Parece uma crónica sobre Sócrates mas não é

Opinião

Artigo publicado em Dinheiro Vivo

Também eu criei muita expectativa à volta do assunto, que foi tema de conversa várias vezes ao longo do meu dia, e às nove em ponto já estava sentada em frente à televisão com dois quadrados de chocolate e o comando na mão. Havia até, admito, alguma excitação.

Também eu faço parte dos 1,6 milhões que assistiram ao regresso de José Sócrates e hoje sei que foi uma grande decisão, que fiz bem em ter visto a entrevista à RTP1.

Tudo passou, estou novamente em paz comigo, pelo menos no que diz respeito ao ex-primeiro-ministro, confirmei tudo aquilo que pensava de José Sócrates. E, muito importante, mantenho tudo o que pensava sobre José Sócrates num momento em que anseio como nunca por um Governo que invista uma gota que seja para criar emprego. Confesso, não foi preciso ver a entrevista até ao fim.

Agora sim, confirmada a irrelevância de José Sócrates na minha vida – não passa apenas de mais um ex que quis acertar contas e aguentou dois anos até vir espumar em frente às câmaras -, gostaria de me dedicar a outro obtuso: Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo.

É que, este sim, para o bem e para o mal, interfere muito mais nas nossas vidas. Depois de ter dito que considera a solução escolhida para o Chipre, onde os depositantes também foram chamados a pagar parte do resgate, um modelo a seguir no futuro, as ondas de choque não se fizeram esperar. O risco disparou na banca dos países da periferia e a desconfiança, o inimigo público número 1 do sector, ganhou mais uns pontos.

O líder do fórum dos ministros das Finanças do euro e também ministro das Finanças holandês emitiu um comunicado a emendar a mão, sucederam-se as declarações a contradizer Jeroen Dijsselbloem, garantindo que o Chipre era um caso irrepetível, mas o mal estava feito.

O que o presidente do Eurogrupo quis dizer é aquilo que, provavelmente, muitos, simultaneamente contribuintes e depositantes, pensam. Que mais vale sacrificar os depositantes de determinado banco do que todos os contribuintes, ou seja, que se deve responsabilizar, primeiro, quem assume o risco, ou seja quem investe o seu dinheiro numa determinada instituição. Mas não é assim tão simples. Um depositante não é igual a um acionista ou a um obrigacionista, a começar pela remuneração do capital, e os depositantes também não são todos iguais. Bastava pensar antes de espumar.

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2 thoughts on “Parece uma crónica sobre Sócrates mas não é

  1. Sílvia, concordo contigo. Deixo só uma nota: os Bancos não são empresas quaisquer. São tutelados, regulados e fiscalizados pelo Estado. Quando lá deposito dinheiro não é só porque confio no Banco, é porque o Estado, ao dar uma licença bancária, me dá uma garantia de que o Banco é idóneo e cumpre requisitos. Ou o Estado faz esse papel e assume garantias, ou deixa de o fazer e acaba-se com o Banco de Portugal e com as licenças bancárias. A diferença entre um Banco e a Dona Branca existe e é esta. E este tipo de discursos de políticos sem visão global é uma conversa de deslumbrados que acham que descobriram a pólvora indo ao bolso das pessoas, como se um depositante fosse um investidor. Podia dizer-lhes que há escolas onde se aprende que isto não é assim. Mas o problema real é que há quem o ouça e se cale e acredite que ele possa ter razão.

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