O Banif é um novo BPN?

Jorge Humberto Correia Tomé, presidente executivo do Banif SGPS,SA

Texto escrito com Tiago Figueiredo Silva
Texto publicado no Dinheiro Vivo.
Foto de Hélder Santos/Global Imagens

Se não nos estiverem a mentir e se o Banco de Portugal fizer o seu trabalho, é isto:

Passas, champanhe e a notícia de que o Governo recapitalizou o Banif em 1,1 mil milhões de euros. A poucas horas da passagem do ano, são publicadas mais de 150 páginas de densa informação, que se fosse possível resumir numa única frase, seria assim: “o governo vai injetar 1,1 mil milhões de euros para evitar a falência do Banif”.

A operação surpreendeu pelo montante em causa, muito acima do antecipado por alguns analistas – o BPI previa metade -, mas também pelo envolvimento zero dos acionistas privados, pelo menos numa primeira fase, o que fará com que o Estado se torne accionista com quase 99,2% da instituição. O Governo vai injectar 1,1 mil milhões de euros, 700 milhões através da subscrição de ações e 400 em instrumentos de capital contingente (os CoCos) e só mais tarde – até junho -, os acionistas serão chamados para um aumento de capital de mais 450 milhões de euros (150 serão usados para reembolsar os CoCos). Por isso, até lá, o Estado ficará com 99,2% do capital do Banif e mesmo depois, isto se os acionistas acorrerem ao aumento de capital, só reduz para 60,57%, mantendo ainda 49,4% dos direitos de voto.

Estes factos suscitaram dúvidas sobre se o Banif não seria um novo caso BPN, cujo buraco poderá já chegar aos sete mil milhões de euros. No final desta semana, a oposição veio confirmar o receio de esse risco existir e acusou o Governo de opacidade na operação. Mas afinal essas suspeitas fazem sentido? O Dinheiro Vivo ouviu banqueiros e analistas da banca e todos, sem exceção, recusaram essa comparação.

“O BPN era um centro de atividade criminosa, o que, tanto quanto se sabe, não existe no Banif, que tem, isso sim, um problema de falta de dinheiro, de inexistência de acionistas com capacidade para capitalizar a instituição”, adiantou um administrador de um banco. Na sua opinião, situações como a inexistência de garantias, operações duvidosas de concessão de crédito e operações fraudulentas com offshores, como as que aconteceram no BPN com Oliveira e Costa, são hoje praticamente impossíveis de acontecer: “O Banco de Portugal está dentro dos bancos, controla tudo. Por outro lado, de acordo com as novas regras comunitárias, o Banif passará a ser diretamente supervisionado pelo Banco Central Europeu (BCE)”, justificou o banqueiro.

Esta opinião é partilhada por Steven Santos, account manager da XTB. Segundo defende, “o processo de recapitalização do Banif insere-se num contexto de reforço dos rácios de capital exigidos pela nova regulamentação bancária na Europa. Ao abrigo da linha de recapitalização disponibilizada pela troika, o Banif segue os passos do BCP, do BPI e da CGD, não sendo salvo por gestão danosa”.

Um facto que distingue o caso do Banif do dos restantes bancos intervencionados é a entrada direta do Estado no seu capital. “Ao contrário do BPI e até do BCP, o Banif não tem um núcleo duro de acionistas com capacidade de investir”, explicou outro banqueiro. As herdeiras de Horácio Roque, o fundador do banco – duas filhas e a ex-mulher Fátima Roque – mantêm um conflito em tribunal por causa da herança. Numa primeira fase, o Estado assume quase 100% do capital do Banif e só daqui a seis meses, na sequência de um aumento de capital destinado a privados, espera poder perder o controlo do banco. Neste momento, não há qualquer garantia de que o aumento de capital seja bem sucedido. Os acionistas do Banif Rentipar (família Roque) e Auto-Industrial já se comprometeram a subscrever 100 milhões e o BES 50, mas ainda está por garantir o restante. Nesse caso, o Estado juntará mais um banco ao universo CGD.

Outra diferença entre Banif e BPN, além da gestão competente, é que o Estado é remunerado pelo empréstimo de 1,1 mil milhões de euros. As previsões apontam para um encaixe de 333 milhões de euros com a recapitalização – 261 milhões em dividendos, 29 milhões com a venda de ações do banco e 43 milhões que o Banif vai pagar em juros pelo reembolso das CoCos.

Outro ponto pacífico entre os especialistas ouvidos pelo Dinheiro Vivo é o de que o Governo fez bem em não deixar cair o Banif. “O Estado agiu de forma a proteger a integridade e confiança do sistema financeiro”, disse Pedro Lino, CEO da corretora Dif Broker.

Na opinião de um administrador de banco, o risco sistémico do Banif “é sempre algum”: “O Banif passará a ser supervisionado diretamente pelo BCE e mesmo assim o Governo interveio, o que pressupõe o entendimento de que o risco existe”.

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2 thoughts on “O Banif é um novo BPN?

  1. Andamos a viver no mundo da ilusão. A ilusão da liberdade. A ilusão do poder de decidirmos o nosso futuro. A ilusão da democracia.

    Os exemplos multiplicam-se. Ao ponto de falar-se nas PPP’s, que segundo entendem os governantes, estão melhor blindadas por contrato do que a Constituição da Republica, é um mero exercício de somar.

    Anda-se a cortar em tudo e mais alguma coisa no bolso das pessoas para pagar as negociatas, os jogos de cadeiras, os “jobs for the bois” (sim, com i) as luvas, as concessões, os km’s de asfalto e os m3 de betão que ninguém precisa. E para quê? Para estes tipos pegarem no dinheiro de todos e enterrarem-no em parte incerta, ou seja, em mais um banco. Isto é alguma anedota? O povo não tem uma palavra a dizer sobre isto? Referendo?

    Isto é tudo normal… A democracia é assim! Sempre foi e sempre será uma ilusão. Votar é apenas um instrumento de controle de massas, que permite a quem verdadeiramente manda (bancos) manter a clientela (eleitores) iludidos que efectivamente decidem alguma coisa.

    Basta vermos o actual governo: Coligação? O que é isso? Que raio de conceito de democracia é este, que permite que um partido atinja a maioria sem que o povo assim o tenha desejado? Se a vontade do povo fosse uma maioria, assim teria votado! Mas esta malta faz estas coisas e tudo é normal… “Toma lá um cargo de ministro para ti, 15 cargos de secretário para os teus amigos e ainda mais 20 cargos em EP’s para os teus bois e votas sim a tudo o que propusermos… Voilá, eis a democracia!

    É bom que comecem a ter cuidado, pois aqui ao lado em Espanha, já ninguém quer saber do PP para nada… Os alvos das manifestações já estão identificados; já perceberam que os culpados de tudo o que de mal se faz no mundo, tem uma origem comum: A banca! Já perceberam que é a banca que através de participação directa (acções) ou indirecta (publicidade), manipula a opinião publica. Já perceberam que os políticos, não passam de marionetas sem escrúpulos; quase todos de passado duvidoso. Já perceberam que é a banca, quem primeiro dá, ganhando juros e depois tira, criando crises económicas que mais não são, do que o resgates ao dinheiro de divida.

    Já agora deixo aqui uma questão: Partindo do principio que o spread associado a um crédito está proporcionalmente ligado ao risco do empréstimo, pergunto, ingenuamente, que moral tem o Banif (neste caso em concreto) de continuar a cobrar spread se efectivamente não corre risco nenhum, pois segundo parece, se algo correr mal, o estado lá está para injectar o dinheiro em falta?!

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