O que mais me custa nem é o Miró

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Eu desprezo todos os argumentos utilizados por quem não entende porque os 85 quadros de Joan Miró devem ficar em Portugal e, por isso, já nem vou perder um único minuto a tentar convencer ninguém do contrário. Quero, isso sim, aproveitar o episódio à volta da coleção do pintor catalão para chegar ao que mais me interessa – e aí sim, não me cansarei, pode ser que consiga avisar mais alguém -, mas, dizia eu que o que mais me preocupa (verdadeiramente) são as vistas curtas deste governo e os efeitos destrutivos das suas políticas no país e na sociedade portuguesa.

Não critico a necessidade de cortar na despesa e a imposição de austeridade, porque não sou dos que não entendem o trajeto feito e achavam possível continuar a viver como até aqui. Sim, é óbvio, que não poderíamos continuar a gastar o que não temos e que também é muito importante pagar o que devemos.

Falo antes da incompetência de um governo que perante um caderno de encargos difícil, sem dúvida, imposto pelos credores, faz tudo da maneira mais fácil, sem critério – ou melhor, com um único critério, o financeiro -, e sem pestanejar.

Falo de um governo que tem um secretário de Estado da Cultura que chantageia os portugueses, dizendo que se estes quadros não forem vendidos, serão necessários mais cortes na despesa com a Saúde e com a Educação.

Falo, precisamente, de um governo cujo ministro da Saúde se limita a lamentar que as filas de espera para realizar uma colonoscopia resultem em casos de pacientes com cancros inoperáveis.

E falo de um governo que elegeu como prioritária mais uma série de investimentos em obras que terão, afinal, uma comparticipação de fundos comunitários muito inferior à que anunciou.

Resumindo, falo de um governo que vive alheado dos problemas cada vez mais graves dos cidadãos do país que governa, como se esses fossem uma inevitabilidade da governação, como se estas dores fossem meros acidentes de percurso, males necessários de um processo de ajustamento que acatou religiosamente.

Não esperava que fosse o governo de Passos Coelho a acabar com o desemprego e com a pobreza em Portugal, tanto mais que a crise que ainda se vive foi tudo menos suave, mas o que me espanta, cada vez mais, neste governo, é a profunda frieza com que corta despesa, salários e pensões, a insensibilidade com que sacrifica os portugueses em troca de décimas. O que me choca neste governo é a sua sobranceria, as suas convicções e certezas absolutas. O que mais me custa neste governo é, afinal, a sua ideologia.

PS. O valor da dívida pública portuguesa no final de 2013 era superior a 204 mil milhões de euros. O valor esperado para a venda dos 85 quadros de Miró era de 36 milhões de euros.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: