Parece uma crónica sobre Sócrates mas não é

Opinião

Artigo publicado em Dinheiro Vivo

Também eu criei muita expectativa à volta do assunto, que foi tema de conversa várias vezes ao longo do meu dia, e às nove em ponto já estava sentada em frente à televisão com dois quadrados de chocolate e o comando na mão. Havia até, admito, alguma excitação.

Também eu faço parte dos 1,6 milhões que assistiram ao regresso de José Sócrates e hoje sei que foi uma grande decisão, que fiz bem em ter visto a entrevista à RTP1.

Tudo passou, estou novamente em paz comigo, pelo menos no que diz respeito ao ex-primeiro-ministro, confirmei tudo aquilo que pensava de José Sócrates. E, muito importante, mantenho tudo o que pensava sobre José Sócrates num momento em que anseio como nunca por um Governo que invista uma gota que seja para criar emprego. Confesso, não foi preciso ver a entrevista até ao fim.

Agora sim, confirmada a irrelevância de José Sócrates na minha vida – não passa apenas de mais um ex que quis acertar contas e aguentou dois anos até vir espumar em frente às câmaras -, gostaria de me dedicar a outro obtuso: Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo.

É que, este sim, para o bem e para o mal, interfere muito mais nas nossas vidas. Depois de ter dito que considera a solução escolhida para o Chipre, onde os depositantes também foram chamados a pagar parte do resgate, um modelo a seguir no futuro, as ondas de choque não se fizeram esperar. O risco disparou na banca dos países da periferia e a desconfiança, o inimigo público número 1 do sector, ganhou mais uns pontos.

O líder do fórum dos ministros das Finanças do euro e também ministro das Finanças holandês emitiu um comunicado a emendar a mão, sucederam-se as declarações a contradizer Jeroen Dijsselbloem, garantindo que o Chipre era um caso irrepetível, mas o mal estava feito.

O que o presidente do Eurogrupo quis dizer é aquilo que, provavelmente, muitos, simultaneamente contribuintes e depositantes, pensam. Que mais vale sacrificar os depositantes de determinado banco do que todos os contribuintes, ou seja, que se deve responsabilizar, primeiro, quem assume o risco, ou seja quem investe o seu dinheiro numa determinada instituição. Mas não é assim tão simples. Um depositante não é igual a um acionista ou a um obrigacionista, a começar pela remuneração do capital, e os depositantes também não são todos iguais. Bastava pensar antes de espumar.

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Agora podemos esperar tudo

Opinião

Texto publicado em Dinheiro Vivo

Quando começo a escrever, acaba de sair na France Press um take com o seguinte título: “Para Paris, a taxação dos pequenos aforradores foi um erro”. É o porta-voz do governo francês, Najat Vallaud-Belkacem, a qualificar a decisão do Eurogrupo e de Nicósia para resgatar a economia do Chipre e que, entre outras medidas, prevê a aplicação de um imposto extraordinário sobre todos os depósitos, mesmo os mais baixos.

França não foi o primeiro, nem será, muito provavelmente, o último país do euro a demarcar-se desta brilhante decisão assinada pelos seus ministros das finanças, madrugada dentro.Até já o nosso ministro das Finanças veio oportunamente dizer que a ideia foi dos cipriotas.

Sim, porque foi numa oportuna sexta-feira à noite que tudo começou, que estas mentes brilhantes, entre as quais não poderia faltar Vítor Gaspar, se sentaram à mesa e decidiram enterrar de vez a solidariedade na Europa.

Agora sim, podemos esperar de tudo. No Chipre, na Grécia, ou mesmo em Portugal. Por mais que nos garantam – o que é natural, em causa própria -, a partir de agora, ninguém pode estar seguro de que as suas poupanças, no limite o pouco dinheiro de uma vida de trabalho, não será atacado, e de noite para impedir qualquer tipo de reacção (só assim se poderia garantir a eficácia do corralito, como ficou conhecida na Argentina esta prática, até aqui inédita na Europa).

E assim a Europa, continua a cavar a sua sepultura, cada vez menos credível, cada vez menos solidária, cada vez mais dividida. Mais uma vez, desta vez, por 17 mil milhões de euros e menos de 0,5% do PIB da zona euro, o Norte recusa correr riscos para resgatar mais um país do Sul, cheio de histórias de corrupção, onde os bancos têm a fama, merecida, aliás, de lavar dinheiro russo.

Tem razão o porta-voz do governo francês. Foi, de facto, um erro taxar os pequenos aforradores do Chipre, foi um enorme erro de cálculo, mais um. Por mais que custe a Merkel explicar em Berlim a importância de não deixar cair o Chipre, vale bem a pena o esforço, em causa está muito mais do que meio ponto de produto europeu.

Silva Lopes: “Extorsão é o rendimento que atribuíram a Filipe Pinhal”

Entrevista - Silva Lopes

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo, transmitida na TSF, ao sábado depois das 13h00, e publicada ao sábado no DN e no JN.
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

Foi governador do Banco de Portugal de 1975 a 1980, fez parte dos primeiro quatro governos do pós-25 de Abril e foi ministro das Finanças e do Plano em 1978. Trabalhou para o FMI e para o Banco Mundial, foi deputado entre 1985 e 1987 pelo Partido Renovador Democrático (PRD), sempre de olho numa coligação com o PS, e mais tarde foi presidente do Conselho Económico e Social. Antes de se reformar presidiu ao Montepio Geral. José da Silva Lopes é economista, tem 80 anos, dois filhos e quatro netos.

