António de Melo Pires: “Devemos agradecer aos alemães e não apontar-lhes o dedo”

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel, jornalista da TSF
Fotografia de Diana Quintela

Há 30 anos, António de Melo Pires era professor no ensino secundário, hoje lidera uma das mais importantes empresas instaladas em Portugal. A Volkswagen Autoeuropa é muitas vezes apontada como um modelo a seguir, tanto na eficácia da gestão da empresa, como na relação com os trabalhadores.

Em 2011, a fábrica do grupo Volkswagen foi responsável por 4,6% das exportações portuguesas e teve um impacto de mais de 1% no PIB nacional, com um volume de vendas que ultrapassou os 2.200 milhões de euros. Este adepto do Vitória de Setúbal nasceu em Lisboa há 55 anos e é licenciado em engenharia mecânica.
Depois de dar aulas no liceu construiu grande parte da carreira nas Forças Armadas, antes de ingressar, há 20 anos, no grupo Volkswagen. António de Melo Pires é casado e tem três filhos.

Veja aqui o vídeo da entrevista

A Autoeuropa vai terminar o ano com um total de 44 dias de não produção, os chamados down days, o dobro do estimado no início do ano. A empresa não quer despedir e vai avançar com alternativas para fazer face à quebra nas encomendas, como a produção adicional de peças e o destacamento de colaboradores para outras fábricas também da Volkswagen. Estas medidas serão suficientes para evitar despedimentos no próximo ano?
Partimos da premissa de que, a não ser que a situação se agrave muito mais do que estamos à espera, vamos conseguir ultrapassar esta fase sem proceder a despedimentos. Isso faz parte da nossa filosofia, da responsabilidade social do grupo Volkswagen e, portanto, vamos fazer todo o possível para que não aconteçam despedimentos. Primeiro é necessário, dentro da produtiva responsabilidade social, garantir que as pessoas não ficam sem emprego. Segundo, é necessário rentabilizar o investimento que a empresa tem vindo a fazer em todos os seus colaboradores, que custa bastante dinheiro e que nos permitiu, nos últimos anos, chegar, ao topo das empresas do grupo Volkswagen, em termos de qualidade e produtividade. Seria um desperdício proceder a despedimentos, depois, eventualmente, teríamos de recontratar. Vamos fazer de tudo para que isso não aconteça.

Disse que a solução mais fácil seria pegar em 600 pessoas e mandá-las embora. É esse o número de pessoas a mais face às encomendas?
É a nossa estimativa, mas é muito difícil, neste momento e na situação em que o mercado está, prever o que vai acontecer nos próximos meses. Em 2011, fizemos um primeiro semestre muito bom, o problema começou no segundo semestre. Agravou-se muito mais do que aquilo que se estava à espera. É muito difícil hoje dizer o que vai acontecer no mês seguinte, porque o mercado está muito instável. Tudo está a mexer em termos de economia mundial e é extremamente difícil fazer previsões. Vamos continuar este ano a fazer aquilo que fizemos o ano passado: a gerir mês a mês as encomendas.

No final do ano, a produção da Autoeuropa deverá situar-se em quantas unidades?
Cerca de 20% a menos do que no ano passado [aproximadamente 110 mil unidades].

Desde o início do ano, os fornecedores da Autoeuropa já despediram mais de 200 pessoas. Grande parte daquelas empresas não têm o mesmo grau de flexibilidade laboral da Autoeuropa. Não teme que essa dificuldade possa criar dificuldades nessas empresas e por arrasto também no fornecimento da própria Autoeuropa?
Evidentemente que isso é um problema para nós também. Se o fornecedor não está em condições de acompanhar os nossos ritmos de produção e expectativas, obviamente será um problema para nós. Temos vindo, ao longo dos últimos anos, a alertar os fornecedores de que eles deveriam ter ganho sistemas de flexibilidade idênticos aos da Autoeuropa, para permitir fazer face aos ciclos normais da indústria automóvel. Nos últimos anos já tivemos dois ou três círculos de baixa de produção, e eles vão continuar a acontecer.

