2012 in review

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O que Passos não tem

Obama
Lembram-se de Obama no discurso que fez por ocasião do recente ataque à escola em Newtown que provocou a morte de 26 pessoas, das quais 20 eram crianças? Não me refiro ao discurso emocionado, ao repetido “you’re not alone”, mas ao abraço que deu a quem se cruzou a caminho do púlpito. Este gesto, num momento triste, como o abraço, mais um, que deu à mulher, registado na fotografia divulgada logo após a vitória nas eleições, num momento de alegria, pretendem mostrar, com êxito, a imagem de um homem sensível, enfim, de uma pessoa como qualquer um de nós.

Pois é disto que Passos Coelho precisa, de um pouco de Obama. Neste Natal, o primeiro-ministro português ensaiou, depois de ano e meio de absoluta austeridade, o seu lado sensível. Primeiro, na mensagem oficial, transmitida na RTP no dia de Natal, falou de optimismo, de não esquecer os mais pobres, de reformados, emigrantes e desempregados. Depois, no dia seguinte, pretendeu mais ainda, ser só o Pedro, o marido de Laura, mostrar compreensão e que pensa todos os dias nos que estão a sofrer.

Mas, mais uma vez, Passos não conseguiu tocar no coração dos portugueses – são cada vez menos os que o querem ver ou ouvir, conforme mostram as audiências. Agora já é tarde, o primeiro-ministro já não conseguirá reaproximar-se do país, dos mesmos que se inspiram com as imagens de Obama. E este pode não parecer, mas é um grande problema para Passos Coelho, para qualquer um que queira ser líder. Os portugueses há muito que deixaram de seguir o primeiro-ministro e, por isso, não há palavras, por mais genuínas, que atenuem, por pouco que seja, a austeridade de Passos e Gaspar.

E o mais grave é que este país distante de Passos também está cada vez mais longe de Cavaco, o Presidente da Diáspora e dos Empreendedores, de Portas e de Seguro. Grave, grave é que, bem vistas as coisas, este país não tem a quem seguir, quem o inspire mais que Obama.

Natal em Amesterdão

Por razões várias, o nosso Natal passou a ser assim, no ano passado em Londres, no próximo logo se vê. Tenho uma certa tendência para insistir no que gosto muito e, por isso, este ano, estive em Londres cinco vezes, mas Amesterdão valeu bem a pena.

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A cidade é bonita e fácil – no final, já não precisávamos de mapa – e gostei do despojamento destes holandeses: o maior shopping da cidade é mais pequeno do que as Amoreiras, as lojas também são bem mais pequenas que as nossas, até o ringue de patinagem numa das principais praças da cidade é mini; e eles andam para todo o lado de bicicleta, de ténis e uggs e sempre com muita pinta.

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Pois foi, Amesterdão ficou-nos no coração, por nós voltaríamos já na próxima semana. Curtimos os passeios a pé e que nos deixavam exaustas ao final do dia, a casa de chá da nossa rua, o Van Gogh, temporariamente transferido para o Hermitage, os churros e panquecas e as sopas de tomate com manjericão; as pausas no Starbucks à procura de chá e de internet, o passeio de barco pelos canais, as idas ao indiano da rua, a loja italiana de roupa que descobrimos, as tardes de patinagem no gelo, as luzes e as pessoas nas ruas, as sessões de mimo e de cumplicidade incrível que já temos as duas, as chuvadas, enfim, curtimos muito tanta coisa que nos trouxe mais este Natal. ❤

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Pronta para 2013, venha ele, amanhã regresso (e sobre o caso de Artur Baptista da Silva, gostaria apenas de dizer que poderia ter acontecido a qualquer um. Viver para aprender. Agora, chega de dramas e de auto-flagelação. Seguir em frente, melhorar, porque, felizmente, o jornalismo, o bom jornalismo, será cada vez mais útil e necessário).

Joe Berardo: “Este Governo está a perseguir as pessoas do dinheiro”

Entrevista - Joe Berardo

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

É dono de uma das maiores fortunas do país. José Manuel Rodrigues Berardo é o sétimo filho de uma família da Madeira, onde começou por trabalhar a regular garrafas e a trabalhar em provas de vinho.
Aos 18 anos parte para a África do Sul onde dá largas ao espírito empreendedor. Aposta no negócio do ouro, e ganha. A partir daí entra em vários sectores: diamantes, petróleo, papel, banca, entre outros.
A notoriedade que alcançou naquele país, deu-lhe um lugar no conselho consultivo do antigo presidente Pieter Botha. Nos anos 80, regressa a Portugal, onde faz vários investimentos. É acionista de referência do BCP e da ZON.
É dono de uma das melhores e maiores coleções de arte moderna da Europa, é aliás um colecionador compulsivo, um hábito que vem desde a infância, quando juntava selos, caixas de fósforos, ou postais de navios que atracavam na Madeira. José Manuel Rodrigues Berardo tem 68 anos, é mais conhecido como Joe.

As notícias sobre a sua situação financeira não param. Há dias foi noticiado que a CGD, o BES e o BCP, exigem que pague uma dívida de mais de 400 milhões de euros, no processo que opõe o BBVA à Metalgest, de que é dono. Como é que vai pagar?
Não tem nada a ver com o como vai pagar, pois isso não é verdade. É falso que tenho esse problema dos bancos estarem a pedir-me o dinheiro. Temos acordos diversos, mas está tudo em dia. Como qualquer outra pessoa, se tem uma dívida tem a segurança e há acordos. Não está em default. Ninguém me está a pedir dinheiro.

