“Não é saudável que uma pessoa ou duas mandem num banco”

Entrevista - Carlos Rodrigues

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

Em 1983, Carlos Rodrigues era o responsável do primeiro banco privado a operar em Portugal depois da revolução, o norte-americano Manufacturers Hanover. Este banco, que mais tarde passou a chamar-se Chemical, tornou-se no primeiro credor estrangeiro da República portuguesa e dos bancos nacionais. Com a venda do Chemical Portugal ao empresário António Champalimaud assume a liderança do negócio da banca de investimento do grupo Sotto Mayor. Em 1999, fundou o BIG – Banco de Investimento Global, do qual é um dos principais acionistas.

O BIG lucrou, em 2013, quase 60 milhões de euros, mais 82% do que em 2012. O produto bancário e a margem financeira também melhoraram. O que faz do BIG um caso diferente do resto dos bancos nacionais, que atingiram, no ano passado, prejuízos recorde?
Só lhe posso dizer aquilo que o BIG faz. Penso que temos beneficiado de ter mantido uma constância de vida profissional, que é a de nos definirmos como um banco de investimento e poupança. Daí decorre que a construção do nosso balanço seja sempre feita a começar do lado direito do balanço, com os depósitos. E depois não fazemos nenhum investimento que dê ganhos extraordinários, se levar a que assumamos riscos com os quais não nos sentimos confortáveis. Sobre o que nos diferencia, o sistema tem sido o mesmo, primeiro no Manufacturers e agora no BIG, que é o de construir um ativo sólido, resistente a crises. Só controlamos uma parte dos fatores que afetam o nosso negócio, tentamos geri-los o melhor possível. Operamos sempre com altos níveis de capital e somos muito conscienciosos sobre os ativos que pomos no balanço, reconhecendo que a maior parte dos ativos não pertence aos acionistas, como noutra empresa qualquer. Por isso, 2013 é resultado daquilo que fizemos bem em 2013, mas também, e muito, o resultado daquilo que não fizemos mal nos anos anteriores.

Mas o facto de não se dedicarem ao retalho de massa, de apostarem no online, serviços de investimento e poupança é a razão dos resultados?
Não é por não nos dedicarmos ao retalho, porque hoje o maior investimento é no retalho, estamos a abrir a 15.ª agência. Sempre acreditámos que as agências deveriam ser um complemento para as coisas mais específicas e mais complicadas, que deveriam dar uma ajuda ao negócio de retalho online. Estabelecemos a primeira plataforma online do BIG em 1999 porque aquilo que nos parecia é que os produtos comoditizados – depósitos, transferências, compra de obrigações ou de ações — poderiam ser comercializados, com a internet, de uma forma muito mais eficiente, muito menos custosa, muito mais controlada, do que através da intervenção humana. Investimos no retalho, não temos é uma rede muito grande. Causou-nos estranheza ver redes de retalho basicamente a duplicar o número de balcões num período não muito longo, quando o produto nacional bruto não cresceu assim muito e a população infelizmente também não cresceu. Houve uma momento em que se achava que abrir muitas agências aumentava o valor do banco e o facto de não termos ido por aí talvez nos tivesse ajudado. Somos algo maníacos do controlo da qualidade do crédito e dos ativos que pomos no balanço, mas isso só deriva do receio que temos quando estamos a lidar com ativos que pertencem a terceiros. Isso leva-nos a que sejamos algo conservadores.

Mas, entretanto, começaram a abrir agências. Isso não é contrário ao espírito inicial de que, ao evitar a despesa associada aos balcões físicos, consegue oferecer preços mais competitivos. Isso não compromete o modelo de negócio original?
Não, é complementar. A maior parte dos nossos clientes funciona e opera na plataforma online, mas há produtos, dúvidas e aconselhamento que eles preferem que seja prestado pessoalmente. Temos dado conta da complementaridade que existe entre os dois canais e, por isso, continuamos a abrir balcões. Aquilo que fazemos, no entanto, é abrir agências onde há uma densidade de clientes tal que justifica uma presença física.

Quais são os vossos planos para a abertura de balcões?
Temos agências de Braga a Évora. Achamos que, em Lisboa, poderemos abrir três ou quatro; no Porto também temos espaço para mais duas agências e talvez no interior, a pouco e pouco, vamos abrindo mais uma ou duas, principalmente a norte. Abrimos novas agências se tivermos a densidade de clientes que o justifique.