O desejável seria que houvesse mais flexibilidade laboral na indústria en geral em Portugal?
Penso que nos últimos tempos se deram bastantes passos. Primeiro, hoje em dia, as pessoas têm muito mais cuidado quando olham para o seu emprego porque a situação está extremamente complicada, existe um desemprego altíssimo. Portanto, hoje as pessoas estão mais recetivas a aceitarem outras soluções que não eram possíveis há uns tempos. Portugal tem de se adaptar à economia mundial. Aliás, grande parte do problema que estamos a atravessar hoje foi por incapacidade do poder político e económico, há 20 anos atrás, de ler os sinais do que se estava a passar na economia mundial. Estávamos adormecidos pela quantidade de dinheiro que entrou neste país e alegremente deixámos que este país se desindustrializasse. Não nos apercebemos de que se estava a passar. Hoje, penso que toda a gente está alerta para o problema. Perdemos competitividade e produtividade, e se não recuperarmos não vamos conseguir sobreviver numa economia global. Por isso, as pessoas estão bastante mais alerta para a necessidade de adotar esquemas de trabalho diferentes, que se adaptem à situação atual.

Essa flexibilidade é necessária tanto da parte dos trabalhadores como da parte das administrações, ou não?!
Obviamente! Costumo dizer que o sistema só funciona em equilíbrio. Não podemos ter um sistema desequilibrado e dizer que os trabalhadores têm que dar tudo e a empresa não dar nada. A Autoeuropa só é bem sucedida porque conseguiu atingir um equilíbrio muito bom entre os interesses de todas as partes. E o que nós temos hoje é que, em contrapartida de alguns sacrifícios dos trabalhadores, a empresa também procede a algumas compensações. Aquilo que vamos fazer no próximo ano, que é garantir os postos de trabalho, vai ter um custo bastante substancial para o grupo Volkswagen. Não é só dizer que vamos manter as pessoas em casa, vamos ter de encontrar alternativas e garantir que essas alternativas são, dentro do ponto de vista económico, aceitáveis para a empresa.

Para precisar, em 2013 não haverá despedimentos na Autoeuropa?
Esse é o nosso plano, a não ser que a situação se agrave de uma forma extremamente dramática.

A crise e a agitação social que se vive no país, com greves e manifestações, também aumentaram a instabilidade na Autoeuropa?
Não, nós temos um sistema relativamente equilibrado. Gerimos todas as tensões na sua base, no seu começo, não quando se transformam em grandes problemas. A situação da Autoeuropa é totalmente calma, sem grandes problemas de agitação.

A última greve geral sentiu-se na empresa? Houve trabalhadores a fazerem greve?
Há sempre pessoas a fazerem greve, desde o início da Autoeuropa que existem pessoas que, por opção própria, política ou social, sempre fizeram greve, mas sempre foi um número relativamente reduzido.

Não notou um acréscimo devido à instabilidade e austeridade?
Não, diria que está no mesmo nível.

A austeridade e o aumento da carga fiscal, que provoca uma redução do rendimento disponível das pessoas, reflete-se numa maior dificuldade em obter consensos entre a gestão e os trabalhadores? Algum nervosismo acrescido?
Não diria nervosismo, mas uma preocupação relativamente ao rendimento disponível para fazer face às despesas.

E é difícil obter consensos neste clima?
Não, não é difícil. Ainda estamos, neste momento, em negociações com a comissão de trabalhadores para o próximo contrato e têm decorrido num clima de normalidade. Tanto a comissão de trabalhadores, como a administração e os próprios trabalhadores confiam nas capacidades das partes de chegar a um entendimento, que sempre tem sido benéfico para ambas as partes.