Disse, mais do que uma vez, que Portugal não tem alternativa a esta austeridade imposta pela troika. Quase dois anos e sete avaliações depois, o país continua assim, sem alternativa?
Infelizmente continua. Só temos duas alternativas à austeridade: ou conseguimos que nos emprestem mais dinheiro ou conseguimos que aumentem bastante as exportações. A austeridade tem aqueles custos terríveis, como o desemprego, as pessoas que não têm o suficiente para viver decentemente, etc., mas o problema é que o país tem, neste momento, para gastar quase 20% menos do que tinha em 2008, antes de começar a crise. Hoje produzimos 8% menos do que produzíamos nessa altura, pagamos mais juros ao estrangeiro das dívidas que acumulámos – cerca de 2% – e também reduzimos o recurso ao endividamento externo. Produzimos menos, já não nos podemos financiar lá fora para gastarmos cá dentro, por isso, hoje os portugueses têm, em média, 18% menos para gastar.

Não há alternativa a Passos Coelho e a Vítor Gaspar?
Temos, neste momento, menos 18% de dinheiro para gastar do que tínhamos antes da crise. Isto significa que tivemos de cortar muito nas despesas, o consumo das famílias baixou pelo menos 12% nestes anos, o Estado gastou cerca de 6% menos, isto a preços constantes, e o investimento veio por aí abaixo. Cortámos quase 50% no investimento. Para sairmos disto era preciso haver mais dinheiro, que só pode vir da troika, dos mercados ou das exportações. Já cortámos muito nas importações, devíamos começar a importar mais, sobretudo bens de equipamento, porque o país está a perder capacidade produtiva, o que se vai refletir em crescimento muito difícil daqui a uns anos. Com estas condições todas, não vejo solução.

Não há alternativa a estas políticas?
haverá algumas. Não sou grande entusiasta das políticas do governo. O que se passa em Portugal depende mais da senhora Merkel do que do doutorº Passos Coelho. Neste momento, não temos instrumentos nem capacidade para, sozinhos, traçarmos o nosso destino. Infelizmente o nosso destino é hoje traçado na União Europeia, na Alemanha – a senhora Merkel é que decide se nos empresta mais dinheiro e se impulsiona ou não as nossas exportações. Uma coisa trágica é que os alemães, os holandeses, os finlandeses, em vez de estarem a expandir as suas economias – têm espaço para o fazer -, estão também a apertá-las. Apertando a procura na Alemanha é claro que exportamos menos para a Alemanha, e os espanhóis também exportam menos, e como os espanhóis exportam menos, nós exportamos menos para Espanha. Este ciclo vicioso podia ser rompido se esses países, que são capitaneados pela Alemanha, adotassem outras políticas. Infelizmente, esta conjugação de governos europeus nos países mais poderosos acham que restringir é que é bom. Portugal tinha de ter austeridade, não podia deixar de a ter, mas podia ser menos grave, menos dolorosa se a Europa tivesse uma posição mais pacífica.

Portugal acaba de ganhar mais um ano para atingir a meta de 3% de défice. É suficiente? Ganha-se alguma coisa com mais este ano?
Pelo menos não temos de tomar medidas tão drásticas imediatamente. Agora, põe-se o problema de saber como é que se vai pagar, porque, se temos mais um ano para cumprir o défice, temos mais um ano para pagar e a troika não vai dar mais dinheiro. Há a grande esperança de que tudo se vai resolver com o mercado. A Irlanda fez agora uma emissão que foi um sucesso.

Conseguiu colocar o dobro.
E com uma taxa de 4,5%. Quem nos dera… A Irlanda teve um sucesso louco e anda-se a fazer o possível para que Portugal também vá ao mercado. Hoje, temos melhores condições para ir ao mercado do que tínhamos há uns seis ou sete meses, mas, ao contrário do que alguns podem dizer, isto não é por causa do nosso esforço, não é por sermos muito bem-comportados e termos recuperado a confiança do mercado, nada disso.

É porquê?
É porque o Banco Central Europeu (BCE) anunciou, em agosto, que estaria disposto a comprar títulos dos países em dificuldades se os juros desses países subissem muito. Bastou esse anúncio para que os investidores, que compram os títulos de dívida pública portuguesa, espanhola, italiana ou irlandesa, sentissem que já não perdiam tanto como se não tivessem esta promessa do BCE. Este sucesso da Irlanda deve-se a isso. É verdade que a Irlanda está com melhor imagem do que nós. A grande esperança é que Portugal vá ao mercado buscar o dinheiro suficiente. Estou um bocado cético.

Não acredita que Portugal consiga?
Depende do que for a posição do BCE. Mas os nossos juros ainda não estão nada parecidos com os da Irlanda, já desceram muito, os juros a 10 anos chegaram a andar acima dos 10% e agora andam por volta dos 6%, mas ainda são altos, o país não tem capacidade para pagar taxas destas. Estou convencido de que continuamos a ter um problema grave de financiamento externo.

E mais um ano para chegar a um défice de 3% é suficiente?
Acho que a única solução é aumentar as exportações. E isso não conseguimos porque a Europa está em recessão. Uma recessão criada pelos alemães.

Assistimos a uma ligeira recuperação das exportações em janeiro, mas, no final do ano passado, elas caíram. Acha que se tratou de um mau momento ou o motor da economia gripou?
Não me posso pronunciar sobre o que acontece num mês, é preciso ver o que esse mês tem de petróleo, porque as exportações de petróleo alteram muito os números das exportações e isso não significa necessariamente valor acrescentado. Uma coisa é certa, a procura internacional para comprar exportações portuguesas não está a crescer. Exportamos cerca de 70% para a Europa e, se a Europa não está a progredir, não conseguimos vender. Acho que devíamos fazer o dia do exportador e homenagear os exportadores portugueses, porque é graças a eles que isto não está pior. Sou um pessimista por natureza e, de uma maneira geral, tenho-me enganado no meu pessimismo, para pior. Com uma exceção, a das exportações, onde foi um bocado melhor, embora não seja um milagre. Continuaremos? Espero que sim, mas não tenhamos muita esperança, porque não estamos a investir nos atores exportadores.

