A verdade ficava melhor a Seguro

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Há declarações incompreensíveis, formas inúteis de fazer oposição. Mais do que todo o populismo, a que os partidos nos habituaram, o que mais custa é quando, em política, se opta pelo caminho da desinformação. E tem sido esse, infelizmente, o caminho seguido pelo PS de António José Seguro.

Ainda agora, a propósito das declarações de António Pires de Lima, em Londres, sobre o suposto programa cautelar que Portugal se prepara para negociar no início de 2014 com os seus credores (troika), o líder socialista volta, propositadamente, a confundir os portugueses.

Não sei qual é a ideia. Conseguir mais votos? Não me parece que esta estratégia, indecente, dê resultados. Seria tão mais fácil aproveitar, de forma honesta, o descontentamento – enorme – existente em relação às políticas deste Governo.

Mas enfim, de política saberá, ou não, Seguro. Eu proponho-me apenas contribuir para a informação geral, coisa que o secretário-geral do PS e o seu partido têm desprezado. Um programa cautelar não é a mesma coisa que um segundo resgate.

É óbvio que o ideal seria que, em junho do próximo ano, quando terminar o programa de ajustamento, o país se conseguisse financiar nos mercados sozinho, sem qualquer ajuda. Mas, perante a ínfima probabilidade de isso ser possível, porque é que é preferível um programa cautelar a um segundo resgate?

1. Austeridade imposta pelos credores será maior no caso do resgate
Um segundo resgate é um programa de ajustamento semelhante ao primeiro e, como tal, significaria que o atual programa correu muito mal e que a República não se consegue financiar nos mercados. Perante isso, não restava outra alternativa ao país, senão pedir mais dinheiro à troika, mediante a imposição de mais duras medidas de austeridade.

Já um programa cautelar é a disponibilização de uma linha de crédito de prevenção. Ou seja, os credores disponibilizam a Portugal dinheiro, em caso de necessidade, no caso de o país não se conseguir financiar no mercado a preços comportáveis. Trata-se de uma espécie de seguro, de uma rede, a acionar em caso de necessidade.
No caso do programa cautelar, os credores também tenderão a impor condições, por forma a garantir que Portugal continuará no caminho da disciplina orçamental, mas serão menos intrusivas do que as impostas no caso de um segundo resgate.

2. Programa cautelar cola Portugal à Irlanda e não à Grécia
A Irlanda concluirá no próximo mês o seu programa de ajustamento, sendo de prever que, também nesse momento, arranque com o seu programa cautelar. Um caso aplaudido pelos mercados e ao qual Portugal terá toda a vantagem em se colar. O contraponto é a Grécia, que enveredou pelo resgate. É uma questão apenas de perceção, já que Portugal não é a Irlanda, nem a dívida pública portuguesa é a dívida pública irlandesa, mas a imagem e a política também contam nos mercados.

3. Segundo resgate mantém políticas do Governo mais dependentes da troika
Um programa cautelar não significa a liberdade total para Portugal, já que os credores só disponibilizarão dinheiro a Portugal a juros mais atraentes mediante condições. A disciplina orçamental e as reformas terão de prosseguir, mas a presença da troika será menos intrusiva na definição das políticas económicas do Governo.

4. Programa cautelar imprime maior confiança aos consumidores, empresas e investidores
E, não menos importante, o programa cautelar imprime uma maior confiança na economia do que um segundo resgate. Se os credores confiam mais, ou pelo menos, demonstram mais confiança no país, é natural que os agentes económicos – consumidores e empresas – também confiem mais na economia.
O mesmo poderá acontecer com os investidores estrangeiros, podendo facilitar a captação de investimento estrangeiro para o país. Os efeitos na economia poderão, por isso, ser positivos. Um segundo resgate será, obviamente, pior do que a situação que vivemos atualmente.

Ora, Seguro sabe disto tudo. O secretário-geral do PS sabe que, se Portugal conseguir, de facto, negociar um programa cautelar – nada garantido, ainda, já que, quando falava de começar a negociar, Pires de Lima vestia um fato de “vendedor de dívida” em Londres -, isso será preferível a um segundo resgate. Trata-se de ajuda externa, na mesma, sim, não ficamos livres, não, mas há diferenças. A verdade fica sempre bem.

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