Como é que classifica a relação com a comissão de trabalhadores? Eles fazem propostas construtivas para o desempenho da empresa ou estão preocupados apenas, e isso já não seria pouco, com os direitos dos trabalhadores?
O grupo Volkswagen tem uma ‘Carta de Cogestão’ e a cogestão pressupõe que a comissão de trabalhadores seja consultada numa série de decisões estratégicas para a empresa. Por exemplo, a comissão de trabalhadores é consultada e informada do que é que a empresa propõe em termos de plano de investimentos. Existem muitos outros campos sobre os quais a comissão de trabalhadores tem de ser obrigatoriamente consultada, de acordo com a política interna do grupo Volkswagen. Quando a comissão de trabalhadores não concorda com algum ponto, isso é discutido e chega-se a um acordo.
Encontra na comissão de trabalhadores uma atitude responsável? Absolutamente. Obviamente, existem diferentes pontos de vista, diferentes opiniões, mas sempre chegamos a um acordo.

O facto de os donos da Autoeuropa serem alemães dificulta a relação, considerando a posição assumida pela Alemanha nesta crise europeia em relação aos países endividados?
Absolutamente nada. O grupo Volkswagen é um grupo mundial, tem fábricas em todo o mundo e tem uma rede de interligação muito forte entre todas as unidades de produção. E não é pelo facto de a Autoeuropa estar localizada em Portugal que é menosprezada relativamente a outras fábricas. São colocadas exatamente em pé de igualdade. As fábricas são avaliadas em termos da sua competência para atingir metas de qualidade, produtividade e de custo e isso não tem absolutamente nada a ver com a situação que se vive em Portugal.

E sente dentro da empresa a hostilidade que já existe na sociedade portuguesa em relação aos alemães?
Dentro da empresa não. É um pouco incompreensível a hostilidade que alguns sectores da sociedade estão a produzir relativamente à Alemanha. Historicamente, a Alemanha tem sido o país que nos tem apoiado no desenvolvimento. Mais, os grandes grupos alemães têm investido sistematicamente em Portugal, e investimentos de longo prazo. O grupo Bosch está em Portugal há 100 anos e continua a investir. Só temos que agradecer aos alemães e não apontar-lhes o dedo. As dívidas não são culpa deles, são culpa nossa. Não foram eles que fizeram as dívidas, fomos nós.

Na recente visita de Angela Merkel, teve contactos com a chanceler ou com alguém da sua comitiva?
Com a chanceler não, mas tive oportunidade de contactar com vários elementos da comitiva de empresários que ela trouxe.

E houve alguma mensagem que tentasse transmitir nessa visita?
A mensagem foi de esperança. Muitas vezes temos uma imagem de nós próprios, pior do que os alemães têm. Foi gratificante ouvir alguns empresários alemães insuspeitos, como por exemplo o presidente da Bosch, dizer que Portugal tem dos melhores ferramenteiros do mundo, uma coisa que normalmente não reconhecemos . Pensamos que somos sempre pior do que os outros. Houve uma série de mensagens positivas de empresas alemãs que conhecem bem Portugal e é nisso que temos de nos focar. Temos que elevar o nosso amor próprio. Não somos bons em tudo, mas temos coisas que fazemos muito bem.

Estando Portugal sob intervenção da Troika, há uma preocupação acrescida por parte da casa-mãe na Alemanha? O que tem ouvido dos acionistas?
O grupo Volkswagen tem um conceito de responsabilidade social muito forte. Obviamente, existe uma preocupação da Volkswagen em relação ao que se está a passar em Portugal, e portanto, o programa para evitar despedimentos no próximo ano foi feito com o apoio e suporte da casa-mãe.

Sentiu uma preocupação acrescida face ao risco do investimento?
A preocupação reside em que a estabilidade da empresa seja garantida e que a estabilidade dos empregados da Volkswagen seja assegurada.

O grupo Volkswagen é dos mais competitivos, a nível mundial, no sector em que atua, mas as fábricas do grupo também competem entre si para ver quem recebe o próximo modelo. A Autoeuropa quer vencer uma dessas batalhas para ganhar um novo modelo a partir de 2015. Sem esse novo modelo, a fábrica terá futuro?
Claro que sim. Existem várias hipóteses de modelos e está a ser discutida a sua distribuição por várias fábricas na Europa. Se não receber um novo modelo nos próximos anos não será por isso que a Autoeuropa. Se não for esse, há-de ser outro, a produção, a essência da Autoeuropa não está em perigo.

