, um “protetorado”. Portanto, o grau de autonomia e de liberdade dos decisores políticos portugueses é limitado e menor. Por isso, acusar diretamente este Governo e Passos Coelho, em particular, é no meu ponto de vista, um exagero

Passos Coelho não tem responsabilidade?
Tem sempre, obviamente. Porque há pelo menos duas áreas onde poderia e exerce, seguramente, os seus poderes. Um é na discussão e contestação do poder do mandante. Segundo é na formulação de alguma políticas para executar o programa da troika, ou em questões que, não sendo abrangidas pelo programa da troika, existe uma liberdade total de decisão. Só que as condicionantes são de tal modo excessivas, determinantes e poderosas que limitam a ação do Governo.

As suas críticas têm sido feitas diretamente ao Governo. Afirmou, entre outras coisas, que o primeiro-ministro e Paulo Portas têm falta de estudo e que não estão preparados para serem líderes nacionais. Disse também que o limite para o sofrimento já tinha sido ultrapassado. Afinal faz sentido sermos governados por pessoas sem estudo e que, como diz, estão divorciadas da sociedade que exigem demasiado?
Vamos considerar o que eu disse com mais rigor. Eu disse que os partidos políticos não estão preparados para governar em Portugal. Nenhum. Não era especificamente o dr. Passos Coelho ou o dr. Paulo Portas, mas os partidos que lideram. Como tal, eles também são beneficiados ou prejudicados pela dinâmica negativa dos partidos. Não conheço nenhum partido que, hoje, esteja preparado para governar., como não conheço nenhum partido que tenha sido organizado para se preparar para governar o país. É uma constatação a incapacidade dos partidos políticos de estudarem, refletirem, ponderarem e terem um programa claro e assumido.

Mas isso é circunstancial ou foi sempre assim?
Foi sempre assim. Com exceção, talvez, do governo da Aliança Democrática do dr. Sá Carneiro.

Mas então resta-nos sermos governados por pessoas que não estão preparadas?
Não estamos a falar de pessoas, mas de organizações. As pessoas governam em nome de partidos políticos. A questão não está na pessoa A ou B, mas sim no partido A ou B. Se me pergunta se temos alternativa a estes partidos, não temos. A nossa obrigação em Portugal é tentar imprimir nos partidos uma capacidade de melhor representação dos cidadãos.

Estamos condenados a ser governados por Pedro Passos Coelho?
Estamos condenados a ser governados por aquilo que nós quisermos. Os cidadãos ainda têm um poder, uma voz e uma capacidade para determinarem um tipo de ação política mais capaz e competente.

Os partidos são feitos de pessoas. Qual a sua opinião sobre o primeiro-ministro?
A minha opinião é a mesma. Em termos de relação humana, é o que é e é conhecida. Em relação a um conjunto de politicas, tenho reservas sobre algumas matérias, como é sabido.

Quais são essas reservas?
As reservas que tenho são sobretudo em relação à crença inicial dada e fornecida logo após a entrada em funções do Governo. O discurso do Governo foi arrojado, otimista em demasia. Tentou transmitir esperança quando aquele programa, inevitavelmente, não iria trazer nunca grande esperança. Era um programa que, no curto prazo, iria ser remodelado, alterado, reorganizado.

Nunca foi.
E nunca foi. Aí voltamos à questão essencial: a força deste Governo, a sua condição executiva depende fundamentalmente daquilo que o mandante político – a troika – permitir. O Governo tem um poder limitado face a uma diretriz que lhe é transmitida e que ele aceitou.

O Governo está nas mãos da troika?
Completamente.

É amigo do primeiro-ministro. Trabalhou diretamente com ele durante vários anos. Patrocinou a sua eleição à liderança do PSD.
Não patrocinei, apoiei.

Passos Coelho continua a ser o seu primeiro-ministro, continua a merecer o seu apoio?
Pedro Passos Coelho é o meu primeiro-ministro e de todos os portugueses. E continua a merecer o meu apoio, enquanto pessoa e governante.

Até quando?
Até ele sair. No dia em que ele sair deixei de o apoiar por uma razão simples e objetiva: ele não está no lugar que devo apoiar.