Portanto, essa dívida de 400 milhões de euros não existe?
Haver uma dívida é uma coisa. Não vou declarar quanto é, se é isso, ou mais, ou menos. Agora, a informação está errada. O que aconteceu foi que o BBVA dizia que eu tinha uma dívida de parte de três milhões de euros, há cerca de 12 anos, quando houve uma companhia da bolsa que foi vendida ao BBVA. Nessa altura, eles fizeram uma fatura incorreta pelos serviços que nos prestaram para melhorar o balanço deles. Eu não estava a par disso. Uma vez veio uma fatura dessas, alguém me veio perguntar e eu disse que não tínhamos essa dívida e mandámos a fatura para trás há 12 anos. Então a coisa andou até que, recentemente, fomos notificados de que tínhamos uma divida de três milhões, nem fui a tribunal. Eu não percebo bem como é que isto acontece hoje em dia. Penhoraram-me dois quadros e vamos a tribunal e ver o que é que se passa.

Então, as tais notícias que davam conta da penhora de automóveis…
Está resolvido, foi o que eu disse. É uma injustiça. Já tínhamos dado uma garantia e agora temos de ir para tribunal e defendermo-nos. Eu não estou a dever o dinheiro. Quando eu estou a dever dinheiro, eu pago.

Mas notícias referem que está totalmente endividado.
Totalmente endividado?! O que quer dizer isso? Se ler tudo, a revista diz que o tribunal diz que já está resolvido.

Além do BBVA, também outros bancos credores podem avançar para processos de penhora?
Como é que eles podem avançar se está tudo resolvido? Só se não houver cumprimento e até agora..

Mas, segundo o BBVA, citado pelo Correio da Manhã, o senhor está “totalmente endividado, estando o seu património, pelo menos o que até agora se conhece, totalmente onerado”. É verdade?
Eu não vou discutir essas coisas que não são verdade.

Não é verdade que está totalmente endividado?
Temos garantias, como toda a gente. Hoje em dia, no Banco de Portugal, quem tem crédito tem que dar garantias. Quando inicialmente fizemos alguns dos empréstimos, só tínhamos as ações como garantia, foi o que foi acordado. Mas como eu já fui administrador de um banco, sei que as coisas mudam e então eles disseram para arranjar mais garantias, embora não isso estivesse no acordo inicial. Como sei que tenho de respeitar as coisas e não fugir dos problemas – podia dizer que não dava mais garantias e pronto, eles não podiam fazer nada – dei mais garantias. E estou contente por isso.

Então a sua relação com os bancos está normalizada desde que reforçou as garantias tal e qual os bancos pediram?
Sempre estiveram normalizadas. Estivemos foi em negociações.

E já terminaram essas negociações?
Por enquanto, sim.

Quando?
Já foi há tanto tempo.

E recentemente não houve qualquer pedido de reforço?
A única coisa que houve foi o BBVA.

Então as noticias sobre a sua falência são manifestamente exageradas?
Não vou estar a discutir coisas que não existem. Já ando nisto há tantos anos. Ainda há pouco tempo disse que o emigrante que venha para Portugal fazer coisas tem de trazer duas fortunas: uma para ficar e outra para especular. E essa da especulação foi complicada e temos muito que aprender.

Mas a verdade é que com a crise o seu património desvalorizou bastante. A participação que tem no BCP já não vale hoje o mesmo, o seu património imobiliário também não.
Sem dúvida. Mas tenho outros que estão bem valorizados.

Qual é a sua verdadeira situação financeira?
Muito boa.

Continua um homem rico?
Não digo um homem rico, mas um rico homem. Não sei qual é a diferença, mas pronto. [risos]

Não foi forçado a vender ativos para pagar as suas dívidas?
Por enquanto, não.

Nem teme que isso possa vir a acontecer?
Não vou discutir um problema que não existe agora, quando chegar a altura dessa situação, vamos ver.

Mas prevê que essa altura possa, de facto, chegar?
Não sei. É como Portugal com as dividas que tem, o que é que vai acontecer se não puder pagar? Vamos negociar nessa altura. Quando chegar a altura de pagamentos, se você não pagar, vai negociar.

Está a aproximar-se o momento-chave para essas negociações?
Não.

Neste verão acompanhou o aumento de capital do BCP e reforçou a sua participação. Para quanto?
Não tenho aqui comigo. Não vou especular.

Mas é uma participação qualificada inferior a 5%?
É uma participação qualificada.

Esse investimento é para manter?
De momento, o que é que eu posso fazer? Vou tentar manter.

Para não perder dinheiro, é isso?
Não, a pessoa só perde quando vende. Há poucos meses foi o aumento de capital. Eu não pedi dinheiro a ninguém para ir ao aumento de capital.

Como é que fez face a este investimento no BCP?
Comprando.

Mas com que dinheiro?
Com o meu.

Não foi dinheiro que resultou da venda de 32% da Sogrape?
É o meu dinheiro. Mesmo que não tivesse vendido a minha posição na Sogrape.

Não teve que se endividar?
Não.

E qual é a sua opinião sobre a atual gestão do BCP, liderada por Nuno Amado?
Infelizmente, seja qual for o presidente do conselho de administração, o sector financeiro está em dificuldades.

Confia na gestão de Nuno Amado?
As coisas estão tão difíceis. Ele já dirigiu um banco e teve fantásticos resultados. Não há razão para ele não continuar até que a situação financeira internacional melhore.