E o BIG, por força da sua segmentação e dimensão, poderá ter limitações ao seu crescimento. Pressente algum impasse?
Pensamos nisso todos os dias. Temos o banco dividido em duas grandes áreas, uma é a banca de particulares e retalho, a outra é a banca para empresas e institucionais. E no retalho, investimos mais, não só em agências, mas em plataformas informáticas. É por isso que, com as perto de 200 pessoas que temos, a área de de-senvolvimento informático é absolutamente chave.

Mas tem espaço para continuar a crescer?
Este é um modelo muito aberto e muito flexível. Desde que começámos, em 1999, as nossas fontes de receitas têm oscilado. No primeiro ano ou dois foi uma mistura de resultados de operações financeiras, corretagem, banca de empresas. Com a crise, primeiro com a bolha das dotcom, em 2000, e agora ultimamente, depois do programa de resgate, a área das empresas e institucionais não contribuiu tanto quanto esperaríamos. Hoje ela já se está a expandir. Todos os dias ajustamos a nossa oferta, dependendo das oportunidades e dos riscos.

O BIG tem uma estrutura acionista bastante diversificada e resultados positivos. A conjugação destes dois factos desperta o interesse de investidores, nomeadamente estrangeiros, no banco, eventualmente até para tomar uma posição dominante?
De vez em quando ouvimos algumas coisas. Mas, desde o princípio, aquilo que presidiu à formatação da estrutura de capital do BIG foi, fundamentalmente unir vontades de pessoas que partilham a mesma visão sobre a banca e essa visão sobre a banca tem alguns valores. Um desses valores é que eu não acredito que uma licença bancária deva ser atribuída a um indivíduo que se levanta de manhã e pode mandar tudo no banco. Penso que deveriam existir limitações à detenção de capital, porque um banco é uma empresa que tem algum interesse público.

Mas existem limitações à detenção de participações em capitais de bancos.
Mas não existem limitações a uma pessoa, ou duas juntas, controlarem 50% do capital e é disso que estou a falar. Não estou a dizer que há algum mal nisso, eu não acredito que seja saudável que alguém se levante e mande no banco.

Está a lembrar-se de algum caso concreto?
Não estou. Hoje temos quatro acionistas com posições entre os 10% e os 12%, ligados a António Rodrigues, da Simoldes, à Bulhosa Adger, à World Wide Capital, cujo acionista é o general Kopelipa, e eu próprio. E depois uma minoria de pessoas que são acionistas porque se juntaram a nós naquela altura. Temos cerca de 150 acionistas e, portanto, ninguém manda no banco. Esse é o modelo. Não temos tido necessidade de pensar em abertura de capital em bolsa. 2013 será o 10.o ano consecutivo que pagamos dividendos. E a nossa média de pagamentos de dividendos é de 35%, o que quer dizer que retivemos 65% para aumentos de capital. Há 13 anos que não fazemos aumentos de capital e, mesmo assim os nossos rácios de pagamento de dividendos são dos mais altos. A única rubrica que é de facto muito maior que os dividendos é a dos impostos. Este ano pagaremos quase 24 milhões de euros de IRC.

Ainda sobre a estrutura acionista, o BIG tem acionistas angolanos, ligados a José Eduardo dos Santos.
Não conheço ninguém ligado ao presidente angolano.

O general Kopelipa é o chefe da casa civil do presidente angolano.
Sim, mas acho que é uma personalidade por ele próprio.

O vice-presidente angolano Manuel Vicente, apontado como sucessor de José Eduardo dos Santos, já foi acionista do BIG. Qual tem sido a influência e o papel destes acionistas na condução da estratégia do banco? A preponderância de investidores estrangeiros, nomeadamente angolanos, nos principais bancos e grandes empresas preocupa-o?
Não nos preocupa nada, antes pelo contrário, temos muito orgulho nisso. Foram pessoas que nos solicitaram se poderiam juntar-se a nós neste projeto, juntaram-se, têm sido absolutamente não interventivas. Como o modelo é o de que nenhum acionista, a começar por mim, tem poder para o influenciar, a única coisa que posso dizer é que estamos muito contentes que eles sejam acionistas, não há o mínimo de interferência e a remuneração tem sido razoavelmente boa para o investimento que fizeram. Uma das maiores vantagens competitivas que temos, como país, são as relações, e as vantagens competitivas que derivam de Portugal ter, não só uma história e uma cultura, mas também um conhecimento desses países amigos, muito melhor do que qualquer outro país do mundo. E issodeve ser, não só motivo de orgulho, mas também um incentivo para cultivarmos essa partilha de experiências e essa história comum. Não devemos usar essas relações com qualquer outro tipo de sentimento que não seja o de nos regozijarmos por termos essas relações com o Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e outros.

