Quem pensa que o cimento não desperta emoções engana-se

Lisboa: Ricardo Lima, CEO da Cimpor

Texto publicado em Dinheiro Vivo
Foto de Diana Quintela

Quem pensa que o cimento não desperta emoções engana-se. Tenho com a Cimpor uma relação que começou nos anos 90 do século passado, quando o primeiro-ministro ainda era Cavaco Silva e em Portugal se construía a torto e a direito.

Nas redações, os jornalistas esforçavam-se por noticiar em primeira mão mais um investimento no estrangeiro da cimenteira, então presidida pelo diplomático engenheiro Sousa Gomes.

No meu caso, visitei, pelo menos, as fábricas compradas no Egito e na Tunísia, viagens que guardo no capítulo do para sempre. A Cimpor é, por isto, também a minha empresa e, confesso, foi com alguma indignação que assisti aos anos de estratégia errante, à falta de bons acionistas e, mais recentemente, à entrega da minha cimenteira aos brasileiros da Camargo Corrêa, que a partiram em duas e separaram o Egito da Tunísia.

Sentia, por isso, mais do que a normal curiosidade jornalística na entrevista ao novo presidente executivo da Cimpor. Às 9h30 em ponto, Ricardo Lima, 46 anos, 1,92m, o homem forte dos brasileiros em Portugal, entrou na sala de reuniões do 9º andar da sede da Cimpor, na Alexandre Herculano, em Lisboa, acompanhado da nova secretária da sociedade, uma cara da antiga Cimpor.

Depois de um preâmbulo sobre outra sua expatriação, esta em Buenos Aires, passámos ao essencial e o gestor, engenheiro de formação, respondeu às perguntas e defendeu-se das acusações que têm dirigido ao grupo brasileiro que assumiu há pouco mais de nove meses o controlo de um dos símbolos que restam do Portugal industrial.

Primeiros noves meses à frente da Cimpor.
“A primeira grande preocupação foi a integração de todas as unidades de negócio. A Cimpor está presente em oito países, que correspondem a seis unidades de negócio: Argentina+Paraguai; Brasil; Portugal+Cabo Verde; Egito; Moçambique; África do Sul. Além dessas, temos uma outra, na qual estamos a apostar fortemente, que é a unidade de trading. Já temos hoje um quadro claro de cada um dos países.”

Portugueses ou brasileiros à frente das unidades de negócio.
“Há de tudo. Na Argentina, promovemos um argentino, que acumula também o Paraguai. No Brasil, um brasileiro. Na África do Sul, um sul-africano vindo da Cimpor. Em Moçambique e no Egito, temos brasileiros. Em Portugal, que acumula Cabo Verde, temos um português. O que a gente imagina é que tenhamos sempre um diretor-geral do país. Expatriado custa caro e ninguém quer ser expatriado a vida toda.”

Mercados-alvo da nova Cimpor.
“África e América do Sul. Temos interesse noutros países, como Equador, Chile, Perú, Colômbia. Estamos a analisar oportunidades de aquisição, é provável que aconteça, mas diria que não nos próximos dois anos porque acabámos de fazer uma aquisição grande, a da Cimpor.”

E entupiram a Cimpor de dívida?
“Há uma dívida dentro do que foi previsto. Temos dois anos para reduzir o nível de endividamento da companhia. Se pegarmos os ativos aportados pela Intercement à Cimpor, avaliados por bancos internacionais, a Cimpor ainda ficou com uma dívida para com a Intercement, porque esses ativos, por estarem em países emergentes, em desenvolvimento, têm um valor de mercado favorecido em relação a ativos que vieram da Cimpor e estavam em mercados em maiores dificuldades. A Cimpor ainda deve 382 milhões de euros, que têm que ser pagos até 30 de junho. A dívida que foi aportada é mais que compensada pelo valor dos ativos aportados.”

Despedimentos e encerramento de fábricas em Portugal
Já despedimos muitas pessoas: 210. E fechámos uma fábrica, em Cabo Mondego. A idade média das pessoas que saíram é 58 anos, 90% de reformas antecipadas. Não há como negar uma queda de volume acentuada. Não vou ser hipócrita, chegou a uma hora em que tivemos que fazer redução, que tem sido minimizado com o esforço que temos feito para aumentar a exportação. Segundo: Desde 2008, que a fábrica de Cabo Mondego tinha geração de caixa negativo. Íamos esperar até quando?! Produzia a 10% de capacidade e tinha lá 28 pessoas. Dessas 28 pessoas, 24 tinham possibilidade de pré-reforma e aos outros quatro oferecemos a possibilidade de trabalhar numa outra fábrica da Cimpor. Agora, tem que fazer, é a lógica empresarial. Vou ficar até quando mantendo uma fábrica que está sangrando resultados dos outros negócios?! Não há porque pensar em demitir mais pessoas, a menos que a situação piore bastante, mas não estamos acreditando nisso…”

Centro de decisão.
“Há uma atuação complementar em vários países, com uma concentração em Lisboa e São Paulo, mas cada um dos países tem uma atuação corporativa onde é mais competitivo. A concorrência é maior com o Brasil porque o maior acionista está lá e pela relevância do negócio. Diria que o que tem muito no Brasil é a validação dos temas, não que a estruturação e as propostas nasçam lá. Elas nascem aqui e são discutidas lá. O head da engenharia está lá, o head do jurídico também está lá, o da auditoria também, mas depois há responsáveis em todos os países. Já o head de comunicação, o de trading, o financeiro e o de tecnologias de informação estão cá. O centro de decisão está em Portugal, eu estou aqui. Os serviços corporativos têm que estar nos países onde existe maior vocação, onde custa menos e onde há maior qualidade.”

Cimpor controlada por estrangeiros.
“Mas o que é que o país perdeu com isso? Ou o que é que o país pode ganhar com isso? O pior que poderia acontecer é vir alguém aqui que a uma hora decidisse fechar e sair de Portugal. Somos cimenteiros, não estamos aqui para pegar um pouco mais de dividendos, queremos fazer este negócio crescer, vamos ficar em Portugal para sempre. Somos um grupo forte com capacidade para fazer a companhia crescer, quem sabe a gente consiga ajudar até o país a fazer uma volta por cima.”

Desfizeram a Cimpor?
“O que é que a Cimpor ganhava com a participação na China? A China é outro mundo, valia menos de 1% de quota, com resultado estrangulado. Nessa indústria, ou você é líder ou vice-líder, não dá para ser pequenininho. Dizer que tem presença internacional é bonito, a gente sente orgulho, mas se a gente for pegar o que fica no bolso de resultados, numa lógica de puxar resultados, não fazia sentido.”

A Cimpor é hoje maior ou menor?
“Em volume de vendas é maior, em capacidade instalada é menor. Em resultados, é mais forte. [está entre os 10 maiores grupos cimenteiros do mundo]”

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