Os meus, os teus e os nossos

José Gameiro
(José Gameiro, fotografado para o jornal i, em abril de 2010)

Receita aviada na Farmácia de Serviço

Eu costumo apaixonar-me pelos meus entrevistados, posso nunca mais voltar a vê-los, mas nunca mais os esqueço. Aconteceu isso com o psiquiatra José Gameiro. Entrevistei-o, há uns três anos, quando ainda trabalhava no jornal i, só o vi uma vez, falámos durante um par de horas, mas eu, pelo menos, sinto que foi muito mais – cheguei até a ligar-lhe, bem mais tarde, num momento de aperto. E, ultimamente, tenho-me lembrado dele, por dois motivos. Por algumas coisas que ele me disse na entrevista, que pode ser relida aqui, e por causa do título de um livro seu, “Os Meus, os Teus e os Nossos”.

O motivo desta recordação são os filhos, a minha, o dele, no fundo, os nossos. Admito que, quando conheci o meu marido respirei de alívio quando soube que ele já era pai, ainda por cima de um rapaz de quase oito anos. Eu tinha uma rapariga, um pouco mais velha, por isso, havia aqui uma espécie de simbiose perfeita. O facto de ele já ser pai, retiraria aquela pressão – normal, admita-se – sobre a relação, de um dia virmos a ter um filho comum. Ambos já conhecíamos esse amor-maior, pelo que nos podíamos dar ao luxo de dizermos, um ao outro, que nos amamos mais do que qualquer outra coisa nesta vida, porque ambos sabemos que isso só é verdade depois do amor pelos nossos filhos. E há mais. A família ia aumentar, passaríamos a ser quatro à mesa, o Natal deixaria de ser só meu e da minha filha, um ano em Londres, outro em Amesterdão, outro não se sabe muito bem onde. No final, eu sabia, ganharíamos todos na liga dos afetos.

Eu antecipava alguns problemas, claro, não sou ingénua e, em tempos, a minha filha já tinha feito a vida negra a um ex-namorado meu. Em primeiro lugar, iríamos juntar duas pessoas que, ao contrário de nós, não se tinham apaixonado e não pediram para viver juntas. Iríamos pô-las a disputar o mesmo espaço, o mesmo sofá, a mesma televisão, os mesmos jogos, e isto tudo, com os respetivos pais a assistir e a intervir e a tentar a imparcialidade em causa própria. Podem imaginar, não podem?! E depois vieram as férias, e os ciúmes, as diferentes formas de educar, os fins de semana da minha filha com o pai e os do filho dele com a mãe, e as birras.

José Gameiro tinha razão quando dizia que, nestas relações, neste novo tipo de famílias, marido e mulher não têm aquele tempo, sozinhos, de adaptação, entram imediatamente na confusão. Cá em casa, já nos demos conta disso, mas também, de que cada um de nós tem, agora, três amores: um grande-grande-grande, um grande-grande e um grande. ❤

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