Zé Pedro Cobra: “Tenho várias almofadas para gritar. Faz mesmo falta”

Fotografia de Diana Quintela

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo, no Diário de Notícias e no Jornal de Notícias.

Entrevista - José Cobra Ferreira

José Pedro Cobra Ferreira tem assento nas reuniões do conselho de administração da Teixeira Duarte, como secretário da sociedade, é o responsável pela relação com os investidores, com o supervisor do mercado de capitais e com a bolsa, coordena a elaboração de relatórios de gestão, partilha muitos segredos e tem uma enorme responsabilidade num dos maiores grupos do país, mas desta vez fomos à procura do Zé Pedro Cobra da stand up comedy, que é como quem diz da “comédia em pé(zinhos de coentrada)”, bem à portuguesa, como gosta.

Se está à espera que a partir de agora seja uma anedota atrás de outra, desengane-se. A conversa foi muito séria, mas valeu a pena e, por isso, merece ser partilhada. “Não se trata de ensinar nada a ninguém, mas de partilhar um desafio de vida, de consciência, através do humor”, diz-nos o advogado de 40 anos, pai de uma filha, que acredita em Deus, mas não é católico, nem batizado. Para este alto quadro da Teixeira Duarte, que garante que nas reuniões da empresa, “todos se divertem desalmadamente”, não está escrito em lado nenhum que quem ri trabalha menos, aliás, é ao contrário, diz: “Quem ri trabalha seguramente mais”.

Há uns anos, estava tudo bem, foi à Euro Disney com a filha e uns amigos e não pregou olho, imagine-se, “só por ir ver o Mickey”; recentemente, passou por um divórcio e não perdeu uma hora de sono. Zé Pedro Cobra mudou, começou a mudar aos 26 anos: “Eu esgotava-me, a maneira como me dedico às coisas esgotava-me, às tantas já era físico. Fui obrigado a escolher”. Mas não precisou de “ir para para o Nepal dois anos montar um elefante”, não largou a Teixeira Duarte, até porque “precisava de sustentar a família”. “Mudar de vida pode implicar mudar de cidade, de casa, de mulher, de trabalho, mas também podem não implicar nada disso”, diz.

No seu caso, passou por ler muito sobre filosofia, religião, física quântica, pela meditação, por procurar paz de espírito, o sentido da vida, por fazer coisas de que gosta. Além da stand up comedy, é voluntário na C.A.S.A (Centro de Apoio ao Sem Abrigo), no Hospital de Santa Maria, onde vai contar histórias às crianças, e na Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as ciências do bebé e da família, e é convidado, cada vez mais vezes, para falar em eventos. O último foi a conferência da Deloitte sobre o Orçamento do Estado 2013.

“Há pessoas que jogam ténis, outras que jogam golfe, eu vou distribuir refeições aos sem abrigo; há pessoas que, à noite, vão a jantares de gala, eu vou ao restaurante fazer comédia em pé para arrecadar dinheiro para instituições de solidariedade”, explica Zé Pedro Cobra. Não cobra porque se sente grato e porque sabe que não há só altruísmo no que faz pelos outros. “Em primeiro lugar, faz-me bem a mim”.

Não, não está tudo resolvido, existem problemas, mas o que mudou foi a forma como os encara – “vivo-os com mais frontalidade”, o que lhe permite ser “uma pessoa mais feliz”. E aprendeu a não esconder nada: gritar quando sente vontade e chorar sempre que é preciso. “É preciso tirar aquilo cá de dentro: Uma pessoa chega a casa e pensa que já passou, mas não passou nada. Vai para o quarto e põe uma música lamechas e chora. Não faz mal nenhum”.

Num momento difícil, por causa do divórcio, a filha, de 9 anos, estava triste: “Estava a fazer o jantar, peguei na esponja de lavar a loiça e disse-lhe: ‘Olha, isto é a nossa vida, a água é vida a passar por nós. Como vês a esponja começa a ficar cheia, escura, triste, como se tivesse olheiras. Às vezes, é preciso sair um bocadinho, parar a água, apertar bem o coração e deixar sair as lágrimas, porque depois tens outra vez uma esponja fresca e pronta para seguir'”.