Trata-se, então, de um apoio incondicional?
Não, trata-se de um apoio ao que ele desempenha em Portugal. Apoios incondicionais é quando as pessoas não têm uma voz crítica e uma voz de liberdade. Apoiar significa que estamos solidários com a sua missão, o seu desempenho. Temos uma voz alternante quando é preciso. Se não temos e somos silenciosos, concordamos com tudo.

Não foi muito concreto nos pontos em que é uma voz discordante. A verdade é que acaba sempre por defender o primeiro-ministro.
Eu posso gostar imenso de uma pessoa e discordar da ação dela. Há realizadores de cinema que eu adoro mas discordo de algumas coisas que apresentam. Há artistas, há autores, há escritores que eu aprecio de um modo geral mas há pontos que critico. Há políticos por quem tenho enorme respeito, em termos pessoais e políticos, todavia discordo de algumas das suas ações. Há muitas coisas neste Governo que eu discordo. Mas também sei uma coisa: a minha discordância não pode ser contra o primeiro-ministro, ou contra este Governo porque sei são obrigados a fazer uma série de coisas que lhes foram determinadas.

Uma pergunta de “sim” ou “não”. Passos Coelho tem sido um bom primeiro- ministro?
Passos Coelho é um bom primeiro-ministro para as circunstâncias que teve de ter e essas são péssimas.

O Banco de Portugal traça um cenário muito negro para 2013. A recessão prevista é de 1,6%, acima da previsão oficial do Governo (1%). Não existem já sinais suficientes para o Governo pensar numa renegociação com a troika?
As razões são mais do que suficientes e não são de ontem. Há muito tempo que se percebe que este programa não tem condições suficientes para trazer Portugal à redenção, pelo contrário, talvez leve mais Portugal para o afundanço. Voltamos à questão: qual é a margem que o Governo tem para renegociar? Eu estou convicto que o Governo tem renegociado algumas coisas, mas também estou convencido de que a margem de negociação é muito limitada face à dureza e inflexibilidade da troika, sobretudo de duas entidades, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu.

Porquê?
A minha suposição é que o modelo económico e político é errado. Criámos dois grandes problemas. Primeiro: as terapêuticas requeridas, desejadas e expressas pelos mandantes não contribuem para a felicidade mas para a deterioração. Segundo: em vez de criar um espírito de unificação europeia, estamos a criar a desagregação da Europa. Sinto, da parte dos dirigentes europeus, uma angustia enorme e uma incompreensão por eles próprios recusarem a realidade. Ou seja, o fixismo ideológico, a o fixismo doutrinário que é expresso e partilhado, hoje em dia, por muitos órgãos dirigentes, não se compagina com a necessidade de uma Europa livre, organizada e solidária.

Sobre um eventual alargamento do resgate à Grécia por dois anos, houve uma aparente descoordenação entre membros da troika. Deteta alguma descoordenação na atitude dos elementos que compõe a Troika?
Desde a reunião de Tóquio, que o FMI se distanciou das terapêuticas europeias. E percebe-se porquê: das instituições que integram a troika, a que tem melhores condições, qualidades e conhecimento sobre programas de resgate é o FMI. Só que, até à intervenção na Grécia e em Portugal, os operou de uma maneira distinta porque tinha um instrumento que agora não existe, que é a capacidade de mexer nas taxas de câmbio. Um instrumento decisivo. Assim sendo, acho que estão a explicar isso às outras entidades. Mas não se percebe, no caso da União Europeia, se o comando é feito em nome da racionalidade ou do fixismo ideológico. Essa é a questão de fundo e temos que perceber que não estamos a debater um programa meramente financeiro, mas sim uma conceção ideológica. Há aqui claramente um perder da solidariedade que talvez nos faça convocar outra questão, a ausência de perigos. A Europa talvez se tenha unido e criado mecanismos de defesa na altura em que era percetível no seu exterior um inimigo contra ela. A partir do momento em que ele desaparece dá a sensação de que os laços internos, que criámos desapareceram. Voltámos à lógica dos Estados nacionais, cada um salve-se como puder. A Europa vive numa profunda contradição. A segunda questão ideológica a tratar são os métodos terapêuticos que a Europa utiliza. Se a Europa quer sociedades que protejam e defendam o modelo consagrado institucionalmente do estado-providência, não é indiferente a terapêutica financeira.

