Artwear: 100% português nas lojas dos maiores museus da Europa

Luís Pilar - Presidente da Art Wear

Fotografia de Diana Quintela
Texto publicado no Dinheiro Vivo, Diário de Notícias e Jornal de Notícias

Ainda não tinham tido tempo de se sentar e já estavam a ser avisados: “A Réunion des Musées Nationaux [o maior operador de museus do mundo, que gere, por exemplo, Versailles e o Louvre] fatura 55 milhões de euros por ano”. Sim, Luís Pilar e Duarte Lukas, os donos da Artwear, empresa portuguesa de merchandising de arte, tinham entendido bem a mensagem. O assunto era demasiado sério.

Os dois portugueses iriam passar a desenvolver e a produzir, em exclusivo, todas as peças de merchandising para o Museu d’Orsay, em Paris, nos próximos cinco anos. “Estamos a falar de um museu que vale muito mais do que Portugal inteiro neste negócio. Só o Museu d’Orsay tem quatro milhões de visitantes por ano e, segundo estudos feitos pelos franceses, 57% dos visitantes compram nas suas lojas, o que dá cerca de 2,2 milhões de atos de venda, não de produtos vendidos, de atos de venda, repare!”, explica ao Dinheiro Vivo Luís Pilar.

Em Portugal, o museu mais visitado é o dos Coches, em Belém, com aproximadamente 300 mil visitantes e, ao lado dos franceses, os orçamentos de museus e palácios para merchandising parecem surreais.

Entre a primeira reunião e as peças – canecas, chávenas, capas para iPhone e iPad, porta-chaves, lápis, magnéticos, ou t-shirts, entre outros formatos, 19 no total – chegarem às prateleiras do Museu d’Orsay passou um ano. A primeira encomenda – mais de 50 mil peças -, no valor de 160 mil euros, começou a ser vendida há quatro semanas e já começou a esgotar. “Nós não sabemos no que estamos metidos. Este negócio há-de representar muito para a Artwear, mas não conseguimos ter uma previsão do que representará este contrato ao longo dos próximos cinco anos. Estamos a trabalhar no desconhecido. Os franceses nunca tinham posto na mão de um único fornecedor uma linha inteira de merchandising”, adiantou Luís Pilar.

Na sua opinião e na do seu sócio, o designer Duarte Lukas, já seria muito bom assegurar três ou quatro encomendas destas por ano. O objetivo mínimo de
volume de negócios para este ano, considerando o profundo desconhecimento do que poderá representar o projeto do Museu d’Orsay, é de meio milhão de euros. A verdade é que pode ser muito mais, admite o gestor, pois a primeira
encomenda começou a esgotar ao final de poucas semanas e a loja principal do museu nem sequer estava aberta.

A empresa portuguesa, que nasceu em plena Expo’98 e chegou a ter lojas nos centros comerciais, conta agora com o melhor cartão de visita que alguma vez poderia imaginar. Ao Museu d’Orsay, seguiram-se o Thyssen-Bornemisza e o Prado, em Madrid, a Tate e o British Museum, em Londres, e o Van Gogh e o Rijsksmuseum, em Amesterdão. “Pretendemos chegar aos 50 maiores museus da Europa, ainda este ano. Temos muito mercado para explorar”, frisa o diretor-geral da Artwear.

E a parceria com a empresa pública francesa Reúnion des Musées Nacionaux é para desenvolver: “Disseram-nos que não estão satisfeitos com o fornecedor
de cerâmicas do Louvre. Imagine a escala. Para cada caneca, são 15 mil por boneco, ou seja, seriam 15 mil Mona Lisa, 15 Vénus de Milo, etc.”.

Mas para já os produtos portugueses ainda não entraram no museu mais visitado do mundo. A ideia é começar por Espanha e com a ajuda da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. À boleia da “deschinização” francesa A Artwear aposta na conceção e produção em Portugal. Da encomenda enviada para Paris, as canecas e chávenas foram feitas pela Spal e os lápis pela Viarco, por exemplo.

Segundo Luís Pilar, sem fundamentalismos, um dos desígnios da empresa é a sua portugalidade. Um facto que é, aliás, apreciado pelos franceses: “É ordem do Estado francês só contratar a compra de produtos na União Europeia. Eles estão a fazer a ‘deschinização, não compram nada à China.

Nós desenvolvemos um logótipo 100% produzido em Portugal e os franceses pediram-nos para aumentar o tamanho desse logótipo nas embalagens dos produtos”, explicou Luís Pilar.

Outra vantagem da oferta da empresa portuguesa, acrescenta, é a apresentação de um produto chave-na-mão, “chega-lhes tudo pronto”. Qualidade e competitividade no preço, claro, diz Luís Pilar: “Para ter uma ideia, nós vendemos a um e eles vendem ao público a quatro mais IVA”.As cerâmicas, os têxteis e parte dos cadernos são subcontratados, mas a empresa também assegura grande parte da produção das peças fornecidas nas suas pequenas instalações viradas para a Doca de Alcântara, em Lisboa.

Por exemplo, em 2012, a empresa produziu 60 mil cadernos e a maior parte foi feita em casa. Nas suas máquinas, cujo investimento rondou os 350 mil euros, produzem também as capas de iPad e de iPhone, os porta-chaves e os magnéticos.

Oito pessoas: “eu e o Duarte, que como costumo dizer, somos desde diretores-gerais a paquetes. Temos vários designers e a estrutura de produção gráfica”, explicou Luís Pilar. O gestor gostaria de poder alargar a equipa, mas a verdade é que a crise pesa, o crédito, mesmo para empresas como a Artwear, aperta, e, por isso, a tomada de riscos é criteriosa.

Os bancos não concedem crédito ao fornecedor de merchandising de arte do Museu d’Orsay? “Existem dificuldades de acesso ao crédito. Sinais dos tempos, a banca hoje em dia empresta 5 com um colateral de 10…”, critica o mesmo responsável.

O que a Artwear vive no Museu d’Orsay e nos outros museus europeus com os quais já trabalha é uma realidade bastante diferente da que existe em Portugal. Da realidade dos museus, onde não há visitantes, nem orçamentos para
merchandising de arte, mas também da do negócio livreiro, que constitui outro importante mercado para a empresa portuguesa.

A exportação, que já pesa cerca de 60% da faturação global, e tem tendência para crescer, compensa a situação que se vive em Portugal: “O mercado livreiro é terrível e está pior ainda do que Portugal”, adianta Luís Pilar, que admite que se não fosse o negócio com o Museu d’Orsay não estaria nada otimista em relação ao futuro.

Além dos museus e dos livreiros, a Artwear tem ainda o chamado negócio do corporate: Fazemos a agendas do BES, da PLMJ, estamos a a fazer projetos para a Jerónimo Martins, trabalhamos com muitos laboratórios farmacêuticos. Já fizemos cadernos para o Benfica. Este é um mercado muito importante para nós”, explica.

E no meio disto tudo há, claro, os artistas, parceiros de negócio, sem os quais
tudo seria brindes e merchandising, mas não de arte. Júlio Pomar, Vieira da Silva, Paula Rego, Amadeu de Sousa Cardoso, ou Joana Vasconcelos, por causa de quem tudo começou – os franceses viram o que Luís e Duarte fizeram para a exposição da artista plástica em Versailles e gostaram -, são alguns dos acordos garantidos pela Artwear.

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2 Comments on “Artwear: 100% português nas lojas dos maiores museus da Europa

  1. Pingback: Prado em Lisboa, made in Portugal | Sílvia de Oliveira, Jornalista

  2. Pingback: Dias abençoados | Sílvia de Oliveira, Jornalista

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