O mandato dos órgãos sociais terminou no final do ano. Está à frente do BIG desde a fundação, já lá vão 15 anos, e a imagem do BIG confunde-se com Carlos Rodrigues. Vai ser reconduzido?
Não, isso é uma injustiça muito grande. Sou apenas o primeiro responsável por uma equipa multifacetada e que, em parte, trabalha junta há quase 30 anos.

Mas gostava de continuar?
Provavelmente continuarei, se tiver saúde, porque as minhas conversas e a minha interação com os acionistas é de modo a continuar. Não vale a pena estar aqui a dizer o contrário, não é uma grande surpresa. Poderá ser que alguém tenha outras ideias, mas se os acionistas quiserem, obviamente que continuarei e suponho que a equipa que está comigo também.

Em junho, o BIG interpôs uma ação no Tribunal de Propriedade Intelectual contra o BIC, presidido por Mira Amaral, por alegadas semelhanças de imagem do banco que comprou a rede de balcões do BPN. Em que fase é que está o processo?
Francamente, acho que não está em fase nenhuma. É um caso muito simples. Temos o nome BIG e temos um símbolo com determinadas cores e penso que é um caso que deverá ser resolvido rapidamente.

Resolvido com um acordo entre as duas instituições?
Há uma confundibilidade de nomes, de cores e de fonética e, portanto, pensamos que isso no mercado bancário não interessa a ninguém. Não nos interessa a nós, não interessará a eles, cada um tem a sua identidade.

Mas o que é o BIG pede?
Não conheço o processo, que foi posto pela área de marketing, mas é fundamental que haja alguma separação.

Quer impor alterações à imagem do BIC?
Aquilo que queremos é ter uma marca registada que não seja confundível com outra marca que vem depois. Pedimos que essa situação não persista, é só isso. Achamos que não devem haver entidades confundíveis no mesmo sector de negócio, e portanto aquilo que peço é que não haja essa confundibilidade. Agora mais do que isso não me pergunte, que não faço ideia nenhuma. E não é nada que nos tire o sono, é uma coisa simples. Continuamos a dar-nos muito bem com banco BIC e com o engenheiro Mira Amaral, mas continuamos a acreditar que essas coisas não devem ser confundíveis.

A banca portuguesa teve, em 2013, prejuízos superiores a 2 mil milhões de euros. A Associação Portuguesa de Bancos prevê que apenas em 2015 os bancos voltem aos lucros. Quais são as suas expectativas sobre o futuro do negócio da banca em Portugal?
Espero que mais bancos tenham lucros em 2014 do que no ano passado. Atravessamos um momento dificílimo pós-2008, agravado, e muito, pelas condições que foram criadas com o programa de resgate e que afectou muito as nossas empresas, principalmente aquelas que tinham o mercado doméstico como compradores dos seus produtos e serviços. Portanto, houve um número completamente anormal de falências, de dificuldades de estrutura financeira, que levaram a que muitas não pudessem honrar os seus compromissos, afetando, por consequência, as contas dos bancos. Tem sido feita uma limpeza notável nos balanços das instituições e tem havido também um forte movimento de recapitalização, seja através da venda de ativos, seja através de uma desalavancagem. Havia, de facto, uma alavancagem excessiva na banca em Portugal, como, francamente, acho que há alavancagem excessiva em toda a economia. Ainda há e muito. As pessoas têm uma ansiedade grande de saber se o dinheiro vai voltar a fluir outra vez e se a quantidade de crédito à economia irá voltar aos níveis de anteriormente. Acho isso muito difícil porque ainda hoje, depois de alguma desalavancagem, o país está endividado. E nós encaramos esse como um dos grandes projetos para o futuro, preocupamo-nos menos em fornecer crédito, considerar-nos-íamos muito felizes se conseguíssemos ajudar as empresas portuguesas, naquilo que estivesse ao nosso alcance, em arranjar capital, mais do que em arranjar crédito.

Depois de toda esta austeridade o país continua a viver acima das suas possibilidades?
É óbvio que continuamos a viver acima das nossas possibilidades como país. A resposta simples é que continuamos a ter um défice.

Falo dos cidadãos e das empresas. Continuam a viver acima das suas possibilidades?
Continuam a viver com níveis de crédito contraídos noutras condições, que, com é óbvio, não conseguem ainda pagar. Isto foi o resultado de muitos anos e não se vai resolver de uma ano para o outro.

Os principais bancos privados vivem momentos muito difíceis. O BCP suporta o peso de um empréstimo da troika e tem um plano agressivo de redução de pessoal. O BES discute a sucessão em praça pública, ao mesmo tempo que apresenta prejuízos de 500 milhões de euros. E o Banif está semi-nacionalizado e negoceia a entrada da Guiné Equatorial no seu capital. Apenas o BPI aparenta alguma tranquilidade. É um bom momento para quem quiser comprar bancos em Portugal?
Pode ser uma boa altura.