Mas não lhe parece que o Governo se tem colado muito às posições assumidas pelo BCE e pela Comissão Europeia, não contestando os remédios?
Tudo o que é negociação do Governo não é feito, seguramente, na praça pública. O modo como tem de o fazer é de maneira discreta e não pública. Quanto mais o Governo manifestar contestação pública, isto é tenta expressar publicamente aqui que pode dizer em privado, mais perturba o processo, pode provocar uma reação dos mercados financeiros.

Está convencido de que o Governo defende uma alteração dos remédios que lhe estão a ser aplicados mas opta por não o dizer publicamente?
Eu não disse isso, nem posso dizer isso. Consigo ler o discurso do Governo mas não as suas crenças. A minha pressuposição, e é só minha, o que é um defeito, obviamente, é que o Governo tem algumas pressuposições, algumas foram afirmadas , outras infirmadas e outras confirmadas. Acho que em alguns casos o Governo já está a negociar.

Já está a negociar o quê?
Já está a negociar pontos fundamentais do memorando da troika. Quais, não sei. Um, já vimos: o tempo, o adiamento de um ano. Já foi produto de uma negociação. Isso já nos dá uma leitura daquilo que são as linhas de orientação.

Está convencido de que o Governo já está a negociar, neste momento, outras questões importantes como os juros, o montante ou até o tempo?
Se me falar nos juros do FMI, não creio que seja por aí o mais grave. O problema fundamental está nos juros das dívidas anteriores. Tem-se atacado muitas vezes o FMI e a troika pelo valor dos juros, mas o problema essencial não é esse, é o dos das dívidas anteriores.

Essa renegociação que acredita o Governo já está a fazer é também positiva para o Governo, do ponto de vista político?
É. Qualquer Governo é bom se satisfizer as necessidades do país e defender os interesses nacionais. E é um interesse nacional conseguir uma boa renegociação. Logo, se o Governo o fizer é excelente para o país. Poder-se-á dizer ‘mas vocês, Governo, aqui há uns tempo, diziam que o programa era adequado e fazível e agora dizem o contrário?’. A resposta é muito simples e é esta: Com a aplicação do programa a realidade evolui de maneira distinta do previsto. Como tal, é obrigação de cada Governo em qualquer momento encontrar o melhor ajuste entre a realidade nacional, os desejos dos cidadãos, as necessidades do país e os problemas que nos são determinados”

Sem essa renegociação a vida do Governo também fica mais complicada?
Fica, fica a vida de todos nós: governo, empresas, país, cidadãos, famílias, todos perdemos. Este programa, como está, não nos conduz, numa perceção que todos temos em Portugal, a alguma coisa de positivo. Pelo contrário, nós podemos estar no caminho da Grécia.

Com o mesmo grau de conflitualidade social?
Eu tenho uma ideia um pouco diferente daquela que é explicitada em Portugal. Eu acho que não somos um país de brandos costumes.

E tem experiência nisso.
Infelizmente tenho. E custou-me bastante. E custa bastante. Mas apesar de tudo as greves gerais a que eu tive de assistir e as de hoje ainda são um oásis de calma, um momento bom. Devo dizer, os brandos costumes em Portugal são uma ficção. Se as pessoas se sentirem num plano de desespero, de mal estar, de insalubridade, de incapacidade de ver o futuro, de sofrimento excessivo… As pessoas já têm comportamentos desviados. O ritmo de suicídios, de violência doméstica, de mortes, assassinatos desenfreados, nos últimos anos, já são indicadores de estados de tensão insuperáveis por parte de quem os pratica.

