“Ganhar dinheiro e criar riqueza não é um pecado”

Luís Portela - Bial

Fotografia de Pedro Granadeiro/Global Imagens

Licenciado em medicina, foi obrigado, aos 27 anos, depois da morte do pai, a assumir a liderança da empresa da família, a Bial. Hoje, com 62 anos, afastou-se da presidência executiva da farmacêutica e dedicou-se à sua paixão, a parapsicologia e a psicofisiologia. Há poucas semanas, publicou um livro – Ser Espiritual, Da Evidência à Ciência -, que já vai na sua quinta edição. Luís Portela, o chairman da Bial, sobre o seu lado desconhecido.

Não é do conhecimento de muita gente este lado espiritual do presidente da Bial. Como surge este livro e quando começa o seu percurso espiritual?
Desde a juventude que me questiono em relação às questões espirituais e que gostava das questões existencialistas. É uma paixão que vem desde essa altura. Por isso, fui para medicina e especializei-me em psicofisiologia. Achava que cabia à ciência desbravar terreno. Cheguei a pensar desenvolver investigação na área da parapsicologia. Havia uma panóplia de fenómenos descritos desde a Antiguidade, que o homem do ponto de vista da fé aceita demasiado facilmente, mas que sob o ponto de vista da ciência nega. Cabe à ciência investigar, aprofundar e esclarecer a Humanidade. Por isso, era essa a vida que eu queria seguir.

A que fenómenos se refere?
A telepatia, por exemplo. Antes do 25 de Abril, ia aos alfarrabistas procurar livros proibidos pela PIDE. Quando, depois, o meu pai faleceu prematuramente com 50 anos de idade, a vida deu uma volta grande. Ainda estive ali alguns anos a ver se ia continuar com a minha carreira académica e clínica, ou se me dedicava à Bial. Aos 27 anos acabei por comprar a maioria do capital da empresa. Tinha uma enorme admiração pela obra do meu avô e do meu pai e tinha a sensação de que se fosse para Inglaterra [tinha ganho uma bolsa para Cambridge], a empresa iria soçobrar. Nessa altura, prometi a mim mesmo que, se ganhasse alguns tostõezinhos a mais, procuraria ajudar investigadores nessa área que estava a optar por não fazer. Há dois anos, passei a presidente não executivo e criei algum espaço para poder fazer este livro e tentar cruzar os conhecimentos tradicionais nesta área com o que a ciência tem feito nas últimas décadas.

Neste livro, não sendo autobiográfico, percebe-se que acredita na telepatia, na reencarnação, ou vidas sucessivas e noutros fenómenos. Como é que aqui chega?
Lembro-me que aos 14 ou 15 anos fiz uma leitura comparada da bíblia católica e da bíblia protestante, que é uma coisa que não há muita gente que faça. E lia coisas do yoga, budismo e espiritismo. Gostava de ler porque sentia que em todas as áreas encontrava coisas de verdade, que me enchiam a alma. Mas é verdade que também encontrava coisas que achava secundárias, desinteressantes e que não aceitava, como as que eram relacionadas com mistérios, milagres e algumas ideias tabus. Ao longo da vida, fui mantendo o gosto de ler, sobretudo, na área da parapsicologia científica, o que foi sendo feito pelos académicos, com seriedade, em muitas universidades europeias e norte-americanas. Portanto, quando no último ano e meio peguei no livro, limitei-me a desenvolver o raciocínio que vim criando ao longo de todos estes anos, conjugando os saberes tradicionais, desde a Antiguidade, com o que tem sido feito pelos investigadores.

Este percurso foi feito ao longo da sua vida de empresário e do crescimento da Bial. Como é que se conjugam coisas que parecem tão incompatíveis?
Não acho nada incompatível. Ao longo do século XX, fez-se uma progressão fantástica do ponto de vista científico e tecnológico e deixou-se para trás a vertente espiritual. Isso é um disparate, porque quando a pessoa se conhece melhor a si própria, como uma partícula de um todo Universal, pode descobrir formas de energia que antes não conhecia, que não estavam exploradas, pode perceber-se como um ser igual aos outros, que deve aos outros o mesmo respeito que gosta que tenham por si. Não somos nem mais nem menos que os outros e quando se assume isso tem-se uma postura com um enquadramento um pouco mais produtiva e mais em sintonia com uma equipa de trabalho, mais capaz de perspetivar a concretização de um projeto com a serenidade de quem percebe que se esse projeto não for bem sucedido, o mundo não acaba, mas também com a perspetiva de que se souber centrar a força do seu pensamento, das suas palavras e da sua atividade e conquistar a força do pensamento colaborante construtivo de um conjunto de pessoas, as coisas acontecem.