Como dizia António Pires de Lima, as exportações não vão salvar as empresas.
Não vão salvar, mas são elas que as mantêm. Se as empresas não vendem no mercado interno, o remédio é exportar. As exportações é que podem salvar a economia.

Nos últimos dois anos, a Europa conseguiu dinheiro para salvar a banca – 700 mil milhões de euros. Já para o crescimento parece não haver dinheiro. Isto é um erro, a Europa devia apostar em investimento público?
Claro que devia. Por isso é que sou muito crítico em relação às políticas restritivas da Europa, não só porque a Alemanha devia ser a locomotiva da Europa, mas também porque influencia a própria Comissão Europeia. Não sou dos que criticam o auxílio que tem sido dado aos bancos, porque se os bancos fossem à vida não funcionava nada. Se se deviam ter imposto mais limitações, admito que sim. Tem-se andado a pisar ovos no imposto sobre as transações financeiras. Mas, infelizmente, é necessário apoiar a banca.

E em Portugal o investimento poderia refletir-se em quê?
Neste momento, queria investimentos nas empresas exportadoras. Os grupos nacionais, os grandes grupos económicos nacionais não investem nada na exportação. Eles pensam em ganhar dinheiro, mas é dinheiro que não ajuda nada à economia, antes pelo contrário. Por exemplo, a linha de caminho-de-ferro para a Europa a partir de Sines parece-me uma boa ideia, muito melhor do que a ideia do TGV, porque pode realmente facilitar a exportação.

A economia nunca caiu tanto num ano, desde 1975, como em 2012: 3,2% de queda do PIB. Vivemos numa espiral recessiva, conforme diz o Presidente da República?
Há muito tempo. Não é preciso estar um ano à espera. Já se sabe isso.

É Cavaco Silva quem tem razão e não Passos Coelho?
Mas é mais do que claro. No ano passado, o governo tinha projetado um determinado crescimento para os impostos, mas como a economia afundou, a receita fiscal também baixou. O défice foi maior do que o previsto e, portanto, foi preciso cortar mais despesas. E cada vez que se cortam mais despesas provoca mais recessão, há menos receita fiscal e mais necessidade de cortar despesa outra vez. Isto é um ciclo vicioso, um ciclo recessivo ou vicioso. Essa coisa de dizer que não havia sido previsto é completamente falsa. A teoria dos economistas ultraconservadores, que diz que quando se corta na despesa e se baixa o défice se inspira confiança nos mercados e os mercados investem mais, isso é fantasia, é um raciocínio fantasma, não está provado em parte alguma. O que está provado é que cortar nas despesas ou aumentar os impostos provoca recessão.

Concorda com a discrição e o silêncio de Cavaco Silva, ou acha que o Presidente deveria ter um papel mais interventivo?
Isso é uma questão de política sobre a qual eu não me quero pronunciar.

Disse várias vezes que um dos principais problemas de Portugal são os seus líderes. Cavaco Silva e Passos Coelho fazem parte do problema do país?
Eles farão parte do problema, mas não é um problema que possam resolver individualmente. O problema de Portugal é da responsabilidade de todos nós. Somos nós que elegemos os líderes, que mantemos um sistema que não atrai bons líderes. As pessoas mais capazes deste país – e conhecemos algumas -, que seriam grandes líderes políticos, querem é ganhar dinheiro. Quantos indivíduos há aí na atividade privada que podiam ser bons líderes se não quisessem ganhar dinheiro?

A atividade política é cada vez menos atrativa?
Claro, ainda por cima só serve para levar pontapés, como se eles sozinhos é que tivessem as culpas. As culpas estão em todos nós, nós queremos pensões altas, queremos salários altos, não queremos que nos cortem os salários, não queremos que nos cortem as pensões.

Por falar em pensões, sendo também um pensionista, qual é a sua opinião sobre o recente movimento dos pensionistas indignados liderado por Filipe Pinhal, ex-administrador do BCP?
Pois sou, sou um pensionista e também seria afetado por esta lei de corte nas pensões mais elevadas, mas estou em profundo desacordo com esse movimento. Sou a favor de cortar muito nas pensões altas. Cortar mesmo muito. E, portanto, aquele esquema que a Assembleia da República usou é um esquema que realmente faz que na margem se possa perder, como diz o Pinhal, à volta de 90% do rendimento, mas não vejo mal nenhum nisso. Ele diz que é uma extorsão, extorsão é o rendimento que lhe atribuíram. Quando se atribui a um tipo um rendimento de 20 ou 25 mil euros num país onde há gente que tem reformas de 400 euros, isso não é extorsão? Claro que é extorsão. Eu sou ferozmente contra essa coisa e contra o meu próprio interesse. Sou a favor de grandes cortes nas pensões. E por mim gostaria muito, embora não acredite que o Tribunal Constitucional aprove isso.

Um corte permanente de quatro mil milhões de euros na despesa do Estado é suficiente?
Tudo depende do crescimento económico. Se tivéssemos um crescimento económico de 1% ou 2% poderíamos não ter de cortar tanto na despesa do Estado. Mas, infelizmente, o crescimento económico vai ser negativo e, como tal, teremos realmente de cortar na despesa.

Mas quatro mil milhões são suficientes?
Acho que é melhor não se fazer tudo de uma vez porque quatro mil milhões de euros causam um efeito recessivo à volta de 2% no PIB. Isto, com aquela ideia dos multiplicadores que há para aí, podia dar mais uma queda importante no PIB e tem de se ter cuidado. Agora, evidentemente, é apenas adiar. Cortar 4 mil milhões de euros permite, por um lado, equilibrar o défice e, por outro, acabar com ineficiências do Estado, serviços públicos que não são necessários, ou remunerações excessivas.

