Não entendo a histeria nacional

Ireland's Finance Minister Noonan and Portugal's Finance Minister Gaspar attend a European Union finance ministers meeting in Brussels

Foto de YVES HERMAN – Reuters
(Ministro das Finanças irlandês, Michael Noonan, com Vítor Gaspar, ontem em Bruxelas por ocasião do Ecofin

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Não consigo entender a histeria coletiva à volta do regresso de Portugal aos mercados (Qual regresso?! Portugal conseguiu financiar-se desta vez, mas nada garante que o repita daqui a um mês ou daqui a um ano. Mas já lá vou.).

Em primeiro lugar, gostaria se sublinhar que considero importantes (mesmo muito!) os últimos passos dados pelo Governo, que pediu o prolongamento dos prazos de parte dos empréstimos à troika e, logo se seguida, aproveitou a onda positiva junto dos mercados internacionais e emitiu com sucesso dívida pública, pela primeira vez em quase dois anos.

E é importante e positivo porque, desde logo, Portugal conseguiu, assim, num ápice, garantir grande parte das necessidades de financiamento do Estado para 2014; porque, desta vez, Portugal endividou-se junto de outros investidores e não da troika, o que mostra que existe uma maior confiança no nosso país, ou seja, que existem investidores disponíveis em investir na dívida portuguesa (o risco é menor, ainda que a taxa não seja propriamente baixa); o regresso de Portugal aos mercados é importante e positivo porque, desta forma, o Governo poderá gerir com maior folga as suas necessidades de tesouraria, num período em que a recessão pode prejudicar as receitas fiscais provenientes da arrecadação de impostos; e também e sobretudo porque assim Portugal fica mais próximo de ser elegível pelo Banco Central Europeu (BCE) para o seu programa de títulos no mercado.

Posto isto, gostaria de explicar porque não partilho da animação generalizada que explodiu por aqui nas últimas 24 horas.

Em primeiro lugar, a operação (esta operação!) correu bem, a procura foi muita, mas isto está longe de ser o nosso regresso aos mercados. Para já, será muito importante esperar pela evolução dos juros no mercado secundário durante as próximas semanas. Se o preço dos títulos baixar e as taxas subirem, as dificuldades de Portugal voltar a emitir serão maiores.

E depois, Portugal continua a ter a terceira maior dívida da União Europeia (120% do PIB, segundo os dados mais recentes do Eurostat), a recessão está para ficar (assim o mostram as últimas projecções do Banco de Portugal ) e o ambiente na zona euro continua de nervos – qualquer coisa em Espanha, Itália ou França. para não falar da Grécia, apaga num segundo esta animação.

Ou seja, Portugal não só ainda não se libertou da troika, como precisa, isso sim, de garantir o apoio do BCE como comprador de dívida de fôlego.

Agora, o mais importante, o problema que continuará por resolver mesmo com prolongamento das maturidades de parte dos empréstimos da troika e com emissões de dívida de dois mil milhões: a economia portuguesa está nas ruas da amargura e este Governo, tão competente no capítulo da confiança externa, está cada vez mais frágil dentro de portas.

(Mesmo que agora haja mais dinheiro a chegar à economia, o que não está garantido, não é de esperar investimento. Para isso, os bancos terão que querer emprestar e depois as empresas têm que querer investir.)

A crise económica não desapareceu – o PIB vai cair acima do previsto, o desemprego vai continuar a aumentar, o défice a cair e a dívida pública, essa não tem como baixar (ou se deixa de pagar e entra-se em incumprimento, muito mau!, ou se cresce: não há receitas milagrosas) – e a crise política muito menos.

Emissão de dívida à parte, por cá, Passos e Gaspar continuam nas ruas da amargura da confiança dos portugueses (como é que se fazem reformas assim?!).

Então, agora que já estamos todos mais calmos, será possível que este Governo entenda de uma vez que este caminho de concentração excessiva na consolidação orçamental não tem saída. E que o que Portugal precisa é também de mais tempo para o ajustamento, mais tempo para reduzir o défice, para desfazer a porcaria que demorou décadas a crescer.

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2 Comments on “Não entendo a histeria nacional

  1. Ir aos mercados, pedir á Troika, ou outra coisa que o valha, tem o mesmo resultado: aumento de divida. Tanto corte e tanta austeridade e não conseguem pôr o país auto-suficiente? Esta ida aos mercados traduz-se, efectivamente, em mais quantos anos de austeridade? Acho isto ridículo! Acho ridículo fazem estas coisas ás claras e ninguém falar no evidente. É no mínimo ridículo, pois estamos a falar em emissão de divida a 5% numa altura em que nem o maior acéfalo acredita num crescimento económico proporcional a esse juro. Alias, até se espera nova contracção económica. E agora pergunto: mais ninguém acha isto estranho?

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