Arrepende-se do seu envolvimento na guerra do BCP?
Não vale a pena pensar em “se”. Arrependimento não tenho. Quando começou a guerra do BCP, um dos grandes desgostos que tive na minha vida – tinha uma grande amizade e consideração pelo Jardim Gonçalves, que também é da Madeira -, fiquei muito triste. É uma pena que os juízes não tenham as leis suficientes para andarem mais rápido. Quando houve esse princípio, eu podia ter saído. Na guerra que começámos na assembleia geral, fizeram-me uma oferta através da qual faria muito dinheiro se tivesse saído. E tive uma reunião com o conselho de administração, o meu filho e um advogado, e o meu filho disse assim: “Não há ninguém que compre a nossa dignidade. Nós sabemos que vamos para uma batalha dura, mas isto tem que ser esclarecido”.

Gastou muito dinheiro à conta dessa batalha dura.
É verdade, mas também o dinheiro para que é que serve? Se não se vai à procura também de justiça… Tenho estado envolvido na briga pró-minoritários há muitos anos. E continuo a brigar porque acho que em Portugal, os minoritário não têm voz ativa. Os acionistas têm de ser tratados devidamente.

Falou dessa amizade com Jardim Gonçalves. O fundador do BCP moveu-lhe um processo por difamação.
E ganhei.

Acabou por ser absolvido.
Eu ganhei! Ele estava errado. Eu não estou arrependido. Eu tentei fazer a coisa certas mas as pessoas não entenderam. Um ladrão é um ladrão.

Acusou Jardim Gonçalves de várias coisas, entre elas de fazer aldrabice.
E é verdade.

É recorrente o cenário de fusões e aquisições na banca portuguesa. Nesta altura, dadas as circunstâncias atuais, quando há bancos, como o BCP de que é acionista, que tiveram de pedir dinheiro ao Estado para atingir os requisitos de capital exigidos pela autoridade bancária europeia, este é um cenário a ser considerado?
A ajuda que está a ser dada a todas as instituições financeiras é uma nacionalização indireta. Só não foi feita uma nacionalização porque se o Governo fizesse agora uma nacionalização seria mau para a contas públicas. Esta ajuda que está ser dada é uma nacionalização.

Mas uma fusão entre o BCP e o BPI é possível?
Com as condições da troika e do Banco de Portugal eles estão com a mãos amarradas. Só com o seu consentimento. Nem o conselho de administração, nem os acionistas têm o poder para isso.

A atividade de especulação da bolsa é aquela que reserva exclusivamente para si e para o seu filho. No meio desta crise, continua a ter a mesma sorte e a encontrar boas oportunidades para especular?
Não tantas. Primeiro, o que é a especulação? Não é comprar uma ação e pôr lá o dinheiro e depois vender com ganho ou prejuízo. Uma especulação é comprar ou vender coisas que não existem, como “futures”. Há pouco tempo, Hugo Chávez disse que tinha 900 toneladas de ouro. O que ele tinha comprado eram 900 toneladas de “futures”. Isso é que é especulação. Nas moedas, no trigo, no milho, que é tudo controlado pela Goldman Sachs. Não há maneira deste mundo melhorar até que esse problema seja resolvido.

Qual problema?
A especulação através de “futures”, das matérias primas. Há poucas pessoas que conhecem esse problema mas é o problema mais grave da humanidade. Considero que é o maior roubo da humanidade. A especulação em futuros são triliões de dólares “that they trade every day”.

Tem apostado em quê na bolsa?
Não vou discutir os meus negócios. Tenho feito, não tanto como antigamente, mas há sempre opção. Agora, eu nunca quis vender o que eu não tinha, acho que isso devia ser expressamente proibido, tanto na subida como na descida, temos de ir para os valores antigos, comprar e vender.

Falou da importância dos acionistas minoritários. A CMVM, o regulador do mercado de capitais, não tem feito o suficiente na defesa dos interesses dos pequenos acionistas?
A CMVM e o Banco de Portugal só podem actuar pelas leis que têm. O juiz só pode ir de acordo com as leis que tem.

É o quadro legal que está incompleto.
Exatamente e ninguém vê isso. Tenho soluções para meter Portugal entre os melhores da Europa e este é o momento ideal, mas não há coragem.

Mas que soluções são essas?
Temos é de fazer leis como Londres, para trazer as pessoas com dinheiro para Portugal, Mas para isso temos de arranjar melhor cultura, temos de arranjar hotéis melhores.

Mas a mais valia de Londres é que é uma praça financeira muito forte.
Porque as pessoas têm o direito de viver lá por seis meses e todo o dinheiro que seja feito fora de Inglaterra chega lá e não paga impostos. Temos de aprender com quem sabe. Por exemplo, a zona franca da Madeira acabou. Mas acha que as pessoas dos off shores acabaram? Não! Acho que a CGD foi para as Bahamas, os outros bancos para aqui e para acolá. Portanto, matámos a possibilidade de ter a galinha dos ovos de ouro.

Falou com governos anteriores das suas propostas. E com este governo já tentou?
Não consigo. Não consigo obter resposta. Tenho a fábrica do tabaco e com as alterações à fiscalidade do tabaco de enrolar, só na Madeira, perdemos com isso 35%. Isso significa fiscalmente uma perda, só para a zona da Madeira, de cinco milhões de euros. Escrevi ao ministro das Finanças e não tive resposta. E a zona da Madeira vai perder as vantagens que tinha com o preço do tabaco.