Como grande parte da despesa do Estado está nas prestações sociais, na saúde e na educação, provavelmente os cortes serão sobretudo nessas áreas.
Não haverá maneira de fazer cortes sem ser nos salários ou nas remunerações sociais. É por isso que não sou muito entusiasta do corte dos quatro mil milhões de euros, reconheço que talvez seja necessário, mas por agora andava com cuidado. E principalmente fazia uma coisa que não está feita, estudava, rubrica a rubrica, o que se devia cortar. Mas depois aparecem os lobbies…

As famosas gorduras do Estado.
Vejamos o caso da defesa. Há quem sustente que a despesa na defesa podia ser cortada em um terço porque o nosso país gasta mais do que os outros. Mas depois vêm os militares mostrar que não ganham mais do que os outros. Esclareça-se isso.

E, na sua opinião, essa área é uma boa candidata a cortes?
Não é, por causa do poder, do problema dos grupos de interesse. O grupo de interesse militar é muito forte, como o grupo dos professores. Estude-se tudo! Acho que é preciso estudar. Há casos em que realmente temos despesas acima da de outros países. Por exemplo, se a remuneração de um chefe de repartição em Portugal é 20% acima do PIB per capita, e se noutros países é 10%, isso quer dizer que o português está relativamente bem pago. Este tipo de estudos existe em algumas áreas mas noutras não. Acho que é preciso fazer estudos profundos. Não vejo mal nenhum em que os militares, os professores e os funcionários da TAP contestem, mas isto tem de ser estudado, temos de ter os números.

No início do ano foi divulgado um relatório do FMI que aconselhava o governo a cortar na despesa com os salários de funcionários públicos e com as pensões. Um documento polémico que criticou. Paulo Silva Lopes, seu filho, foi um dos autores desse estudo. Já teve oportunidade de discutir o documento com o seu filho? O que lhe disse?
Não, não, não, não discuti. O meu filho esteve cá nessa missão – ele trabalha no FMI e está em Washington, e nunca ele discutiu isso comigo, nem eu com ele. Aliás, é contra o dever de sigilo a que ele está obrigado. Se ele discutisse coisas comigo, das quais eu desse conhecimento público, ele era expulso, pura e simplesmente. Mas isto não me impede de dar uma opinião sobre o relatório. É um exercício muito apressado e que precisava de ser desenvolvido e até modificado. Aquilo foi feito muito à pressa, é muito superficial e, principalmente, não foi discutido. Por exemplo, no capítulo da educação, que deu muito barulho… Acho muito bem que tenha dado muito barulho, mas tem de ser discutido. O Fundo fez um trabalho imperfeito, no meu entender.

Não disse isso ao seu filho?
Mas o meu filho não manda.

Mas os pais costumam dizer isso aos filhos…
Isto é muito delicado. Calculo que ele – nem ele nem nenhum dos outros autores – não está de acordo com tudo o que diz no relatório. Estão de acordo com 90%, mas não com 100%, e o que conta é a posição da instituição, não o resto. No meu entender, o relatório foi útil, mas tem de ser desenvolvido, tem de ser estudado. Depois, quem criticar, critique com base em boas informações. Não é só dizer que aquilo é uma porcaria, também não se pode dizer isso.

O desemprego é uma das consequências mais visíveis da austeridade. Há quem defenda um plano de emergência, que se for preciso deve colocar-se os desempregados todos, economistas ou engenheiros, a limpar matas, ou a construir rotundas. Concorda?
Isso não é uma solução. Seria se pudesse aliviar as dificuldades de muitos desempregados. Se essa for a forma de um engenheiro temporariamente diminuir as suas dificuldades, porque não?! Acho que um programa desses devia ser ensaiado, mas numa base puramente voluntária. Um indivíduo está desempregado, tem direito ao subsídio de desemprego, mas se optar por uma coisa dessas pode receber mais qualquer coisa do que o subsídio de desemprego. Um engenheiro poderia ser necessário para organizar as equipas de trabalho, para fazer o planeamento. Um programa desses era útil, embora numa base puramente voluntária. E para isso é preciso dinheiro.…

O primeiro-ministro lançou novamente a polémica sobre o salário mínimo, dizendo que, em teoria, a redução do valor (485 euros) promoveria o emprego. O que se deve fazer numa situação de recessão como a que estamos a viver?
Se acabarmos com o salário mínimo – os ultraliberais defendem isso -, vamos retirar uma proteção essencial aos trabalhadores pouco qualificados. Há países na Europa que não têm, mas a maior parte tem. E os que não têm são países muito bem organizados, são os países escandinavos, que têm sindicatos fortes e sociedades mais coesas. E esses países não têm salário mínimo porque não precisam dele. Agora, num país como o nosso, aliás, na grande maioria dos países, o salário mínimo é necessário. Por outro lado, não penso – e acho que há estudos nesse domínio – que uma redução do salário mínimo aumentasse o emprego ou reduzisse muito o desemprego. Muitas empresas conseguiriam sobreviver se o salário mínimo fosse reduzido em 5% ou 10%, mas os efeitos são negligenciáveis. O argumento de que reduzir o salário mínimo ajuda a criar emprego comigo não pega. Por outro lado, aumentar o salário mínimo também é difícil porque as empresas estão com muitas dificuldades. Defendo que, embora haja necessidade de baixar salários em muitos sectores, não é no salário mínimo que se deveria mexer. Até acho que se deveria aumentar o salário mínimo, embora só em 2%, no máximo (valor da inflação), por forma a manter o seu valor real.

