Porque temos tanto medo da economia?

Lisboa - Pedro Passos Coelho na abertura da convenção empresarial - Sobreviver e Crescer

Fotografia do dia de Vítor Rios/Global Imagens

Texto publicado no Dinheiro Vivo

O pessimismo e a desconfiança dos portugueses preocupa seriamente o primeiro-ministro, que lançou, esta terça-feira, um apelo aos economistas e comentadores: atenção às “simplificações enganadoras”.

Passos Coelho considera que a recessão portuguesa foi exponenciada pelas expectativas negativas dos consumidores em relação ao futuro e teme os efeitos deste sentimento na recuperação económica mas, terá sido, de facto, o medo dos portugueses um factor de peso nesta crise, e se sim, de quem foi a responsabilidade por tanto pessimismo e desconfiança.

António Nogueira Leite, antigo secretário de Estado e ex-vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, Marcelo Rebelo de Sousa, professor de direito e comentador político, e António de Sousa, antigo governador do Banco de Portugal e antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos, concordaram com a importância das expectativas, mas devolveram algumas críticas.

Primeiro, os factos. Até agora, a realidade superou as previsões em dois indicadores: a taxa de poupança das famílias foi muito superior à esperada e o consumo privado encolheu mais do que o previsto. Este comportamento da procura doméstica contribuiu e muito para a queda do PIB, aumentando as dificuldades da economia portuguesa.

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, concorda com o primeiro-ministro e diz que este programa de ajustamento, ao contrário dos da década de 80, fica marcado pela “queda das expectativas”, que levou à quebra da procura doméstica. E Passos avisa: “A forma como nos envolvemos no debate público e, refiro-me também aos economistas, pode ser muito importante para não criar um choque de expectativas demasiado negativo que comprometeria injustamente e desproporcionadamente os méritos e o sucesso do programa que estamos a concluir”.

Perante isto, Marcelo Rebelo de Sousa, Nogueira Leite e António de Sousa admitem a importância das expectativas no andamento da economia, mas devolvem os avisos à troika e, sobretudo, ao Governo e ao primeiro-ministro.

“O que houve de baixa de expectativas tem a ver com as políticas e o discurso do Governo. Acresce que, ao longo destes três anos, o Governo, ao querer ele próprio elevar as expectativas, apresentou muitas previsões que não se verificaram. A diferença entre o que era vivido e o que era anunciado levou os portugueses a um processo de maior desconfiança”, defendeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Na opinião do professor, os portugueses levaram a sério o discurso do Governo de que o nível de vida iria e deveria descer e, por isso, decidiram aumentar a poupança e cortar no consumo.

Também Nogueira Leite responsabiliza o Governo e as instituições interancionais pela má gestão de expectativas, agora enunciada por Passos Coelho. “Admito que a comunicação de todas as instituições, nacionais e internacionais, das quais se destaca o Governo e o Banco de Portugal, não tenha sido a mais profissional e isso influenciou as expectativas dos consumidores”, sublinhou o ex-vice-presidente da CGD.

Segundo defende, o “bota-abaixismo” dos comentadores, bem como a comunicação social, também não ajudou, mas foi o Governo, “a falta de eficácia da comunicação do Governo”, a principal responsável pelas más expectativas em relação ao futuro da economia portuguesa.

Apesar de concordarem com a importância das exectativas na economia, estes dois responsáveis alertam para o facto de a economia ser muito mais do que isso. “O Governo demorou demasiado tempo a reestruturar o Estado e fez cortes generalizados, dolorosos, pelo que as pessoas sentiram tudo diretamente na pele. É natural que começassem a achar o futuro terrível”, defendeu Nogueira Leite. A verdade, na sua opinião, é que “a governação não foi tão boa quanto as pessoas estavam à espera”.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, o mais relevante na recessão foi o facto de as medidas de austeridade terem ultrapassado aquilo que a troika e o Governo tinham previsto. “Ninguém tinha antevisto estes efeitos na economia portuguesa”.

Por outro lado, acrescenta o comentador da TVI, “os jornalistas e comentadores ainda não têm o poder de anunciar medidas de política económica, de aprovar orçamentos, nem de anunciar recuperações económicas. Esse poder ainda é dos políticos. Se os jornalistas e comentadores ampliaram esses efeitos dos atos dos políticos, convém não esquecer que tudo começou nesses mesmos atos”, concluiu Marcelo.

Já António de Sousa diz não poder estar mais de acordo com Passos Coelho e com Carlos Costa. “Ficamos mais medrosos com o que ouvimos e com o que vimos, por isso é que não gosto de falar destes assuntos com a comunicação social”, disse.

O antigo governador do Banco de Portugal diz ter idade suficiente para se lembrar da crise dos anos 80 e de não ter existido tanto pessimismo como agora. “Na altura, houve salários em atraso, mas as coisas eram diferentes, não havia internet, não existia o consumo de informação que há hoje. Efetivamente, desta vez, a reação das pessoas foi muito pior do que o que se esperava”. A título de exemplo, António de Sousa relembrou o caso da TSU, que ocorreu há cerca de um ano.

Este professor preferiu não atribuir responsabilidades: “Seguramente terão existido erros de várias partes para este pessimismo acelerado”, admitiu.

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