Não teve qualquer contacto com este Governo, apesar das tentativas que fez?
Escrevi ao primeiro-ministro umas oitos cartas e ele nunca respondeu.
Numa altura, escrevi ao presidente da América e ele deu-me resposta. No tempo do Nixon, ainda eu estava na África do Sul.

Porque é que acha que Passos Coelho não lhe respondeu?
Anda muto ocupado. Tem a mão cheia de trabalho. Na África do Sul, um pais muito maior, fui um dos 21 apontados como advisor. Mas este Governo talvez não precise, para quê tantas pessoas a dar opiniões? Eles têm tido conferências e têm-me convidado para ir a conferências, mas para ir ouvir a conferência, o que já está feito, o que eles querem dizer, não vale a pena perder tempo, nem vou. Agora, se eles quiserem que dê a minha opinião, como acho que se devia atingir um objetivo relativamente fácil, para melhorar a vida dos portugueses, comose diz em inglês, you take the bull by the hornes. Não é só reduzir e reduzir. O que é que se vai fazer no futuro aqui em Portugal? O que será o futuro dos seus filhos, dos meus netos? Eu não posso continuar aqui nesta situação. Eu vim para aqui com o sonho do mercado comum, e realmente foi verdade, agora estragámos a nossa produtividade.

Mas pondera a possibilidade de abandonar o país, de deslocalizar alguns investimentos?
Isso não há duvida. Então o que é que se pode fazer? Vou esperar até ao próximo ano para ver este novo orçamento, mas vou ter de decidir. O conselho que o Governo dá é para emigrarmos. Tive na Fundação mais de 20 mil bolsas de estudo e mais de 52% dos bolseiros já não estão em Portugal. Então para que é que gastei dinheiro a apoiar as pessoas para melhorar a situação de Portugal. Tive a gastar o meu dinheirinho e agora vai para países com melhor rentabilidade que os nosso. Acho que isso uma pena.

É capaz de seguir o caminho dessas pessoas?
Eu acho que sim. Eu tenho que ver o futuro dos meus netos. Este Governo está a perseguir as pessoas do dinheiro. É um pecado mortal a pessoa ser rica. Não é ajudar os pobres a serem ricos, aqui é os ricos que devem ficar pobres.

Mas pelo mundo fora têm sido várias as vozes a defender o aumento de impostos para os mais ricos. Está disponível para pagar mais impostos em Portugal?
Eu estou a pagar e se estou aqui tenho que ajudar. Mas não concordo com a maneira com eles fazem. Isto nem 8 nem 80.

Mas estaria disponível para pagar mais impostos?
Por mim não é importante mais um pouco, menos um pouco. Eu não sou “the average”. Estou preocupado é com o futuro dos homens de negócios deste país, que vão levar os negócios para outro lugar.

É conhecida a sua paixão pelo Benfica. Em 2007, chegou até a lançar uma OPA para controlar a SAD do clube.
Não. Foi para uma percentagem de 30%. Nunca quis controlar o Benfica. Não tenho adaptação para ser presidente de um clube. Aquilo é uma escravatura.

Não sonha vir a ser presidente do Benfica um dia?
Nunca.

Está satisfeito com o que viu esta época no seu clube?
Felizmente, estamos chegando a um objetivo de futebol muito bom e muito bonito.

Jorge Jesus deve continuar?
Ainda há poucos dias disse que o bom treinador é aquele que ganha. E ele tem ganho.

Vamos falar da sua coleção de arte moderna, que está avaliada, pelos últimos números da Christie’s, em mais de 300 milhões de euros e é elogiada por críticos de todo o mundo. Há poucas semanas, soube-se do interesse de um empresário nova-iorquino com ligações à Rússia que terá contactado o Governo português para comprar todo o acervo. Na altura disse que desconhecia o valor da proposta. Já o conhece?
Não. Já pedi ao Governo para me dar uma cópia dessa carta que mandaram para os bancos e não mandaram para mim.

Mandaram aos bancos que têm a coleção como garantia?
Não é bem assim. Eles mandaram para os bancos também a informar que estava a fazer uma exposição em Miami, a dar a entender que eu estava a fugir com a coleção. O que acontece é muito simples: o Governo tem uma opção de comprar a coleção Berardo por 300 milhões de euros por um período de 10 anos. Tenho tido visitas que avaliam a coleção por mil milhões de euros. E alguém pensou: “vamos fazer a oferta ao Governo”, o Governo exerce a opção e leva-se a coleção por esse valor.

O Governo tem a opção mas a coleção é sua?
Sim, mas eles podem exercer a opção a qualquer momento. Mas eu ando nisto há muito tempo e a opção só é válida para a coleção ficar toda em Portugal. Sem a minha autorização eles não podem vender se não for para a coleção ficar em Portugal.

Esse acordo tem um prazo de validade que acaba em 2016. Mesmo depois do final do acordo mantém-se a obrigatoriedade da coleção ficar em Portugal?
Claro. Só com a minha autorização ou da minha descendência, se me acontecer alguma coisa, é que os estatutos podem ser mudados.

E estaria disponível para alterar os estatutos?
Não vou falar de uma coisa que de momento é válida até 2016. Tanta gente que me tem vindo falar, mas até 2016 tenho que cumprir a minha palavra.
Se o Governo quiser exercer a opção, que não tem dinheiro para isso, vai ter que deixar também a coleção em Portugal.