Há poucos dias vimos o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, dizer que, por causa da crise e do problema do desemprego, sobretudo do desemprego jovem, a Europa arriscava-se a perder uma geração. Em Portugal também estamos a falar de uma geração perdida?
Em grande parte, estamos a perdê-la já. Muitos jovens qualificados estão a sair do país – e vão fazer cá falta. Qualquer dia queremos bons profissionais em Portugal e eles estão a trabalhar em Inglaterra, na Alemanha, ou não sei onde. Portanto, já estamos a perder esta geração. E, por outro lado, os jovens que saem da universidade e não arranjam emprego vão perdendo qualificações. Realmente, concordo com essa frase. É uma tragédia e merece estudo. Temos problemas com os jovens desempregados, mas também temos problemas com os velhos, com os indivíduos de 50 anos para cima, desempregados, porque também nunca mais arranjam emprego. E também temos problemas com os indivíduos entre os 20 e os 50, que têm filhos para criar e não têm dinheiro para lhes dar. O desemprego é mau em todas as idades, nem sei onde é que ele é pior, mas como os jovens são o futuro, evidentemente que são uma parte importante.

Rui Semedo: “Não podemos criar a sensação de que vamos ter a vida que tínhamos antes”

Entrevista - Rui Semedo

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

Alentejano, nasceu em Elvas há 54 anos, é casado e pai de dois filhos. Licenciou-se em Economia, no ISEG. Começou a trabalhar como funcionário público no Ministério da Administração Interna mas logo começou a sua carreira na banca, primeiro no Sotto Mayor e mais tarde no BCP de Jardim Gonçalves onde permaneceu mais de 16 anos, até chegar a diretor-geral. Em 2003 mudou de banco e assumiu a presidência do Barclays em Portugal, para mais tarde tomar conta da operação da instituição inglesa na Península Ibérica. Hoje é presidente executivo de um dos maiores bancos espanhóis em Portugal, o Banco Popular.

Veja o vídeo da entrevista, aqui

Depois dos maus resultados de 2011, o ano passado já foi um ano de lucros para alguns dos grandes bancos e mesmo a CGD conseguiu reduzir os prejuízos. O Banco Popular também sentiu o alívio em 2012?
Não é possível olhar para a banca em separado daquilo que se passa na economia porque os bancos são empresas como as outras, não são entidades que pairam sobre a realidade e, portanto, refletem sempre aquilo que se passa. Uma boa forma de interpretar aquilo que se passa na economia é olhar para o balanço dos bancos, está lá tudo. Os anos em que se sente algum alívio na economia, naturalmente, são anos melhores para os bancos. 2012 foi um ano difícil mas foi também um ano de muito realismo por parte dos bancos, de uma tarefa muito importante de estabilização, de limpeza, para que as instituições financeiras possam, em pleno, voltar a assumir aquele que é o seu real papel na economia, que é canalizar os recursos de quem os tem disponíveis para quem necessita deles. 2012 refletiu a situação de incerteza na economia e foi um ano em que os bancos apresentaram resultados em linha com a pressão que tinham.

Mas sentiu-se alguma recuperação face a 2011?
O ano de 2012 foi um ano de maior conhecimento da realidade, de algum alívio no funcionamento do mercados, com menos dramatismo do ponto de vista da liquidez. A grande ameaça para os bancos no pós crise foi a questão da liquidez e em 2012 as coisas melhoraram. E o comportamento da dívida pública também ajudou.

E para o Banco Popular como é que foi o ano?
O Banco Popular Portugal é uma subsidiária detida a 100% pelo Banco Popular Espanhol. Em Espanha, o banco teve um ano, em alguns aspetos, absolutamente notável. Teve necessidade de ampliar o seu capital e foi ao mercado levantar 2,5 mil milhões de euros juntos dos acionistas, nem necessitou de recorrer às ajudas públicas. Foi uma operação daquelas once in a lifetime, com um êxito incrível, que permitiu ao banco fazer um grande processo de resolução de problemas. O Banco Popular Espanhol fez mais de 9 mil milhões de euros de provisões, foi um ano de recomeço. Tem neste momento condições para voltar a uma trajetória de sucesso e para aplicar o seu modelo de negócio, que é muito comercial. 70% do ativo do grupo Popular é crédito a clientes.

Quais foram os prejuízos do grupo em Espanha?
2,4 mil milhões de euros.

E em Portugal?
Em Portugal, os resultados foram positivos. Como somos uma subsidiária a 100%, é prática do grupo não anunciar os nossos resultados. Caímos um bocadinho nos resultados, mas são positivos. Fundamentalmente, também sofremos do mesmo mal: a degradação da qualidade do ativo do banco reflete-se em mais problemas na recuperação do crédito, o que implica mais provisões. Somos uma casa muito rigorosa na gestão dos custos e tivemos, naturalmente, que fazer muitas provisões para estarmos preparados.

Até que ponto os 2,5 mil milhões de euros de prejuízos em Espanha comprometem a estabilidade e a estratégia do Banco Popular em Portugal?
Em nada. O grupo Banco Popular está a desempenhar completamente a sua atividade, como nunca deixou de estar. O mercado em Espanha teve um grande crescimento durante muitos anos e os bancos tiveram de absorver no seu ativo muito desse investimento. Aquilo que foi feito foi resolver esse tema de uma vez. O próprio presidente do grupo Popular disse recentemente que há que direcionar para outros mercados, mais para o crescimento internacional. É preciso olhar em frente.

Em Espanha, o sector foi alvo de resgate. Em Portugal o mercado bancário é maduro e está em crise. Porque é que Portugal merece a aposta do Banco Popular?
Uma razão óbvia é a proximidade. Se falamos do mercado europeu, por maioria de razão podemos falar do mercado ibérico. As afinidades de natureza cultural, as parecenças entre as duas realidades económicas e sociais justifica que qualquer empresa, seja ibérica ou não, olhe para todo o espaço económico ibérico como um mercado de 60 milhões de habitantes. Há uma natural e óbvia tendência baseada na própria atividade económica que leva a que, com a crise espanhola, bancos como o Popular, o Santander, o BBVA e mesmo outros mais pequenos, vejam em Portugal uma extensão natural do seu mercado. O Banco Popular é uma banco muito tradicional, com um grande sentido de longo prazo, tem uma longuíssima experiência em Portugal. Mesmo antes de ter esta presença direta, está presente em Portugal desde os anos 60. O Banco Popular chegou a ser acionista do Banco da Agricultura, foi acionista do BCP na parte inicial, teve sempre uma ligação a Portugal, até que depois resolveu investir de forma mais direta com uma operação aqui em Portugal, tendo comprado o BNC, em final de 2003. Tem uma relação de longo prazo com este país.