A Autoeuropa já anunciou que para tentar conquistar esse novo modelo vai fazer um investimento de 49 milhões de euros, que foi considerado de interesse estratégico pelo Governo e que, por isso, vai beneficiar de incentivos financeiros.Já acertou com o Governo os detalhes dos incentivos?
Isso já está a ser discutido com o Governo, nomeadamente com a AICEP. São, de facto, importantes e estruturantes para o futuro da empresa.

Em 49 milhões de euros quanto é que a Volkswagen espera obter em benefícios ficais?
Não posso dar esse detalhe porque isso ainda está em discussão com a AICEP.

Disse que a sobrevivência da Autoeuropa não depende do novo modelo, que será decidido entre o final de Novembro e o início de Março. Mas em que fase é que está?
Esse processo ainda está a decorrer a nível da Volkswagen para vários modelos e várias fábricas. Ainda não existe nada decidido.

Quando é que se espera um decisão?
Penso que durante o próximo ano haverá uma decisão. Mas depende de uma série de parâmetros que ainda não estão muito bem definidos.

A sobrevivência não está em causa mas será difícil manter o atual quadro de 3.600 trabalhadores?
A longo prazo, sim.

O que quer dizer com longo prazo?
Estamos a falar de dois a três anos. Mas os nosso dados são muito competitivos. Hoje, a Autoeuropa tem argumentos extremamente fortes para competir com as outras fábricas, inclusive com as fábricas de Leste. A nível de produtividade, custo da mão de obra e de qualidade somos benchmark. Estamos confiantes que se não for este há-de-ser outro. Algum há-de-vir.

Se em 2013 não entrar um novo modelo em produção, não aumenta a probabilidade de despedimentos?
Mesmo que a decisão de um novo modelo seja tomada já, temos um período de cerca de dois anos e meio até que o novo carro entre em produção. Não é uma coisa que seja para amanhã. O carro não é desenhado, projetado e construído em dois ou três meses, leva pelo menos dois anos e meio até entrar em produção. É um período que vamos ter de tapar com estas medidas adicionais.

Quais são os critérios do grupo para atribuir um novo modelo a uma determinada fábrica?
São critérios estratégicos. Ao obrigo da revolução tecnológica que a Volkswagen está a fazer com as novas plataformas, está neste momento a redesenhar o mapa de que fábricas é que produzem determinados modelos. A plataforma do carro vai ser comum, aquilo que vai mudar é o chapéu, a parte de cima do carro. Portanto, isso vai obrigar a redesenhar complemente o mapa de produção da Volkswagen. São critérios de custo, de produtividade, de qualidade e de logística.

Se a fábrica estiver abaixo da sua capacidade de produção porque as encomendas não são suficientes, como é o caso da Autoeuropa, é um aspeto positivo a considerar?
Obviamente, porque uma fábrica que não tem a sua capacidade utilizada, teoricamente, precisa de menos investimento do que uma fábrica que já está totalmente utilizada. O facto de termos capacidade disponível também é um argumento a favor da Autoeuropa.

Quais são os pontos fortes que a Autoeuropa tem nesta candidatura a um novo modelo?
Temos um indicador de produtividade extremamente elevado.

Que não foi beliscado nesta fase de agitação social?
Não foi beliscado. Temos indicadores de qualidade dos melhores que o grupo tem. Não só ao nível do grupo Volkswagen, mas ao nível da indústria automóvel mundial. Temos um custo de mão de obra que hoje já se aproxima da Europa de Leste. Esses são argumento muito fortes a favor de Portugal. Além disso, temos uma mão de obra altamente qualificada.