E tem vontade para renovar esse acordo ou estender o prazo?
Está no acordo que tempos antes do acordo acabar vamos ter que ver qual é o futuro da coleção. Imagine que me dizem: “Queremos ficar mas não temos dinheiro para comprar”. Ok, quantos anos querem mais? É negociável.
Para mim até 2016 está fechado, estamos em 2012. O Governo pode mudar até lá. Não vou perder tempo na minha cabeça.

A sua coleção está à venda ou não?
Não. Não pode. Tenho tido pessoas que vieram de Israel, de Inglaterra, de Nova Iorque, da Rússia, mas a minha coleção não está à venda. Porque eu não quero também. Isto é parte da minha vida! Eu estou a colecionar desde os 10 anos, nunca vendi uma caixa de fósforos ou um postal. Tenho tudo ainda comigo, tenho mais de 40 mil peças, tenho quatro museus abertos ao público por minha conta.

Em relação a este episódio da carta que foi dirigida ao Governo e não a si. Disse na altura publicamente que tinha ficado incomodado. O Governo já falou consigo?
Eu fiquei admirado que alguém receba essas propostas e o Governo nunca tenha falado comigo. Entretanto, já falei com o secretário de Estado da Cultura que me disseram que me iam dar uma cópia dessa carta. Mas ainda não deram. Não interessa, já sei a carta de cor.

E com o empresário que fez a proposta, já falou?
Não falei nem vou falar. Não estou interessado.

Olhando para a sua terra, para a Madeira. Como vê a liderança de Alberto João Jardim. Ele deve continuar?
O Alberto João Jardim ainda é um ano mais velho do que eu. Ele teve um papel muito importante no meu regresso a Portugal, mas eu acho que não pode continuar, tem que haver sangue novo. O tempo de dirigir a Madeira como no passado, com bocas, isso já passou. Acho que ele devia sair pela porta da frente e os madeirenses agradecerem pelo trabalho que ele tem feito.

A maravilhosa técnica do auto-retrato

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Hoje foi dia de entrevista e tenho um palpite que, também neste assunto, aquela velha máxima do não deves voltar aos sítios onde já foste feliz se aplica mesmo bem. Até o telemóvel do entrevistado tocou a meio – Nothing compares to you; Sinead O’Connor. A sério! Enfim, agora é editar e sábado sai. Não estarei por cá. Se até lá dominar a técnica do auto-retrato, poderia partilhar parte do que será a nossa Amesterdão até ao Natal. Sim, porque, por vezes, também faço parte dos que gostam de mostrar por onde andam e o que fazem. Foi isso que uma agência de publicidade apanhou e quis mostrar numa campanha onde manipulou no Photoshop ícones da fotografia para conseguir este efeito auto-retrato. E lá está o sempre bem posicionado bracinho. Encontrado aqui

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Mário de Assis Ferreira: “Casinos terão que ir para a via judicial” contra o governo

Entrevista - Mário Assis Ferreira

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel/TSF
Fotografia de Diana Quintela

É presidente da Estoril Sol, a dona do Casino Estoril (o maior da Europa), do Casino Lisboa e do Casino da Póvoa, e diz que nunca joga.
Além de estar impedido por lei, teve de estudar as probabilidades estatísticas e por isso percebeu que a sorte não existe, existe sim a ausência de azar.
Natural de Sarzedo, Arganil, tem 68 anos, é licenciado em Direito pela Universidade Clássica e tem um diploma em Gestão de Empresas pela Fundação Júlio Vargas, Rio de Janeiro.
Sobre vícios diz que, desde que não sejam excessivos, fazem parte do ser humano e o seu é público, o do cachimbo.

Veja aqui o vídeo da entrevista

2013 será marcado por uma enorme redução do poder de compra da população. Será um ano negro para os casinos, o pior da história da Estoril Sol?

É difícil relativizar porque quando foram renegociadas as concessões de todos os casinos, em 2001, vínhamos de um período de 17 anos com um crescimento médio de 15 % ao ano. Era difícil perspetivar nesse momento o que ia acontecer no decénio seguinte. A partir de 2002, tudo se transformou numa tragédia. A queda de receitas tem-se verificado sucessivamente e a partir de 2008 ocorre uma redução significativa do poder de compra. O português tem o seu orçamento dividido em três partes: os compromissos com a casa; os de educação, vestuário e filhos; e o lazer. Esse terceiro segmento é aquele que é amputado em primeiro lugar. Consequentemente, os casinos têm sofrido quebras de receitas dramáticas. Teríamos de retroceder a 1996 para encontrar um valor de receitas correspondente. Face a uma tributação que é das mais pesadas, se não a mais pesada do mundo, os casinos, que tinham uma receita de 370 milhões de euros, perderam neste período 134 milhões de euros. E desde a renegociação de 2001 surgiram mais três: o Casino Lisboa, o Casino de Chaves e o Casino de Troia.

Os lucros até setembro tinham caído 93% face ao período homólogo, para 130 mil euros. 2012 irá fechar com prejuízos?

Muito provavelmente sim.

Desde quando isso não acontecia?