A renegociação de que fala deve implicar um recuo na austeridade?
Até ao momento, a austeridade já foi muito dura, mas as pessoas ainda a aceitaram. Com o aumento dos impostos diretos já ultrapassaram, do meu ponto de vista, o limite da possibilidade. Mas pior ainda é o plano B, é se isso falhar, como acho que tem algumas condições para poder falhar. Porque é preciso contemplar um ajustamento entre aquilo que é previsto numa lei, num texto, numa medida administrava, e a sua aplicação à prática. Aquilo que vai acontecer, e já está a acontecer, é a fuga ao fisco, de todas as formas possíveis e imaginárias, as pessoas vão fugir. Podemos chegar a uma situação em que a medida, teoricamente, tem vantagens para o efeito que se pretendia, mas na prática nem isso consegue.

Já se está a sentir isso?
Já se está a sentir. Quando o Governo explicita a possibilidade de um programa B para cumprir aquilo que não se consegue com o programa A, já prevê a pouca exequibilidade. É um pré-orçamento retificativo. É um sinal de que o próprio Governo já percebeu que pode falhar. E tem todas as condições para falhar.

Sim ou não. Recuo na austeridade?
Tem de haver algum recuo na austeridade, a partir de agora. Não pode haver mais austeridade. Paragem!

Acha possível o Governo ser bem sucedido na renegociação com a troika no âmbito deste sexto exame?
Para falar com toda a franqueza, só sinto que tenhamos condições para fazer alguma coisa depois das eleições alemãs. E era muito bom, era totalmente desejável para Portugal, que o futuro Governo alemão tivesse uma componente do SPD. E você perguntará como estou a considerar um partido mais próximo do partido socialista. Estou a ser patriota, estou apenas a ser nacionalista, a defender os interesses de Portugal. Os interesses de Portugal não são fugir ao pagamento da dívida, não são fugir aos seus compromissos e responsabilidades, mas sim encontrar as condições necessárias e o tempo necessário para poder executá-las sem ficar bloqueado.

Angela Merkel esteve em Portugal durante seis horas. Na sua opinião, tratou-se de uma manifestação de apoio ao Governo português, ao mesmo tempo que a chanceler mostra ao povo alemão e ao mundo que não cede um milímetro na sua intransigência perante os países endividados?
Ao analisarmos a visita da senhora Merkel temos de ver o que ela veio fazer a Portugal e e comprar com o que ela fez em países em situação similar à nossa. Há diferenças sensíveis a favor de Portugal. Primeiro, a senhora Merkel é eleita pelos alemães, é uma dirigente alemã e como tal o seu eleitorado prevalece sobre tudo o que possamos desejar. Antes de Portugal está a Alemanha e isso é lógico, aceitável e correto. Segundo, apesar de tudo, a senhora Merkel fez-se acompanhar de um conjunto de empresários que não foram à Grécia. Ou seja, a senhora Merkel quis dar um sinal, mantendo a sua própria coerência e idoneidade, veio dizer “eu confio em vocês” e estou disponível para apoiar investimentos alemães. E deu alguns casos: o apoio à criação de um banco com uma componente alemã, o investimento em algumas novas empresas. A senhora Merkel veio dizer a Portugal e ao mundo que Portugal está numa situação difícil, que não vai querer transigir no poder que tem dentro da União Europeia, para manter uma linha de ação, mas que acredita em Portugal e está disponível para ajudar Portugal.

Falou do Banco de Fomento. Não poderia ser uma função da CGD? Faz sentido criar outra estrutura com as mesmas funções?
Eu escolheria a Caixa BI, o banco de investimento da Caixa. Não que tenha uma especial devoção pela caixa BI ou pela CGD, mas apenas por razões políticas e operacionais. Montar um banco novo não é fazer uma folha de papel. É criar estruturas, métodos de trabalho, regras de compliance, procedimentos, e sobretudo, o tempo de oportunidade. Quando estamos aflitos não se perde tempo. Montar uma estrutura destas demora dois anos. E se passarem os dois anos, passou tempo demais para se conseguir o benefício daquilo que decorre com o banco. Preferia ter um banco existente, com uma boa estrutura, e há dois bancos de investimento bons em Portugal – a Caixa BI e o BES Investimento, preferia aproveitar um deles. Fazer as alterações necessárias, dar-lhe a lógica da atuação, é o mais fácil. O difícil é ter equipas e métodos de trabalho.