E o mercado português interessa a alguém?
Essa é uma pergunta mais difícil de responder. Se os níveis de crescimento da economia voltassem a ter algum significado, e quando digo algum significado é 2% ou mais, penso que poderia voltar a ser do interesse de outros investidores olhar para a banca nacional.

Mas assim, com estes níveis de crescimento, não interessa?
O mercado doméstico é pequeno e portanto, neste momento, não sei se haverá interesse. Pode haver sempre interesse por outras razões, para usar Portugal como plataforma de entrada na Europa, uma plataforma que ligue com países amigos.

E as fusões e aquisições fazem sentido neste momento?
Faz muito sentido pensar nisso, mas talvez seja mais possível quando tivermos a união bancária, quando a semelhança e os níveis de confiança na qualidade dos ativos das instituições, entre si, forem proporcionadores dessas fusões.

Mas seria uma boa ideia?
Em tese, penso que sim porque temos alguma fragmentação.

Estamos a pouco mais de dois meses do final do programa de ajustamento. Portugal já garantiu as necessidades de financiamento deste ano e parte das do próximo ano. E agora o que é que é melhor: uma saída limpa, à irlandesa, ou um programa cautelar?
Vou dar-lhe uma resposta que espero que não choque, mas para mim tanto me faz. É para mim muito menos relevante se a saída é limpa ou não. Não tenho, aliás, a certeza de que a saída limpa da Irlanda tenha sido por iniciativa pura dos irlandeses.

Há teorias que falam de uma imposição alemã.
Penso que não são teorias. Ainda não vi articulado, do lado dos credores, nenhuma espécie de definição do programa cautelar. O que é verdadeiramente importante para Portugal não é se sai à irlandesa, ou não. O que é verdadeiramente importante para Portugal é se existe a vontade política do governo e do maior partido da oposição, com concessões de parte a parte, para acordar um programa para avançar com a reforma que o país precisa.

Mas esse cenário, ao dia de hoje, não parece muito provável.
Não parece, é claramente uma improbabilidade, o que é uma violência para com o povo português. Os cidadãos merecem que os principais partidos políticos façam aquilo que hoje é imperativo e sem isso não vale a pena.

Na prática, a tal reforma do Estado feita com o apoio dos três partidos.
Completamente. A verdade é que depois destes dois anos de programa de resgate ainda estamos com as contas desequilibradas.

Quando olha para estes dois anos e meio de troika no nosso país, para o resultado visível do programa, qual é a avaliação que faz? A estrutura da nossa economia alterou-se de facto? Ouvimos muitas vezes dizer que tínhamos de mudar de vida e que não podíamos voltar à vida de antigamente. Será que vai mesmo ser assim?
Penso que vai ser algo assim, mas só por uma razão, porque não vamos ter os meios de financiamento capazes de continuar a alimentar indefinidamente o endividamento. Isto é verdade para o país, como é verdade para uma família ou para uma empresa. Não se pode gastar mais dinheiro do que aquele que se ganha. É uma evidência e no final de todas as outras coisas que possamos dizer, muita ideologia e muita complicação, muitos sound bites e piadas jocosas, aquilo que fica depois disso tudo é só uma coisa: nós não podemos continuar a gastar mais do que o que somos capazes de gerar. E a nossa riqueza não é suficiente para suportar os nossos gastos, e isso tem que ter um fim. Temos que ter condições para que o investimento doméstico e estrangeiro retorne ao país e para que Portugal seja um país atrativo, para que possamos crescer e resolver os nossos problemas.

O FMI diz que as reformas estruturais têm que continuar. Não deviam estar já concluídas? E vamos ter, como algumas pessoas dizem, 20 anos de ajustamento orçamental pela frente?
É óbvio que deviam estar concluídas, se tivesse havido a vontade política para as implementar. Mas não houve, infelizmente, coisa que aconteceu em Espanha, onde houve união entre os dois grandes partidos; coisa que aconteceu na Irlanda. Infelizmente hoje andamos a discutir o sexo dos anjos, a saída limpa ou a saída não limpa, em vez dos responsáveis, que têm a política como profissão, terem uma obrigação mais patriótica, absolutamente essencial para que o povo português comece a viver melhor o mais rapidamente possível. Para isso têm que se juntar e arranjar as pontes suficientes para fazerem o acordo necessário para implementarem as políticas e para que nós possamos sair deste registo, que já se arrasta há muito tempo e durante o qual já estivemos perto da falência três vezes, o que é um recorde europeu.

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