Tem acontecido várias vezes, infelizmente, em termos consolidados e com várias concessões, e a situação tende a agravar-se. 2013 vai ser pior do que 2012. Não apenas por causa da queda no consumo, mas também por outro fator fundamental: quando as concessões foram negociadas, em 2001, o governo anexou ao decreto-lei uma tabela de contrapartidas mínimas. Essa tabela já existia desde 1984, quando através de concursos públicos a Estoril Sol ganhou a sua concessão. O governo fixa contrapartidas mínimas independentemente das receitas dos casinos. Ninguém se preocupou com isso porque vivíamos com crescimentos de 15% e o que constava na tabela assentava num crescimento sucessivo e sustentado de apenas 2% ao ano. Dos sete casinos continentais, cujas concessões foram prorrogadas em 2001, cinco estão a pagar, neste momento, além da tributação contratual e legalmente fixada, as contrapartidas mínimas. O que significa, por exemplo, que o Casino do Algarve, que tem como tributação 35% sobre as receitas brutas, vai pagar este ano 45% e no próximo talvez 50%. O Casino da Póvoa de Varzim, que pertence ao grupo Estoril Sol, já vai ter de pagar este ano uma contrapartida mínima. Isso significa que a sua tributação, além dos 50% sobre a receita bruta mais os 12 % que correspondem à amortização ao longo do prazo da concessão, vai ter de pagar mais cerca de 8%. Isto é, vai ter de pagar cerce de 70% sobre a receita bruta, ficando com 30%. Assim, daqui a dois, três, quatro anos, os casinos não conseguem gerar receita suficiente para pagar os impostos ao Estado.

A Estoril Sol já apresentou o problema ao governo e pediu, por exemplo, a revisão das condições no contrato de concessão?

A Associação Portuguesa de Casinos (APC), na qual a Estoril Sol está representada – sou presidente da mesa da assembleia geral -, teve reuniões com o governo. Primeiro com a Secretaria de Estado do Turismo, que decidiu que iria começar por uma avaliação e criação de uma comissão para estudar o jogo online, que é um dos fatores de violação contratual que tem representado uma profunda canibalização das nossas receitas. Essa comissão interministerial, liderada pelo ministro adjunto do primeiro-ministro, foi criada em fevereiro, com caráter de urgência, e publicou o seu trabalho. Nesse relatório da comissão interministerial estão definidos três pilares essenciais. Primeiro, os casinos sofreram profundas canibalizações das suas receitas, através de atos ilícitos de jogo clandestino, e o jogo online é a forma mais gravosa, pelo que haveria que pôr termo a essa situação. Segundo, verificando-se um desequilíbrio económico dos contratos de concessão, era urgente criar uma comissão arbitral que avaliasse com objetividade se se justificaria um reequilíbrio económico-financeiro dos contratos de concessão. Terceiro, a resposta teria de ser necessariamente sim.

Mas a Estoril Sol não podia aplicar aqui a velha máxima: se não pode vencê-los, junte-se a eles? O jogo online está completamente fora do seu horizonte?

Nesse estudo da comissão interministerial atribui-se em exclusivo aos casinos físicos a exploração do jogo online. E assim dá-se-lhes a faculdade de fazer uma parceria. Portanto, está nos horizontes, não apenas da Estoril Sol mas de todas as concessionárias, mais do que a possibilidade, a claríssima determinação de explorar o jogo online. Pelos seus próprio meios ou em parceria com uma operadora internacional, devidamente credenciada e que obedeça a regras de jogo responsável. Existe na internet um Casino Estoril e um Casino Lisboa, cujas designações nos foram ilegalmente usurpadas, e por mais ações que metamos, não conseguimos resposta.

Se não forem renegociadas as condições dos contratos de concessão dos casinos, como disse, dentro de três a quatro anos os casinos deixam de ter capacidade de pagar ao Estado, é isso?

É isso.

Se não houver renegociação, os casinos estão condenados?

Os casinos representam cerca de 70% de financiamento de todo o turismo português. E o turismo português representa 10% do PIB, 11% da mão de obra empregada em Portugal e o sector cuja geração de divisas é mais importante.

O governo vai ter de ceder às exigências dos casinos para não pôr em causa o sector do turismo?

O governo não terá de ceder, deveria negociar, através de uma comissão arbitral. Infelizmente, este governo, que tem manifestado uma determinação e coragem que tenho que louvar, embora nem sempre a metodologia seja aquela que mais desejaria, tem prioridades e tem um soberania limitada pela troika. A perceção que tenho é que o governo, assoberbado pelas inúmeras tarefas e com um calendário extremamente pesado, não dedicou ou não teve tempo para dedicar a esta matéria a atenção que se justificava, pelo que significam os casinos em si próprios e sobretudo pelo que eles significam como fator de financiamento para o turismo, sector estratégico…

O que é que os casinos querem? O alargamento do prazo de concessão, a redução da carga fiscal?

Não interessa alargar o prazo se a equação económica dos contratos de concessão não for válida, interessa sim a revisão da equação económica e dos pressupostos. As contrapartidas mínimas não têm qualquer razão de existir, porque criam esta situação insólita. Quanto mais um casino perde em receitas e quanto maior for o prejuízo mais paga de imposto. Isto é completamente insólito.

O que é que o governo disse?

O governo tem entendido a posição, considera-a justa, que terá de haver um tempo para a negociação, mas esse tempo está a esgotar-se. Face a uma reunião que a APC teve com o ministro da Economia, a 6 de novembro, ficou de ser constituída uma comissão negocial que deveria chegar a uma conclusão até ao final de novembro. A APC, de imediato, entregou ao ministro, no dia 8, o elenco de matérias a discutir e a relação dos seus representantes. Até à data, e passado o fim de novembro, ainda não recebemos qualquer comunicação formal sobre a constituição dessa comissão. Mantemos, todavia, que ainda em tempo hábil haja alguma esperança, embora ténue, de se poder chegar a uma solução negocial. Caso tal não ocorra, não haverá outra possibilidade senão a via judicial. A APC está, neste momento, a ser notificada para pagar as contrapartidas iniciais que são sobrantes do imposto especial de jogo do ano de 2012 e a ter de fazer garantias bancárias para assegurar o pagamento das contrapartidas do próximo ano. Infelizmente, esgotou-se o prazo para as negociações com o governo e teremos de ir para a via judicial – o que tenho de lamentar, pois não é essa a forma que considero adequada para uma justa equivalência na defesa do interesse público e privado.