Tendo em conta a sua relação pessoal com o primeiro-ministro, tem tido oportunidade de falar com ele sobre estes temas, nomeadamente sobre o Banco de Fomento e sobre a renegociação com a troika?
Sobre este tema não tive.

Mas tem tido contactos regulares com o primeiro-ministro?
Peço-lhe imensa desculpa, não vou responder a questões que são da minha relação pessoal com o dr. Passos Coelho.

Foi ministro da Administração Interna entre 1981 e 1983, num período de enorme agitação social, protagonizou um episódio conhecido como a “insurreição dos pregos”. Durante uma greve geral, em fevereiro de 1982, falou na televisão de uma insurreição iminente na televisão depois da interceção de um carro que carregava caixas de pregos destinados a furar pneus e a criar o caos no país.
Não é nada disso. Primeiro, eu nunca falei de “insurreição de pregos”, quem o disse foi o dr. Álvaro Cunhal. Segundo, nunca houve nenhum carro da polícia, ou polícia que intercetou caixas de pregos, intercetou sim quatro membros das FP 25 de abril, no alto do Parque Eduardo VII, onde as pessoas estavam a meter uma cassete, apelando à insurreição nacional, cassete essa que foi entregue no tribunal.

E durante o 1º de Maio desse ano, durante uma manifestação da UGT no Porto, o corpo de intervenção da PSP disparou sobre os manifestantes, matando duas pessoas. Isto, no meio de uma crise muito menos grave do que a atual. Na sua opinião, o conflito social pode atingir hoje as proporções de há 30 anos?
Em primeiro lugar, é verdade que aconteceu isso no Porto. Os manifestantes da UGT tinham uma manifestação autorizada para a Avenida dos Aliados e a CGTP tinha na Praça Velásquez. Os aderente da CGTP não aceitaram isso e vieram agredir para ocupar o espaço dos da UGT. Foi isso que se passou. O corpo de intervenção interveio e no conjunto das operações morreram duas pessoas. E ficaram muito feridas , 62 pessoas. Isso tudo é muito lamentável. Eu pedi um inquérito à Procuradoria-Geral da República. Foi feito, e não foram encontrados os autores materiais dessas duas mortes, que se lamentam profundamente. Nos dias de hoje, há duas realidades diferentes. Primeiro, como se viu aliás por muitas manifestações que aconteceram em Portugal, o controle da polícia sobre si própria é muito maior.

Já se abraçam aos manifestantes, inclusive.
Eu diria que a manifestante se abraça ao polícia, não diria que o polícia lhe tenha correspondido ao abraço, mas pelo menos deixou. É importante constatar que as pessoas têm, em relação à policia, uma imagem de alguma respeitabilidade maior, que não tinham naquela altura. Segundo, a polícia está mais bem preparada e tem uma capacidade intelectual, de formação e de adequação a momentos destes, muito mais capaz. Hoje em dia, quase que dá prazer ver a polícia portuguesa, face ao que se vê na Grécia, Espanha, ou noutros países da Europa civilizada, ver o comportamento profissionalismo, impecável da nossa polícia ou da Guarda Republicana, o que só nos honra. Se há comparação em termos sociais com os dias de hoje, por enquanto não há, ou pelo menos não se tem manifestado. Naquela altura, os choques de 1982, 1983, eram choques ideológicos, não eram por razões de dinheiro, não eram por razões de reivindicação de salário, não eram por cortar o 13º mês ou o 14º mês, por razões de despedimentos. Não existiam razões tão objetivas como há hoje de insatisfação pessoal, alimentar…

Isso é bom ou mau?
Em 1982, 1983, a luta era ideológica. Hoje, é uma luta de natureza diferente, que tem a ver mais com o bem estar, com o progresso, com o nível de vida, e portanto, estamos a comparar ideologia, peso ideológico, assunções ideológicas e racionalidades que decorrem de um mal estar. O que é que é mais poderoso? Não sei. Desconfio que as discussões ideológicas são mais poderosas do que estas. O que determina talvez menos grau de conflitualidade hoje. Continuo a pensar e a história não tem sido parca de exemplos, que as questões religiosas e ideológicas se sobrepõem a tudo. Ou seja, os elementos de irracionalidade ultrapassam todos os elementos de racionalidade. Acho que hoje, apesar de tudo, das pessoas sofrerem mais, muito mais do que sofriam nessa altura, apesar disso, a conflitualidade social pode ser menor. No plano geral, no plano se quiser das massas, para utilizar uma terminologia marxista. No plano da perceção e assunção pessoal, é mais radicalizante, como se tem visto.

