As melhores toalhas do mundo são feitas no Dão

Reportagem na Quinta de Lemos

Artigo publicado no Dinheiro Vivo
Fotografia de Sara Matos/Global Imagens

Veja aqui o vídeo da reportagem na Quinta de Lemos

São 50 hectares – 25 de vinha e oito de olival – apertados entre a Serra da Estrela e a Serra do Caramulo, em pleno Dão. É a terra de Celso Lemos, o industrial do têxtil que aos 18 anos fugiu à tropa e a uma carreira de futebolista (jogava no Sporting) para emigrar para a Bélgica e aí começar a construir o grupo Abyss & Habidecor. O melhor cartão de visita para vender e “partilhar Portugal”, explica ao Dinheiro Vivo o seu filho, Pierre Lemos.

Na Quinta de Lemos, que nasceu em 1997, produz-se vinho, azeite, mel, vegetais, existe um restaurante que funciona há seis meses, três suites luxuosas, uma piscina interior e outra exterior, um corte de ténis e um heliporto. A garrafeira, que contará com as principais referências de todo o mundo, está a ser montada.

Tudo pronto para receber a família, os amigos e, claro, os clientes. Nas semanas anteriores à entrevista ao Dinheiro Vivo, passou por lá uma delegação dos Estados Unidos e outra do Harrod’s, conhecidos armazéns londrinos onde o grupo português vende os seus produtos: toalhas e tapetes de casa de banho, robes, lençóis.

“O meu pai emigrou para a Bélgica – onde depois conheceu a minha mãe – para estudar têxtil. Até aos 30 anos trabalhou em vários sítios ligados ao sector e à indústria química, porque ele é engenheiro químico. E aos 30 anos decidiu que queria trabalhar na sua terra e fazer um produto português.

Voltou para Portugal e começou a empresa dele com duas pessoas – a D. Isabel e o Sr. Aníbal -, na cave da casa dos seus pais, em Viseu”, explicou o filho, Pierre Lemos. Hoje, a Abyss & Habidecor emprega 200 pessoas nas duas fábricas (Tondela e Viseu) e fatura cerca de 15 milhões de euros. E é lucrativa. “Sim, é, mas esses dados nós não gostamos de partilhar. Mas, posso dizer-lhe que é uma empresa totalmente autónoma, não existe nenhum banco por trás”, explica Pierre, de 37 anos, já nascido na Bélgica.

E a crise económica afetou o grupo português? “Nem por isso. Em alguns países sim, noutros não, mas como se trata de um negócio de nicho, de qualidade, nem por isso. Os últimos anos até foram muito bons para nós”, responde Pierre Lemos, que trabalha diretamente com o seu pai nas empresas do grupo. Aliás, trabalham todos: as duas irmãs, tios, primos – “somos uma grande família, um team, e temos um coach, como costumamos dizer, que é o meu pai”.

O sucesso do negócio resulta, entre outros aspetos, de uma aposta forte na exportação – a Abyss & Habidecor só vende 15% da sua produção em Portugal. Nas boutiques e lojas especializadas, como a Paris em Lisboa, no Chiado, ou no El Corte Inglés já que a ideia nunca foi vender nos hipermercados ou grandes armazéns. O resto é vendido em todo o mundo. O mercado mais importante para o grupo português são os Estados Unidos, onde conta com um escritório de representação e 22 agentes, mas a Abyss & Habidecor também vende na China, na Turquia, no Brasil, no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos e um pouco por toda a Europa. “Temos cerca de 50 lojas próprias espalhadas por todo o mundo e agentes em todos os países onde estamos presentes”, contou Pierre Lemos durante a entrevista ao Dinheiro Vivo.

Além da aposta no mercado externo, também a escolha feita por Celso Lemos, há 35 anos, pelo segmento de luxo, protege o grupo da recessão económica. “O nosso compromisso é, desde o início, com o made in Portugal e com a qualidade. Por isso, os nossos fios são caros, mas os melhores. O nosso fornecedor de fios para os tapetes é o mesmo há 30 anos”, explicou.

O algodão para os tapetes é importado da Índia, o das toalhas e lençóis, vem do Egito, já o linho é comprado em França e na Suécia, a seda vem da Ásia e a caxemira da Mongólia. Acresce à qualidade da matéria-prima, um controlo absoluto da cadeia de produção. “A maior parte dos grupos manda fazer na China ou na Índia; nós não. Até a caixa chegar ao nosso cliente, é tudo trabalho nosso e isso permite uma grande flexibilidade, ao nível da personalização”, frisa o gestor.

A Abyss & Habidecor tem 1500 clientes – “Um trabalho de formiga!”, diz -, “todos preciosos”. Entre os hotéis de luxo, estão na lista o sete estrelas Burj al Arab, no Dubai, o The Plaza, em Nova Iorque, e o Mandarim, em Hong Kong. Além do El Corte Inglés, em Espanha e Portugal, e do Harrod’s, em Londres, os produtos do grupo liderado por Celso Lemos estão também à venda no Lufthansa Shopping Centre (Pequim), no Lane Crawford (Hong Kong), no ABC (Nova Iorque), e no Bloomingdales (nos Estados Unidos), entre outros lugares topo de gama. Em Itália, por exemplo, a Abyss & Habidecor trabalha diretamente com a Trussardi.

E de volta à Quinta de Lemos e ao vinho, que também já é negócio. Hugo Chaves já consegue produzir 100 mil garrafas por ano, sobretudo, tinto. “Começámos a comercializar a nossa marca há dois anos. Os nossos vinhos só são vendidos cinco anos após o ano de colheita. Em breve, começará a ser vendida a colheita de 2009”, explicou o enólogo. Mais uma vez, a ideia não é chegar às massas.

Segundo Pierre Lemos, o objetivo é ter vinte países e vender cinco mil garrafas por país. “Neste momento, já vendemos na Suíça, na Áustria e na Alemanha. Nos Estados Unidos estamos a começar, mas vendemos, essencialmente, na Europa”, sublinhou. O preço de venda ao público de cada garrafa varia entre os 15 e os 35 euros e, em Portugal, pode ser encontrado em algumas garrafeiras e, mais uma vez, no El Corte Inglés.

Quanto ao restaurante, que ainda não foi batizado e está em funcionamento há seis meses, está a cargo do chef Diogo Rocha. A inspiração é também na comida, em Portugal e na qualidade. A decoração do restaurante, que deverá abrir ao público mediante reserva e aos fins de semana a partir de fevereiro, foi feita por Nini Andrade Silva, contando ainda com obras do escultor Paulo Neves, que também é responsável pelas camas das três suites. “As pessoas saem daqui encantadas. Dormem aqui, provam a nossa comida e o vinho da quinta, e ao mesmo tempo testam os nossos têxteis”, admite Pierre Lemos. E fazem-se mais negócios? “Não sei… Não consigo responder a essa questão.”

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