Os casinos vão interpor uma ação contra o Estado. E qual é a razão?

A necessidade de repor o equilíbrio económico da concessão.

E quando é que avança para esse processo?

Muito brevemente.

E o que pedem?

O processo está respaldado pelo parecer dos mais ilustres administrativistas.

Quais?

O professor Sérvulo Correia, o doutor Mário Esteves de Oliveira, também há um parecer prévio do professor Marcelo Rebelo de Sousa e um estudo económico profundíssimo feito pela SaeR. É com mágoa que o afirmo, mas esgotados que estão os prazos, e estando neste momento a dias ou a semanas de ter de pagar, as concessionárias que estão completamente descapitalizadas não vão ter outro remédio senão a via judicial.

Essa ação será interposta de imediato, por forma a evitar o pagamento das contrapartidas para que estão a ser notificados?

É essa a minha convicção.

Será uma providência cautelar?

É bem mais do que isso. Mas não devo pronunciar-me.

Qual o montante em causa?

Posso quantificar o que o estudo da SaeR definiu como desequilíbrio económico-financeiro das concessões entre 2001 e 2011: 319 milhões de euros.

O acionista da Estoril Sol é Stanley Ho, o dono do jogo em Macau, um mercado que continua a bater recordes de negócio. O que diz desta situação do investimento da Estoril Sol e do mercado português?

Infelizmente, Stanley Ho está doente, teve uma situação complexa há cerca de dois anos e meio que o retirou da presidência das suas companhias. Quem o representa na Estoril Sol, como acionista maioritário, é a sua filha mais velha, Pansy Ho. É uma pessoa com quem tenho excelentes relações, que tem uma visão que não é exatamente coincidente com a do pai em relação a um conjunto de matérias, mas que tem dado todo o apoio possível e que compreende perfeitamente a situação atípica que Portugal vive. Também é atípica a situação dos casinos em Macau, um epifenómeno que se desvia de toda a tendência mundial em relação à queda da receita dos casinos físicos.

Mas o que é que o acionista lhe diz do investimento em Portugal?

O acionista diz e pede que se renegoceie com o governo com a maior urgência possível para que se retome o equilíbrio económico-financeiro das concessões. Caso isso seja impossível em tempo útil, diz que temos de recorrer à via judicial.

Em julho, a Estoril Sol avançou com o despedimento coletivo de quase 40 pessoas; já em 2010 tinha despedido mais de 100. Face às dificuldades do próximo ano, prevê que a empresa seja obrigada a recorrer novamente a essa solução?

Penso que no próximo ano não haverá despedimentos porque estão a ser feitas rescisões voluntárias com cerca 20 colaboradores e quadros superiores. Estamos de tal modo racionalizados, em termos de pessoal, que não vejo possibilidade de mais cortes. Aliás, porventura os que já foram feitos até serão excessivos em relação à qualidade da imagem e do serviço que sempre foi um paradigma da Estoril Sol. Vamos tentar, obviamente, assegurar essa mesma qualidade, mas terá de ser feito um esforço elaborado por aqueles que pertencem à empresa.
Não será, portanto, pela sua mão, enquanto gestor da empresa, que isso acontecerá?
Tenho convicções, sempre fui coerente na minha vida e sempre soube extrair as consequências de cada situação. Há momentos em que, de facto, a queda de receitas obriga a profundos sacrifícios. Agora, existem soluções diferentes para essa contenção. Não me revejo integralmente em todas as soluções adotadas, embora as compreenda, e seja qual for a minha função na Estoril Sol, apoiá-las-ei e procurarei com a minha experiência e know-how ajudar a superar as dificuldades.
O seu mandato termina em 2013. Vem aí a indesejada reforma?
Não sei bem o que é a reforma porque nasci para trabalhar. Ou melhor, nasci para me dedicar ao trabalho com um sentido de missão e devo dizer que nem sempre fiz aquilo que gostava, mas sempre gostei daquilo que faço. E apaixono-me de tal maneira por aquilo que faço que o faço com um sentido de missão, tal como fiz ao longo destes últimos 28 anos na Estoril Sol. Sou um workaholic e consequentemente a palavra reforma para mim tem um significado estranho porque teoricamente significa alguém sair da vida ativa.

Vai, então, continuar por mais um mandato na Estoril Sol?

Isso não depende de mim, mas dos acionistas. Foi-me manifestada essa intenção, com um caráter informal. Mas há uma coisa que sei: com novo mandato ou sem novo mandato, vou continuar a trabalhar, a fazer coisas, a aceitar desafios, a lutar por ideais e a preencher a minha vida com fatores de realização profissional que seguramente me estimularão. Sinto–me em plenitude de forma, como se tivesse 40 anos. O meu entusiasmo, o meu ânimo e a minha capacidade de entrega mantêm-se intactos. Só preciso de ter à minha frente um desafio aliciante e coerente com as minha convicções.

A Estoril Sol continua a ser um desafio aliciante e coerente com as suas convicções?

