Votar em Portugal tornou-se praticamente igual ao litro

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

É verdade que, em teoria, nas Autárquicas, deveríamos concentrar-nos no local e guardar para depois os protestos em relação ao Governo, sob pena de não virmos a ter quem queremos à frente das nossas freguesias e concelhos. Mas, depois, na prática, sabemos que não é assim, que o significado do nosso voto acaba por ser uma mistura entre o nacional e o local. O que ainda não sabemos é qual será o peso, nestas autárquicas, do protesto no momento de votar. Qual será a importância de Passos Coelho ou de António José Seguro para um eleitor de Fernando Seara ou de António Costa? Qual será a percentagem de votos em branco, ou da abstenção? Haverá um recurso significativo do chamado voto útil?

Respostas, só domingo à noite, mas antecipo uma elevada abstenção. É uma sensação, que já explicarei, por isso, vale o que vale, mas primeiro, uma certeza: ficaremos longe dos níveis de participação das eleições do último fim-de-semana na Alemanha, onde 70% dos alemães reelegeram Angela Merkel.

Em primeiro lugar, porque as eleções do próximo domingo não são lesgislativas, depois, porque não nos está no sangue, não costumamos votar tanto, portanto, não há-de ser agora que o vamos fazer, mas também porque, por cá, não temos nada que nos mobilize assim. Os contribuintes alemães encontraram na chanceler, irredutível na austeridade com os países do Sul, a melhor defensora dos seus interesses. Já os portugueses têm em Passos Coelho, aquele que, nos últimos anos, lhes reduziu brutalmente o rendimento disponível.

Os eleitores portugueses estiveram nesta campanha eleitoral ainda mais desligados dos políticos e vice-versa. Debateu-se pouco e o costume, falou-se de segundo resgate, de reestruturação de dívida, de juros e da nossa condição de país que tão cedo não sairá da crise. Governo e oposição não mobilizam, talvez porque já ninguém acredite que possam fazer grandes coisas, que as grandes decisões dependam deles – dependem mais da Europa de Merkel.

Para os portugueses, votar em Portugal parece ter-se tornado praticamente igual ao litro. Se por absurdo, o nosso voto valesse na Alemanha, acredito que quase ninguém ficaria em casa, arriscar-me-ia a dizer que Angela Merkel conseguiria arrancar mais votos que Passos e Seguro juntos. Mas assim, este domingo chegará com a contra-programação da TVI, a estrear mais uma Casa dos Segredos, em plena noite eleitoral. Sinais dos tempos.

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