Não se pode planear o futuro da Bolsa pelo seu passado

Entrevista - Abel Sequeira Ferreira

Texto publicado no Dinheiro Vivo
Fotografia de Diana Quintela

Desde pequeninos que ouvimos falar sobre a urgência de promover a bolsa de valores portuguesa, somos sensibilizados para a urgência de dinamizar o mercado de capitais e de o transformar numa verdadeira alternativa de financiamento para as empresas, isto tudo numa economia que vive excessivamente dependente dos bancos.

Se ouvirmos, hoje, o discurso de quem vive no mercado, percebemos que pouco mudou em relação ao início do milénio, ou até antes. Não mudaram as queixas, o diagnóstico, nem as supostas soluções, aliás, não mudou praticamente nada.

Em 2008, existiam 73 empresas cotadas na Bolsa de Lisboa, hoje são menos 10. O número de negócios realizados e o correspondente volume negociado baixou e muito: no final de 2008, o volume de negociação aproximava-se dos 55 mil milhões de euros, contra pouco mais de 20 mil milhões, no final do ano passado. E, destes, uma enorme fatia corresponde à negociação dos títulos da Galp, PT, EDP e BES. Sempre as mesmas empresas.

E a crise não é desculpa para tudo. No ano passado, o PSI 20, o principal índice da praça nacional, registou a segunda pior performance entre os principais mercados europeus, logo a seguir a Madrid. O indicador valorizou-se 2,9% face a 2011 (Frankfurt ganhou mais de 29%, Dublin 23,6%, Paris 15,2%, Atenas 14,7%, Milão 6,6% e Londres 5,8%).

Se recuássemos mais uns anos, até à época do capitalismo popular, por exemplo, a comparação seria ainda mais deprimente.

É, por isso, caso para perguntar se ainda vale a pena traçar planos, delinear estratégias, ou se estamos destinados a um mercado pequeno de um país pequeno?

“Ainda que a nossa avaliação da performance do mercado de capitais, nos últimos anos, não seja a mais positiva, isso não deve levar a considerar que podemos prescindir de uma bolsa eficiente, com profundidade e liquidez”, afirmou Abel Sequeira Ferreira, o presidente da AEM, a associação que reúne as empresas cotadas no mercado português.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, este responsável considera fundamental a existência “de uma bolsa nacional, eficiente e que cumpra a função essencial de encontro entre as empresas e os investidores”. A bolsa, acrescenta, “pode e deve ser o coração de um ecossistema financeiro que, no futuro, deverá ser necessariamente baseado, não na monocultura de financiamento bancário, mas numa diversificação das fontes de financiamento. E, sublinha Abel Sequeira Ferreira, “o mercado de capitais é o mecanismo que melhor permite o encontro entre os investidores de longo prazo e as necessidades de investimento de longo prazo das empresas”.

Mas se é assim porque é que pouco ou nada aconteceu? Porque, segundo Abel Sequeira Ferreira, a bolsa precisa de criar condições para as empresas que já estão cotadas quererem manter-se cotadas e, sobretudo, para atrair novas empresas. “Não podemos continuar a dizer ‘está aqui a bolsa, as empresas é que não vêm para a bolsa’”, frisa o presidente da AEM. Na sua opinião, há que trabalhar do lado dos custos, no sentido de os reduzir o mais possível, por forma a não serem um impedimento para as empresas – “o que ainda acontece” -, há que desburocratizar – rever as exigências feitas às cotadas -, e há também que criar incentivos, fiscais e não só, para que as empresas valorizem o caminho que têm que fazer para estar na bolsa. E, não menos importante, há ainda que calendarizar o esforço necessário e criar mecanismos de avaliação.

E, depois, têm que ser envolvidos todos os atores que participam no financiamento às empresas, que terão que se comprometer com resultados.
Os bancos, exemplifica Abel Sequeira Ferreira, os grandes concorrentes da bolsa, não podem ficar à margem deste processo. Fará sentido, por exemplo, que o próprio crédito bancário se torne mais barato para as empresas que optem por fazer um caminho de preparação para a entrada em bolsa. É-lhes exigido um maior grau de sofisticação para cumprir os requisitos de admissão ao mercado de capitais: “Se as empresas forem fazendo o seu trabalho e tiverem como incentivo financiamento mais barato, prosseguirão esse caminho. Se depois, existirem mais alternativas de financiamento, a empresa estará preparada para escolher e aí terá que ser a bolsa a demonstrar que o mercado de capitais tem vantagens”, explicou o presidente da AEM. E os bancos também têm vantagens, porque empresas mais sofisticadas tornam-se melhores clientes.

Mas, avisa Abel Sequeira Ferreira, não basta o governo aprovar algumas medidas para emendar tudo o que não foi feito pelo mercado de capitais, “o que precisamos é de ter um plano estratégico, que inclua, desde logo, objetivos e desígnios – e o desígnio deve ser o de que o mercado de capitais deve estar ao serviço da capitalização das empresas.

Agora, que a economia começa a dar sinais de recuperação, é o momento certo para emendar os erros: “Não haverá crescimento sem empresas e economia privada e não haverá empresas e economia privada sem investimento e, portanto, teremos que, forçosamente, encontrar investidores de longo prazo. E é necessário termos as estruturas capazes de fazer esse encontro, entre as empresas e os investidores, ou seja, um mercado de capitais”. Isto tudo, num momento de restrições ao crédito bancário e em que a sociedade percebeu que não pode estar unicamente dependente dos bancos para sobreviver.

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