Porque, conforme acredita, tudo começa no pensamento, não é?
As coisas começam na força do pensamento. O pensamento tem uma força que as pessoas ainda desconhecem. Essa força tanto pode ser utilizada de forma positiva e construtiva, como de forma negativa e destrutiva. Costumo dizer que a primeira forma de uma pessoa pensar destrutivamente é duvidar se é capaz. Claro que pensar ‘eu não sou capaz’ é, obviamente, um estorvo dos maiores, mas não é preciso chegar aí, basta ‘será que eu sou capaz?’. Este é uma primeira má utilização do pensamento, que tem por trás de si uma energia muito superior à da força das armas. Quando nos apercebermos disto, poderemos procurar aproveitar a energia disponível, sintonizá-la e tentar conjugar os esforços das pessoas para conseguir coisas bonitas, úteis. E não vejo porque não se podem fazer coisas bonitas de forma rentável, eficaz e produtiva. Ganhar dinheiro e criar riqueza não é um pecado, não é uma coisa má, é uma coisa boa. O que pode ser má é a distribuição da riqueza. E aí, há que procurar o caminho do meio, não tomar soluções descabidas, extremadas, nem para um lado, nem para o outro.

Ao longo dos mais de 30 anos em que foi presidente executivo da Bial, repercutiu esse desenvolvimento espiritual no seu estilo de gestão.
Se o fiz ou não, estão aí as pessoas para o dizer. Não me cabe a mim avaliar. Acho, contudo, que tivemos bons resultados, a empresa cresceu muito, fizemos coisas muito bonitas, coisas que não achava possível serem feitas. Quando, no princípio da minha carreira, perguntava às pessoas ser era possível, em Portugal, constituírem-se novas moléculas para levar novos medicamentos ao mundo, toda a gente dizia que isso era impossível, que era só para os grandes países e para as grandes multinacionais. E afinal conseguimos, estamos a ser capazes de levar novos medicamentos ao mundo. Nunca ninguém tinha feito isso em Portugal e em toda a Europa há 23 ou 24 empresas que são capazes de fazer isso e no mundo há 90 e tal. Isso nunca é o trabalho de uma pessoa, é de uma equipa, e para conjugar o esforço das pessoas é uma vantagem ter uma perspetiva espiritualista. Não vejo, por isso, nenhuma incompatibilidade entre a vida espiritual e a vida das empresas.

Acredita nas vidas sucessivas, ou reencarnação.
Para mim, faz mais sentido perspetivar que os seres humanos estão aqui de passagem, como quem vai à escola. A Terra é um Mundo-escola. Vimos cá para aprender. Comparo essa pequenina partícula de inteligência universal que cada um é com um diamante que começa em bruto e depois vai sendo lapidado nas suas mais diversas facetas. Faz sentido que venhamos à Terra vezes sucessivas em diversos corpos – assumimos a gestão temporária desses corpos -, e que sejamos nós a escolher o país, a região, as condições sociais, a família, o pai e a mãe, as condições mais adequadas para nos ajudar a limar determinadas arestas. Por exemplo, uma pessoa que foi detentora de muito poder numa determinada vida, que humilhou os outros, massacrou pessoas, quando deixar a terra é natural que pense em como corrigir essa sua faceta e será natural escolher voltar numa posição de grande miséria, onde seja humilhado, para perceber que não tem o direito a fazer isso aos outros. Para mim, faz mais sentido esta perspetiva mais evolucionista.

Há uma frase do seu livro: “O ter tem-se sobreposto ao ser. E, recentemente, parece que já nem faz falta ter, basta parecer.” Como é que resiste à vertigem do consumo quando lhe é fácil ter o que quer?
Está num gabinete de trabalho de um presidente de uma companhia de grande dimensão e está num gabinete relativamente espartano. Devemos procurar o equilíbrio. Não estou a dizer que consegui ou não, sou humano e tenho falhas, não vou agora dizer que sou fantástico, mas acho que o caminho é o do meio, é ser equilibrado é fazer a gestão de uma forma relativamente independente, muito apaixonados em querer fazer as coisas bem, mas pouco apaixonados em perspetivar as coisas como nossas, de forma egoísta. Quando o fazemos espiritualmente, essa é uma vantagem, passamos a ser menos egoístas, passamos a ser mais tolerantes, a perspetivar as coisas em favor do grupo, do outro, do todo. Devemos, obviamente, tirar algum benefício, algum prazer, também físico, estamos na Terra, mas não exagerando.