O Governo parece estar cada vez mais distante do sentimento social, Passos Coelho parece ter perdido a confiança das pessoas. Ainda é possível voltar a ganhá-la? Como?
Trata-se de um problema real e poderosíssimo nas democracias de hoje: o distanciamento entre os governantes e os governados. A democracia representativa está em risco, por exaustão. Há duas questões essenciais para governar melhor nesta democracia do século XXI. Primeiro, um conhecimento mais apurado e uma maior capacidade para um desempenho mais eficaz, representando quem os elege. Segundo, uma capacidade de interlocução, de comunicação, de diálogo e debate, permanente, sistémico com os atores numa sociedade, sejam eles individuais ou coletivos. O Governo tem de melhorar a sua postura nesta área. Muito. Porque eu acho que o Governo acreditou num programa, mas não conseguiu convencer os portugueses, primeiro da bondade, segundo, da eficácia. E quando nós pedimos às pessoas que façam sacrifícios, sem elas perceberem que há uma razão, uma lógica que nos conduz até ao bem estar futuro em nome do sacrifício, o programa perde validade.

O esforço que o Governo tem de fazer é apenas de comunicação ou é também de ação?
É de comunicação e diálogo. Ou seja, diálogo é ação, no sentido comunicacional. Ou seja, ou a democracia é um espaço público, amplo, onde trocamos opiniões, sobretudo divergentes, que é o que nos interessa mais, e conseguimos aferir alguns denominadores comuns, alguns valores partilhados, ou conseguimos isso, ou então a democracia está a reduzir-se progressivamente.

Um recuo na austeridade poderia ser um novo impulso para o Governo, em termos de confiança da população?
Se ele existir e for explicado, mais uma vez. O problema não é apenas explicar, não é apenas a pedagogia que é necessária, é preciso mais do que isso. Além da pedagogia, é preciso o debate e o diálogo. Continuo a pensar que a questão essencial em Portugal, para a vivificação da nossa democracia, é as pessoas perceberem que participam num projeto comum. Somos um espaço nacional, onde todos somos necessários, não vamos sair, mas o debate tem de ser permanente.

Há poucas semanas, o primeiro-ministro fez uma mini remodelação. Esta terá sido a remodelação que Passos Coelho queria, ou foi a remodelação possível?
Acho que foi a remodelação possível e encerrou o capitulo das remodelações nos próximos tempos.

Quanto tempo?
Acho que o momento que o Primeiro Ministro tem no seu espírito de poder remodelar o governo seria depois das eleições autárquicas. No meu ponto de vista, há um mês, eu diria, é tarde. Porque há coisas que têm que ser reaferidas, há atores que têm de ser alterados.

Que atores é que tem de ser alterados?
Não falo de pessoas. Tentarei com a debilidade das minhas capacidades, falar de ideias.

E quanto à orgânica do Governo?
Está errada desde o principio, porque faltam duas ou três coisas. Primeiro, ao Governo falta uma lógica essencial, que é ter planeamento. Portugal precisa de planear. Há muitos anos que abandonámos o planeamento, e ainda por cima é um preceito constitucional que é fundamental nos tempos de hoje, num momento em que os atores são difusos, atuam em várias esferas. Se não planeamos a nossa ação, não somos capazes de resolver os nossos problemas. Falta ao Governo, em segundo lugar, uma coordenação política. Em terceiro lugar, há super ministérios que compreendo numa lógica diferente da nossa, mas na atual, em que é precisa tanta ação executiva, eu acho que são excessivos.

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