O facto de o empresário português Américo Amorim ser um dos principais acionistas do Banco Popular espanhol protege a operação em Portugal nestes tempos conturbados?
Só há uma grupo de aspetos que protege de facto as operações, que são os dados, o desempenho e a capacidade de gestão.

Neste momento, algumas instituições estrangeiras, como por exemplo o Barclays, que conhece muito bem, estão a rever a sua estratégia para Portugal, a cortar no pessoal e nos balcões. O Banco Popular poderá seguir o mesmo caminho, ou a situação está estável?
O Banco Popular para Portugal só tem uma estratégia: crescer no mercado, ser um banco de referência, especialmente no que toca ao serviço às empresas, com uma grande vocação para as PME. Apesar do momento de crise e de toda esta situação, a estratégia do Banco Popular em Portugal não sofreu uma única vírgula: queremos ser uma operador estável, de referência, em Portugal.

Não vão fazer como o Barclays e cortar na rede de balcões e começar reduzir em pessoal?
Nós queremos crescer em Portugal. Estamos a fazer crédito, estamos a aumentar o número de clientes. Ajustaremos a rede, se a conjuntura o exigir, como, aliás, já o fizemos, já fechámos alguns balcões, mas isso não tem qualquer reflexo dentro do banco. O banco continua a crescer, continua a afirmar-se, e eu já gostaria de ser maior para ter uma maior influência junto das empresas e para chegar mais longe na economia portuguesa.

Os maiores bancos portugueses, com exceção do BES, tiveram que recorrer à ajuda do Estado para atingir os rácios de capital exigidos pela Agência Bancária Europeia (EBA). Tem havido alguma evolução na solidez dos balanços da banca nacional, por via dessa injeção de capital, mas a verdade é que o valor em bolsa dos bancos tem-se ressentido. O caso do BCP, por exemplo, é paradigmático. Os bancos nacionais estão particularmente vulneráveis nesta altura, a ofertas públicas de aquisição (OPA)?
As OPA têm a ver com um conjunto grande de fatores, que vai muito além do preço, esse é um fator importante, mas não é tudo. Todos nós sabemos, independentemente de estarmos a falar do sector bancário ou de qualquer outro sector, que a primeira condição para que uma empresa portuguesa seja apetitosa para qualquer tipo de investidor é a estabilidade do país, a situação e a dimensão do mercado. Não é só o facto de o preço ser aparentemente atrativo, que leva alguém, de repente, a lançar uma OPA, até porque estamos a falar de investimentos grandes. Em todos os países, os grandes bancos comerciais são normalmente bancos nacionais. Em Espanha, há muito bancos, mas os mais importantes são os bancos de matriz nacional, em França a mesma coisa. Pode aparecer um ou outro banco estrangeiro, mas há e vai haver sempre grandes bancos nacionais. Os grandes bancos portugueses são bons bancos. Estão a sofrer, de facto, um momento difícil, que tem a ver com toda a envolvência, mas são bons bancos. Se eles estão a criar apetite, ou estão a pegar outros investidores, depende muito da perceção que de fora existe em relação ao mercado português.

Como é que vê a hipótese de consolidação na banca nacional?
Acho que neste momento é um tema que não se discute muito. Podemos dizer que o mercado português é um mercado que tem bons bancos, podia haver menos um banco ou dois, é possível, mas nós já temos o mercado bancário bastante concentrado. Os cinco maiores bancos a operar em Portugal têm à volta dos 80% dos ativos bancários, já há um nível de concentração elevado. Por exemplo, em Espanha, existe um processo que está a levar a uma grande concentração, ou seja vai haver uma incrível redução do número de operadores no sector financeiro em Espanha. Portugal tem um panorama completamente diferente, portanto esta questão da consolidação não é, quanto a mim, uma questão atual, crítica, imediata. Acho que os bancos portugueses vão conseguir ultrapassar esta fase.

A banca foi tradicionalmente um sector lucrativo, 2011 foi um ano difícil, 2012 também. 2013 poderá ser o ano de viragem, em que se retorna ao habitual, que é os bancos apresentarem lucros volumosos?
Nós gostaríamos que o ano de 2013 fosse para todos o ano de viragem: para os bancos e para as pessoas. Mas tenho dúvidas quanto a fazer uma afirmação forte e categórica em relação a isso. Gostaria muito que este ano fôssemos capazes de introduzir elementos que nos abrissem horizontes ou expectativas mais positivas. Naturalmente, se isso acontecer na economia, os bancos refletirão isso, até porque, neste momento, basta ver que todos os bancos estão interessados em conceder crédito. Isso é muito importante porque o negócio dos bancos é esse. Mas estou muito otimista quanto ao futuro. Não posso é garantir que este ano será o ano da viragem. Aliás, temos aqui um dado que é o facto de a economia da Europa também estar um pouco trémula.

Trabalhou no BCP mais de 16 anos, durante a presidência de Jardim Gonçalves, e participou na constituição do maior grupo financeiro privado português. O que é que sente quando vê o banco a registar prejuízos superiores a mil milhões de euros e as ações a valerem poucos cêntimos?
Não me peçam – nem eu jamais o faria – para falar de outros bancos, pelo facto de ter participado no seu nascimento, na sua criação. Acho que o BCP foi um grande projeto, um projeto revolucionário no quadro do sistema financeiro português, sofreu muito ao longo destes últimos anos, acredito que esteja num rumo que o leve a sair dessa situação. O tema prejuízo não é um tema fundamental quando se olha para uma empresa, o prejuízo é o resultado de uma atividade num determinado período de tempo. É preciso saber porque foi ou porque não foi, e portanto só a questão do prejuízo não justifica tudo. A questão da banca é uma questão de estabilidade e de perspetiva de longo prazo. Não estávamos era habituados porque tinha havido uma longa sequência de anos em que não existiram grandes problemas com os bancos. Agora, o BCP vai continuar a ser um grande banco, tem excelentes profissionais, tem uma excelente rede comercial. Tenho a melhor das opiniões do dr. Nuno Amado.