Defende que as pessoas são sempre responsáveis pelo que lhes acontece, de bom e mau, que são donas das suas vidas. Mas nas atuais circunstâncias, com a crise, a austeridade e o desemprego, como é que se pode fazer alguém acreditar que tudo está nas suas mãos?
As grandes carreiras normalmente surgem nas situações de maior dificuldade. É bom as pessoas pensarem que muitas das grandes soluções surgem nos períodos de maior dificuldade, ou seja, a criatividade aumenta, normalmente, quando há algum stress, algum desconforto. Por exemplo, Madre Teresa de Calcutá. A senhora nasceu pobre, num país pobre, era pequenina, magrinha, feiinha, a senhora nem sequer teve muitos estudos, vivia num país pobre e quis ir para um país ainda mais pobre, mas a verdade é que deixou uma obra fantástica. O que é que esta senhora tinha, afinal? Uma força interior fantástica, capaz de mover montanhas. E na área económica, o meu avô era filho de um merceeiro e começou a trabalhar jovem ao balcão de uma farmácia. E do nada foi trabalhando. Eu, quando arranquei, era médico de profissão, não sabia nada de gestão, e nos primeiros quatro anos, não tirei um único dia para descansar. É assim que se fazem as coisas acontecer.

É preciso trabalhar.
É preciso as pessoas esforçarem-se, dedicarem-se com muita paixão. Em situações de crise o que é preciso é andar para frente.

E sem vergonha.
Sim, vergonha é ficar parado, à espera. E também não me parece apropriado ajoelhar. A solução é procurar pelo seu próprio esforço fazer o seu projeto de vida.

E qual é o papel do sofrimento, de que também fala no seu livro?
O sofrimento é, sobretudo, um sinal de alerta. O todo universal é harmonia e a nossa tendência embrutecida é, utilizando o nosso livre-arbítrio, fugir às regras e fazermos as coisas como nos apetece. À medida que vamos amadurecendo, vamos percebendo que o melhor é enquadrarmo-nos, essa é a forma de nos sintonizarmos com a energia universal. Se entrarmos em colisão com as leis universais e fizermos coisas prejudiciais a nós e aos que nos rodeiam a natureza acende-nos luzes vermelhas, e isso é o sofrimento. Quando estamos a sofrer é porque pensámos, dissemos, fizemos coisas incorretas.

Esta crise é um sinal de alerta.
Na minha perspetiva, sim. A humanidade focou-se no tal desenvolvimento fantástico tecnológico, científico, de domínio das coisas materiais e deixou para trás a vertente espiritual.

Alguns filósofos dizem que no século XXI, a humanidade poderá virar-se para o espiritual. Acredita que isso será possível ainda neste século?
Mais do que acreditar, desejo. Penso que, sobretudo, nas camadas mais jovens há gente muito boa. Não penso que o o caminho do esclarecimento venha de determinada religião, país, seita ou corrente de pensamento.

Não é religioso?
Não. Respeito completamente as religiões, fizeram coisas muito úteis para a Humanidade, mas fizeram, e ainda fazem, também coisas devastadoras, de domínio e embriaguez daquilo que é material e ao mesmo tempo de apoio àquilo que é conflituoso entre as pessoas e as nações.

Olhando para o governo, encontra espiritualidade na sua atuação?
O governo fez, nos primeiros dois anos, coisas muito importantes. Apostou em pagar a dívida, em levar os portugueses a apertar o cinto. Não era fácil, e isso foi feito. A credibilidade internacional foi reconquistada. Infelizmente, não foi feito, em paralelo, um trabalho de perspetivar o desenvolvimento económico, assumir uma perspetiva para o país a 10 ou 15 anos. Mas esta renovação do governo traz-nos pessoas novas com capacidade para fazer isso.

Como por exemplo?
Como o novo ministro da Economia, que tem estado nos últimos tempos a apontar que é esse o caminho. É muito importante pagar as dívidas, mas para pagarmos é necessário criar riqueza.

Tem havido o tal bom senso, equilíbrio e busca do caminho do meio de que tanto fala?
Quando olha para os membros do Governo, identifica que alguns não têm estado a cumprir, mas outros estão. Claro que é preciso coragem, bom senso e é preciso implementar reformas que são difíceis. Há pessoas que fazem as suas carreiras procurando servir e servir-se, há os que fazem procurando servir-se e os que fazem, sobretudo, servir. Se há algum sítio onde seja importante procurar servir é no governo e eu identifico, neste governo, um conjunto de pessoas que está ali para servir o país. Acredito que este governo terá condições. Será desadequado o excesso de pressão da população, dos sindicatos e da oposição.

O primeiro-ministro está incluído nesse grupo de pessoas?
Sim, este primeiro-ministro teve a coragem de assumir uma condução do seu governo não eleitoralista e está, desde o início, a arriscar não ter condições para ser reeleito.

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