Outra vez, ia a passar ao pé da fotocopiadora e decidiu abraçar uma colega de trabalho que estava triste: “As pessoas podem ficar a olhar, mas eu achei que era o que ela estava a precisar. E confirmou-se. Foi só isso”.

É muito raro estar maldisposto, mas quando fica zangado, por exemplo, com Passos Coelho, vai ter com as suas almofadas. E grita, muito. Explica: “Tenho várias e boas, e faz mesmo falta”. Como conta através de uma frase atribuída a Shakespeare: “Ter raiva a alguém é a mesma coisa que tomar veneno e ficar à espera que o outro morra”.

A propósito, ainda não fez as contas a quanto que é perde de salário por causa do aumento do IRS: “Não estou preocupado porque, felizmente, tenho uma vida boa. Mas atenção, é uma vida contada! Não vou dizer ‘Que bom!, o IRS subiu’, isto é objetivamente mau, mas primeiro há que aceitar, depois respeitar, e a seguir passar para aquilo que tenho que fazer”.

Zé Pedro Cobra acha que, neste momento, o país não tem alternativa e só espera que a (desperta)dor sirva para as pessoas mudarem o que está mal. “Todos, com bancos e Europa à mistura, nos foram dizendo: ‘Não há problema nenhum em falir porque damos-te mais um empréstimozinho, e não tem problema nenhum casares com uma senhora que conheceste só há um ano e teres uma vida que não tens estrutura para ter e assumires um empréstimo que vais ficar a pagar durante 50 anos’. As pessoas fizeram isto e alguém lhes vendeu que valia a pena. E dentro de dois anos têm uma criança e estão a separar-se, mas depois não se podem separar porque não têm dinheiro para pagar uma segunda casa. Têm um T2 em Massamá e não conseguem ir trabalhar para Portalegre, para o Porto ou para a Alemanha porque não conseguem vender a casa. Deves 125 mil euros e quanto é ganhas por mês? 750 euros. Ah, ok! Este modelo foi impingido às pessoas, que também deixaram”.

Governámo-nos mal, mas também fomos mal governados: “As pessoas boas e válidas e que podem dar um bom contributo andam suficientemente perdidas e as que lá estão são suficientemente perdidas para darem um contributo válido. Não vou tecer mais nenhuma consideração”, afirma. O problema está, segundo defende, na inconsciência, na tal falta de procura de sentido da vida, de valores. Tentar despertar as pessoas é o seu papel. Há momentos em que a vida estica, os amigos esticam, o dia estica e o som é bom. E há outros em que tudo encolhe, os amigos perdem-se, a carteira diminui e o som não é tão bom. Mas é nessa diferença de sons que temos a música da vida, como numa concertina. Diz Zé Pedro Cobra:

“Desabituámo-nos, fomos criando ilusões de que não existiam descidas, enganámo-nos e agora não sabemos descer. Mas as descidas fazem parte da vida e quando se encontra essa serenidade, tudo parece mais fácil. Não é dizer que os baixos são bons, ninguém diz ‘ai que estou tão feliz porque tenho um cancro’, mas tenho que aceitar o que a vida me pôs à frente e depois fazer o que é preciso”.

Não sentiu muito a crise, de facto diz, esta crise não o mudou porque “bateu com a cabeça muito antes”. “Eu não teria ido à procura das perguntas se não me tivesse estourado. Mas não precisamos de nos estourar. Há pessoas que acordam para a vida porque têm um cancro, ou porque se divorciam ou porque lhes morrer o pai. Mas podemos acordar antes. É a nossa obrigação número um estarmos atentos à vida, saber qual é o nosso papel”, avisa.

Gosta de fechar com uma frase. Desta vez, foram mais, mas fica uma do poeta libanês Khalil Gibran, que diz que que a vida pode ser, de facto, escuridão se não houver vontade, mas a vontade é cega se não houver sabedoria, a sabedoria é vã se não houver trabalho e o trabalho é vazio se não houver amor.

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3 Comments on “Zé Pedro Cobra: “Tenho várias almofadas para gritar. Faz mesmo falta”

  1. “Governámo-nos” em vez de “Governá-mo-nos”… E “Desabituámo-nos” em vez de “Desabituá-mo-nos”…
    De resto, excelente entrevista deste grande senhor!

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