Tem sido.

E continua a ser?

Não sei, só o futuro se encarregará de o demonstrar. Enquanto for…

Trabalhou sempre num modelo de casino que é muito mais do que jogo, é um centro de cultura e entretenimento. Prevê que esse modelo, face às dificuldades que se adivinham, possa estar em causa? E se for assim, gostaria de continuar a geri-los?

Aquilo que, com muito orgulho, fiz, apoiado por uma equipa, foi criar um centro multidisciplinar em que arte, cultura, espetáculos, animação e gastronomia coexistem com o jogo. E não é por acaso que temos três casinos no universo de 11 e representamos 65% da quota de mercado. E não é por acaso que nos nossos casinos dois terços da área aberta ao público são destinados a essa atividade de natureza lúdica e apenas um terço a áreas de jogo. Esse é o conceito em que acredito. Essa tem sido a política da Estoril Sol.

Se lhe pedirem para amputar parte dessa atividade, está disponível?

Permita-me que não responda, disse–lhe que sou um homem coerente e que acredita em ideias que sempre defendeu, que provaram ser certas e que, porventura, perante uma fase de contenção de custos poderão ser dispensáveis. Sinto orgulho em dizer que, entre quatrocentos e muitos casinos que existem espalhados por toda a Europa, os da Estoril Sol são considerados um case study. As pessoas que entram nos nossos casinos vão para fazer uma série de coisas, a maior parte das vezes nem jogam. O futuro faz parte de qualquer coisa que é uma incógnita. A única coisa que eu sei é que serei coerente comigo próprio.

A Estoril Sol edita a Egoísta, uma das revistas mais premiadas. A publicação tem o futuro assegurado?

Acho que em Portugal, hoje em dia, ninguém sabe o que é que vai acontecer no próximo mês, quanto mais o que vai acontecer daqui a uns anos.

Mas a revista está em risco?

Não sei se está em risco ou não. Uma coisa é estar em risco absoluto, que significaria desaparecer, outra coisa é reduzir a sua periodicidade, e outra coisa é eventualmente deixar de ser em papel e passar a ser online.

São hipóteses em cima da mesa?

Estou apenas a especular. Na minha opinião, a Egoísta é uma revista de culto. É a revista mais premiada no estrangeiro que até hoje existiu em Portugal. É uma revista que só se compreende e só se assimila em plenitude com aquele papel reciclável grosso, espesso, rugoso. Com aquele grafismo, que é de uma máquina Olivetti dos anos 50. Com aqueles cortes que, através de uma página, chamam a atenção para um aspeto fulcral da página seguinte. Com aquele cheiro a tinta que se sente quando se abre a revista e nos faz recordar a memória de coisas que fazem parte de determinadas gerações. É essa a visão que tenho da Egoísta. Não quer dizer que esteja certo, não quer dizer que seja dono da verdade, mas faz-me muita confusão imaginar outras fórmulas para a Egoísta. Estive na origem dela. Diria mesmo que ela é uma espécie de psicanálise. Quando escrevo um editorial na Egoísta, não sou o empresário, sou apenas o homem. Sou a pessoa que naquele momento consegue abstrair-se da dureza do quotidiano para pensar, refletir sobre a vida, a humanidade, o mundo, sobre um conjunto de ideias em que acredito.

Concebe a ideia de escrever o editorial na última Egoísta?

Quando fiz o primeiro número da Egoísta escrevi dois editoriais: o primeiro sobre a própria edição da Egoísta e o último sobre a morte. Porque acho que a vida é um prémio, a morte é o seu preço, e sendo o seu preço é melhor pagá-lo a pronto do que pagá-lo a prestações.

Revistas

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Como diz Pinto Balsemão, na vida é preciso ter preferências.

Os meus fins de semana são cada vez mais das revistas (não me quero justificar, mas talvez porque passe os dias agarrada ao breaking news), das páginas cheias de histórias bem contadas, das entrevistas, das boas fotografias, do design gráfico. E gosto de muitas. E irrita-me muito quando se insiste pela 68ª vez nas capas das dietas e das vitaminas e dos turismos rurais e da indústria do sexo e tudo e tudo. Já tenho lá em casa o último número da Egoísta, acabadinho de sair – nem sei se já está nas bancas – e estou desejosa de lhe pôr os olhos em cima. Sábado é dia de comprar Financial Times (a revista traz uma entrevista exclusiva com a Merkel) e domingo, o El País. Pronto, são assim os meus ricos fins-de-semana 🙂

Férias I

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Foto de WOOHAE CHO/Reuters

Passou-se hoje na Coreia do Sul – apoiantes de um dos candidatos às eleições presidenciais -, mas visto assim podia ser por cá. Gosto muito quando tomo decisões certas, como a de não ter deixado a minha filha ir ao acampamento. Ninguém merece e riscos é que nem pensar! Frio, chuva e quem sabe neve, fica tudo para Amesterdão. Entrevista feita, quase quase de férias (a interromper apenas na terça para mais uma entrevista, yeahh!) ❤

Próxima entrevista

Egoísta1

O próximo entrevistado chegou de Bentley (também tem um Porsche Turbo S, que vai dos 0 aos 100 km em menos e 4 segundos) e terminou com esta frase: «Porque acho que a vida é um prémio e a morte o seu preço e sendo esse o seu preço é melhor pagá-lo a pronto do que em prestações.»

Foi uma boa entrevista, estará cá em casa, no Dinheiro Vivo e na TSF no próximo sábado.