Esta semana o governo admitiu finalmente que a recessão em 2013 vai ser o dobro da prevista no Orçamento do Estado e fala já num alargamento do prazo para cumprir as metas do programa de ajustamento. Acredita nesta nova previsão de quebra de 2% este ano ou ainda a considera otimista?
Eu sou contrário às visões catastróficas, sou muito realista e muito pragmático e acredito muito no poder da palavra; acredito que boa parte da economia é psicologia e expectativas e a primeira palavra que é necessário transmitir é uma palavra de que as coisas podem ser melhores. Nós podemos especular a propósito de tudo, podemos cair 1% ou 2%, teremos sempre uma panóplia de argumentos para provar isso.

Mas este governo não acerta uma previsão.
O governo não acerta uma previsão porque as suas previsões económicas em tempos de incerteza, são como tudo em termos de incerteza, são incertas. O exercício das previsões é sempre um exercício muito complexo, porque as variáveis que contribuem para isso são grandes e, neste momento, há uma grande pressão sobre o país. É certo que tem sido difícil acertar nas previsões mas, ainda assim, dou o benefício da dúvida: visto de uma forma global podem ver-se aspetos de natureza positiva. Nós em Portugal, nós cidadãos, não nos podemos alhear do facto de a economia portuguesa ter problemas estruturais muito profundos, e essa profundidade dos problemas é bem visível no facto de a economia já não crescer antes da crise. Por alguma coisa é. Hoje é fácil fazer o discurso de que agora é por causa destas medidas que não se cresce. Não há ninguém que não gostasse de ver o país a crescer. Eu, enquanto responsável por um banco, o melhor que posso ter é uma economia a crescer, que se consiga fazer crédito, que as empresas estejam bem. Não é racional admitir que alguém, por instintos de malvadez, não queira que a economia cresça. O que estamos a discutir é se o ajustamento pode ser feito em três ou cinco anos, esse é outro tema.

Mas agora até o próprio ministro das Finanças admite que precisamos de mais tempo.
Diz o senso comum que se tivermos mais tempo para fazer uma coisa, a probabilidade de a fazer é maior, mas isso não quer dizer que ela fique necessariamente mais bem feita. Eu acredito muito, como efeito de inspiração, na pressão de última hora. Gosto de falar, no momento que atravessamos, num perspetiva de um prazo mais alargado. A mim, o que me preocupa no país é que, terminado todo este período, terminada esta pressão sobre os cidadãos e esta dureza das medidas, muitas delas inevitáveis, que depois de tudo isto, possamos ter um país que não corrigiu as deficiências estruturais. Essa é que era a razão que devíamos discutir em profundidade, esse é que é o tema. Cada vez que colocamos propostas em cima da mesa, elas dependem em grande parte dos outros e não de nós, porque estamos sempre a falar de fazer coisas que implicam investimento, que implicam mais dinheiro, que implicam mais recursos, e esses recursos hoje são cedidos por outros dentro de um quadro de exceção. A discussão acaba por terminar sem conclusão porque podemos chegar a uma conclusão brilhante, mas que não depende de nós.

Um elogio recorrente é que Portugal está a recuperar a confiança externa, a confiança dos investidores no nosso país. O governo não está excessivamente concentrado na recuperação da confiança dos investidores no plano financeiro, e depois esquece-se que o que precisamos é de atrair investimento?
Não sei como é que as duas coisas se podem dissociar uma da outra. Chegámos onde chegámos, aliás, a intervenção externa foi solicitada exatamente por termos chegado a um ponto em que tínhamos dificuldade em financiar a economia. Tivemos de pedir ajuda porque não estávamos com capacidade para financiar a economia e essa questão continua em cima da mesa.

Estamos ou não numa espiral recessiva?
A espiral recessiva é um termo que se adapta a isto porque cada vez que se retira capacidade à procura interna isso pode gerar mais crise. Há aqui um jogo entre aquilo que é a procura interna e aquilo que é a confiança. O futuro do país são as empresas, a capacidade de o mercado funcionar de forma livre e de os cidadãos atuarem de forma livre e criarem empresas. Ao Estado compete basicamente remover obstáculos. Aquilo que se pede a um Estado ágil é que se removam os obstáculos que ainda hoje existem, porque somos um país complexo. E devíamos combater essa tal complexidade. Se conjuntamente com este processo de ajustamento duro, conseguirmos introduzir elementos, seja nesta discussão sobre o papel do Estado seja a discussão mirabolante do cortar ou não cortar. O que está em causa é que Estado vamos ter depois deste processo? E isso não se pode dissociar nunca da confiança dos agentes económicos externos e internos. Aquilo que mais precisamos é de investimento. Aquilo de que mais precisamos é de empresas que exportem porque somos um mercado pequeno.

As exportações representam uma das poucas hipóteses que Portugal tem para recuperar. A evolução recente tem sido menos positiva. Com a conjuntura internacional tremida e o consumo privado em níveis historicamente baixos, qual será a solução?
Se olharmos para outros países que passaram por situações parecidas levaram muitos anos, mesmo os processos de desalavancagem levaram cerca de dez anos – ou nunca terminaram, como é o caso do Japão, que está permanentemente a tentar fazê-lo. Por isso volto à questão da palavra e também de um discurso positivo. Uma coisa é discutir, e devemos discutir com muita profundidade, nomeadamente nos órgãos de comunicação social, o que é isso de refazer o Estado, o que é isso de refundar, porque é um tema sério, é um tema muito importante que o governo colocou em cima da mesa. Outra questão é apontar caminhos para a economia portuguesa, que deem sinais aos próprios investidores, sejam eles internos ou externos.