Além do investimento que referiu, existem outros previstos para facilitar a candidatura a um novo modelo?
Temos um plano de investimentos anual que incluí uma série de vertentes. Este ano, estamos a falar desses 49 milhões de euros de investimento, mas para o ano voltamos a ter um investimento de mais 60 milhões, sem novo produto. Nunca paramos de investir.

A Autoeuropa exporta a quase totalidade da produção. Até Outubro, o mercado nacional representava apenas 0,6% das vendas. A Alemanha e a China valem quase metade da produção. A China pode, a médio prazo, tornar-se no principal cliente?
Penso que não. Os carros que exportamos para a China sofrem um aumento de custo substancial, não só pelo transporte, mas também pelas barreiras alfandegárias que a China tem, o que limita, à partida, o aumento das vendas no mercado chinês. São carros para um público com alto poder de compra. Não esperamos uma grande explosão de vendas na China. É capaz de haver um crescimento continuado, mas não que permita ultrapassar a Alemanha.

E estão previstos novos mercados?
O conjunto dos mercados mais pequenos são o nosso terceiro cliente. Temos a Alemanha, a China e depois aquilo a que chamamos “o resto do mundo”. 140 e tal países para os quais exportamos pequenas quantidades, mas são muitos países. Temos vindo a atacar esse conjunto de pequenos mercados porque, embora sejam pequenos no seu conjunto, fazem uma grande diferença.

E não estão a apostar em nenhum em particular?
Estamos a estudar a hipótese de entrar com os nossos modelos em alguns mercados, como México, Brasil e Rússia, que está em crescimento. Estamos a trabalhar para ocupar esses mercados.

80% dos carros são exportados a partir do porto de Setúbal. A greve dos trabalhadores portuários tem afetado o escoamento dos carros. Há poucos dias havia 10 mil carros parados. Já têm alternativa? Houve uma notícia não confirmada de que uma das soluções seria a implantação de um terminal dedicado à exportação de carros na área portuária de Sines.
É uma hipótese, não é a solução ideal. Desde o início, a Autoeuropa foi planeada com uma linha férrea direta para o porto de Setúbal. Nunca será a situação ideal fazer esse transporte para o porto de Sines. No entanto, se a situação se agravar colocamos a hipótese de ir à procura de outras soluções.

Já estão em negociações?
Estamos à procura de alternativas. Que será, não só em Portugal, mas eventualmente em Espanha. O porto de Santander não está assim tão longe, também tem um terminal que nos permite exportar por ali.

Quando é que conta ter uma solução para este problema?
Basicamente, há que agarrar nos carros que estão no porto, colocá-los em camiões e transportá-los para outro porto. Podemos fazer isso a qualquer momento. Para evitar custos adicionais, estamos a ver se a situação se desbloqueia.

A localização surge como uma desvantagem da Autoeuropa quando comparada com outras fábricas do grupo Volkswagen. Este aspeto pode ser reanalisado? Faz sentido pensar num aspeto tão estruturante como a localização da fábrica?
Faz sentido, obviamente. Temos custos logísticos superiores aos dos países do centro da Europa, que estão ali ao lado da Alemanha. Não só de transporte do produtos acabado, mas também de transporte de peças. Temos uma desvantagem porque custa mais caro transportar as peças para aqui e transportar os carros de volta. Os nossos mercados estão todos na Europa ou na Ásia. Isso, obviamente, implica custos adicionais de logística. É uma coisa que temos vindo a tentar anular, nomeadamente com a instalação de comboios de transporte da Alemanha diretos a Portugal. Conseguimos uma redução de cerca de 5% no custo. Este foi um esforço para quebramos o paradigma que Portugal está muito longe da Europa. O sistema pode ser melhorado. Se o sistema for otimizado, conseguimos muito mais do que isso. Existe bastante por fazer nesse aspeto.

