Tão modernos que nós somos

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Hoje, está na moda dizer que o capital não tem pátria, nem cor, raça ou credo, porque aquilo que move qualquer empresário ou gestor é sempre a maximização do lucro. Por isso, dizem os modernos, tanto faz ser chinês, francês, norte-americano, angolano, espanhol, ou português, querem todos o mesmo: investir dinheiro para conseguir mais dinheiro. E nesta espécie de ciclo virtuoso ganhamos todos.

Ora eu, antiquada me confesso. Fico triste com o facto de o cinema Londres deixar de existir para ser transformado numa loja de chineses, motivo de levantamento nacional no Facebook, mas fico muito mais preocupada com a venda de um terço do mercado segurador português a um grupo chinês.

Podem recuar já os que desatam a chamar racistas aos outros, que discordam desta lógica liberal, que nunca nenhum governo encarnou tão bem em Portugal. Não se trata de nada tão simples, deem-me o benefício da dúvida e não me julguem tão básica.
É que, para mim, a venda de uma empresa a outra não é a mera troca de capital corpóreo por capital incorpóreo. A convicção de que a nacionalidade do capital não interessa é ignorar a importância do poder e de outros fatores que influenciam os negócios, como questões culturais e geo-políticas.

Os negócios não são feitos apenas de decisões económico-financeiras, os gestores não são máquinas, independentes do mundo que os rodeia, programados apenas para lucrar. Aliás, a própria lógica do lucro é redutora, é curta, é de curto prazo.

Se na Suécia ninguém teme, para já a perda do centro de competências da Volvo, entretanto adquirida pela chinesa Geely, devido à elevada qualificação dos trabalhadores daquele construtor automóvel, o mesmo não se pode dizer sobre outros negócios em outros países. A francesa Danone, por exemplo, já se desfez de várias fábricas na Europa.

Por tudo isto, o capital tem pátria e muito mais. E só uma lógica de urgência pode justificar negócios decididos apenas com base no encaixe financeiro, sem olhar a muitas outras questões, como a nacionalidade dos investidores.

No caso concreto de Portugal e dos chineses, que já entraram no capital de empresas tão relevantes como a EDP e a REN, e acabam de comprar o negócio segurador do grupo estatal Caixa Geral de Depósitos, cá estaremos para avaliar as decisões deste governo. No caso da EDP, começámos mal: a China Three Gorges tinha, diz o governo, prometido um investimento numa fábrica de turbinas eólicas, mas afinal, diz a empresa chinesa, essa fábrica não passa de uma possibilidade, que agora não faz sentido por não existirem condições de mercado.

Este governo tomou decisões importantes, vendeu uma série de participações em empresas nacionais a investidores estrangeiros e promete vender mais, convictamente, tomou decisões irreversíveis, e jamais será esquecido por isso. E eu, eu só espero que se tenha munido de todas as certezas e mais algumas antes de ter decidido, eu só desejo que seja verdade que a lógica da urgência do encaixe financeiro, a que nos habituou, não se sobrepôs a outros aspetos mais importantes.

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