Os bancos em Portugal têm reforçado o capital e feito progressos na solidez dos balanços, mas com esta recessão mais aprofundada em 2013, que, diz o governo, será de 2% em vez de 1%, vai acentuar-se ainda mais a quebra do consumo privado e da capacidade de endividamento das famílias e das empresas. Não podemos estar perante um cenário em que o problema do crédito este ano acabe por ser mais do lado da procura do que da oferta?
Tem-se andado nesta discussão do financiamento da economia. Diz-se que os bancos não fazem crédito, mas é verdade que é um problema de falta de procura. Tem de haver uma lógica para investir, também é preciso criar essa tal confiança.

A verdade é que não há confiança dos agentes económicos na economia.
Não há confiança no meio de toda esta incerteza, com os indicadores económicos que existem. É muito importante o pequeno gesto da ida ao mercado, que muitas vezes passa para o cidadão de uma forma muito complexa, que não se percebe o que é, mas é um passo importante que Portugal seja olhado como um sítio que está a recuperar alguma estabilidade. É um pouco como a banca. Nós falamos desta situação dos mercados como se fosse uma coisa muito estranha, vinda de outro mundo, mas não, não vem de outro mundo. Estamos a falar exatamente daqueles que nos têm garantido o funcionamento da nossa economia. Portanto pequenos gestos desta natureza podem ser importantes. E eu reafirmo a questão do discurso. As palavras são muito importantes naquilo que se diz aos empresários, aos agentes económicos, a criação de uma cultura de estabilidade: mexe-se nos impostos, é para mexer para uma série de anos, mexe-se em qualquer coisa e é para ficar. O que é importante é que aproveitemos este momento para conseguir introduzir elementos novos. O que não podemos é criar a sensação, que muitas vezes parece deduzir-se de algumas intervenções de natureza política, de que isto vai acabar e de que vamos voltar a ser como éramos, de que vamos ter a vida que tínhamos antes. Vai ser muito difícil, é impossível que as coisas se repitam, que isto volte a ser exatamente como era, porque estamos no meio de um processo de grande transformação da economia. O modelo económico tem que se alterar, se queremos ser um país próspero, porque senão as razões que levaram a que a economia não crescesse antes da crise financeira voltam a manifestar-se.

E a alteração do modelo económico está a acontecer ou não?
Eu acho que está a acontecer, mais lentamente do que podia acontecer, mas está a acontecer.

Disse há pouco tempo que, se até o Sporting tem futuro, Portugal também tem de ter. Mas o Sporting vai agora a eleições. Para resolver os problemas que tem, o país terá de ir a eleições ou deve continuar com o mesmo governo até ao final da legislatura?
Reforço o meu total sportinguismo, a minha completa dedicação ao Sporting e a minha preocupação relativamente ao futuro. Ainda não tenho a minha opção de voto decidida, estou à espera que se clarifique o terreno eleitoral [no Sporting]. Certamente vou votar, tenho muito gosto. É daquelas coisas mais perenes na minha vida, o amor ao Sporting. Relativamente ao país, penso que as eleições não serviriam a ninguém. Sou um democrata, acredito na expressão da vontade das pessoas. Se isso fosse necessário, não me amedronta o facto de haver eleições, mas creio que, neste momento, não é desejável e creio que o governo deve criar as condições para que governe até ao fim da legislatura para não perdermos tempo neste processo já por si tão complexo. Só acontecimentos de natureza mais profunda do ponto de vista político é que justificariam esta tomada de posição – acho que ninguém está interessado nisso.

Não quero filhos mansos

Opinião

Texto publicado em Dinheiro Vivo

Existe – sempre existiu -, um movimento, o dos defensores da estabilidade, que em momentos como este, de grande instabilidade, ganha uma dinâmica incrível, os seus membros ficam cheios de energia, chegam a cansar. Para cada lado que nos viramos, aparece mais um a defendê-la, a estabilidade, como um valor intrínseco, algo verdadeiramente indispensável, independentemente das circunstâncias.

Eleições, nem pensar. Sair do euro, um crime. Não há alternativa, garantem-nos, e a discussão termina sem sequer começar, porque a estabilidade, a necessidade de manter o rumo, é o que importa, e sem estabilidade, já se sabe, seria o caos. E é assim se vive amarrado ao presente, sem discutir verdadeiramente o futuro, condenando gerações à pobreza e empurrando os nossos filhos, pelo menos, para fora do país, onde serão maltratados.

Não entendo isto, como não entendo os que estavam à espera que os estudantes do ISCTE se tivessem manifestado sem interromper o ministro Relvas, como muito menos entendo os que criticam as manifestações e os que desprezam quem vai para a rua cantar Grândolas Vilas Morenas, porque vai perder tempo em vez de ajudar a resolver a crise. Não entendo os que querem filhos mansos.

Não estou contra a estabilidade, não defendo a instabilidade, manifs, greves de manhã à noite, não quero revoluções, queda de governos a torto e a direito, crises, golpes de estado e o diabo a sete, nada parecido, mas quero tudo menos a estabilização nestas regras, esta estabilidade que nos condena a uma situação miserável, quero discussão séria e aberta de todos os cenários, que me mostrem todas as saídas, as alternativas – há sempre alternativa -, quero informação para depois poder decidir, porque é isso a democracia.

Como este Governo não fará nada disto, já se percebeu, resta-me fazer como os italianos e esperar pelo nosso Beppe Grillo, há sempre um comediante de serviço para os loucos que infelizmente não conseguem perceber a tempo a importância da estabilidade.