A linha planeada pelo Governo, que já não é um TGV, é uma linha de alta prestação, poderia também beneficiar a Autoeuropa?
Obviamente que sim. Estes 5% de poupança que referi no transporte por via férrea é considerando que temos de fazer o transbordo de mercadorias na fronteira entre Espanha e França, que nos custa entre duas e três horas e cerca de 15% dos custos. Se tivermos uma linha direta para o norte da Europa que não precise de parar na fronteira esses custos serão otimizados e eliminados. Eu aposto numa redução de 20 a 25% nos custos.

A maioria dos trabalhadores recebeu um prémio de objetivos de 938,23€ referentes a 2011. Também será possível pagar um prémio de produção relativo a 2012?
O sistema é baseado em metas a atingir pela empresa e pelos próprios trabalhadores. Se no final do ano, essas metas forem atingidas as pessoas receberão o prémio. Não há nenhum impedimento para que as pessoas recebam esse prémio.

E como está o nível de cumprimento de objetivos de 2012?
Estamos neste momento a rever os parâmetros. Temos que esperar pelo final do ano e ajustar os valores que vão ser utilizados para calcular o prémio.

É possível manter o nível de pagamento do prémio de 2011, ou a crise, a redução de produção, afetará o valor do prémio em 2012?
Pode acontecer ,no entanto, o bónus não é diretamente proporcional ao volume de produção. Existem outros parâmetros, como o índice qualidade e o absentismo. Aliás, o volume de produção pesa relativamente pouco nessas metas. Não há nenhuma razão para não pagar um prémio que seja equivalente aos resultados que a empresa conseguiu atingir.

Equivalente ao de 2011 ou mais reduzido?
Vamos ter que fechar as contas no final do ano para conseguir chegar a um valor real. Não será eventualmente um prémio tão bom como o do ano passado, mas será um prémio bastante bom porque a empresa continua a cumprir as metas a que se propôs até ao final do ano.

O Governo quer avançar com uma taxa de IRC reduzida para novos investimentos produtivos em Portugal. Se Portugal for autorizado a avançar com tal medida prevê que o grupo Volkswagen aproveite para fazer novos investimentos em Portugal?
É uma hipótese, mas o grupo Volkswagen não se move por lucros imediatos. O grupo Volkswagen e os empresários alemães têm mais um espírito de longo prazo. Não é pelo facto do IRC ter subido em Portugal, como subiu nos últimos tempos, que o grupo Volkswagen deixou de investir em Portugal. A Volkswagen foi bastante penalizada e não deixou de investir em Portugal. O contrário também não vai ser verdadeiro. Agora, acho que é uma medida extremamente importante para poder atrair investimento. Nós precisamos desesperadamente, em Portugal, de investimento. Por isso é uma medida que poderá fazer a diferença.

A Autoeuropa é considerada um modelo em termos de gestão, relação com trabalhadores, produtividade e é uma fábrica competitiva. O que é que poderia ser transposto para o país, para melhorar os resultados e o governo do país?
Diria que a única coisa que o Governo pode fazer é disponibilizar legislação laboral que facilite essa adoção. Mas o Governo não se pode substituir às empresas, não pode entrar numa empresa e decidir como é que a empresa é gerida. Isso é uma tarefa das empresas. Se querem copiar o exemplo da Autoeuropa, não tem segredo nenhum.

Qual a avaliação que faz da política do Governo? Acha que o Governo tem gerido bem esta crise, com tanta austeridade?
Abstinha-me de comentar a posição do Governo. Diria que é óbvio que o poder político não foi capaz de ler os sinais relativamente ao que se estava a passar em termos de economia mundial. E o que aconteceu foi que Portugal alegremente caminhou para o abismo. Não foi capaz de verificar que estávamos a perder produtividade, competitividade, o custo estava a subir mais do que nos outros países. E obviamente, pelos dois choques de deslocalização que aconteceram nos últimos anos, Portugal acabou por ficar nesta situação em que não produz o suficiente para aquilo que consome. Quer o Governo seja este, ou seja outro, alguma coisa teria que ser obrigatoriamente feita para corrigir a situação. Não há outro caminho Ninguém pode consumir mais do que produz.

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